Dias de luta: livro retrata o rock brasileiro dos anos 80

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Dias de luta: livro retrata o rock brasileiro dos anos 80


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Muita gente pode pensar, mas o rock brasileiro não surgiu nos anos 80. Duas décadas antes, a Jovem Guarda seria o primeiro movimento do gênero no país, a despeito de, musical e esteticamente, ser pouco mais que uma releitura daquilo que era produzido lá fora, principalmente na Inglaterra (auge da “beatlemania”) e na Itália (artistas como Rita Pavone faziam bastante sucesso por aqui). A Tropicália, no final dos anos 60, além de Novos Baianos e Secos & Molhados, na década seguinte, seriam de grande importância para o estilo, mesclando experimentalismo e influências regionais. E também havia Raul Seixas, Tim Maia, Zé Ramalho, Jorge Ben e tantos outros que ajudariam a moldar uma sonoridade particularmente nossa. Mas foi apenas na penúltima década do século XX que o rock nacional foi reconhecido como tal, tornando-se o maior fenômeno pop daquela época. O jornalista Ricardo Alexandre faz um resgate do período em “Dias de luta – o rock e o Brasil dos anos 80” (DBA).

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O ponto de partida do livro é a banda setentista de rock progressivo Vímana, que tinha em sua formação músicos que, futuramente, alçariam voos mais altos em carreira-solo, como Lulu Santos, Lobão e Ritchie. A transição para os anos 80 seria marcada pelo começo da abertura política e por uma cena musical que parecia condenada à estagnação. Mutantes, Novos Baianos e Secos & Molhados (em sua formação clássica) já não existiam; Raul Seixas deixara de acreditar na sociedade alternativa; e nomes que antes eram símbolos de resistência e contestação – notadamente Caetano Veloso e Gilberto Gil – estavam cada vez mais incorporados ao estabilishment.

Vemos então como o punk, principalmente em São Paulo, tenta preencher – pelo menos no discurso – essa lacuna deixada por Caetano e Gil. Paralelamente, a também paulista Gang 90, com toda sua irreverência, abriria caminho para a explosão da Blitz e de toda a cena do Rio de Janeiro. Êxito impulsionado pela pioneira Fluminense FM (a “maldita”), que serviu de plataforma para muitas bandas novas, inclusive algumas de fora do Rio, como os brasilienses do Paralamas do Sucesso.

Com a vendagem de discos atingindo marcas impensáveis para um estilo “marginal”, músicas em trilhas de filmes e de novelas e a consagração de Blitz, Paralamas e Barão Vermelho no Rock In Rio de 1985, a indústria fonográfica (e, consequentemente, outros segmentos) finalmente descobrira o potencial de consumo do filão jovem, que tinha no rock o seu porta-voz. A partir daí, outros centros começaram a chamar atenção; logo, bandas de São Paulo (Titãs, Ira!, Ultraje a Rigor, RPM), Bahia (Camisa de Vênus), Rio Grande do Sul (Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós) e Brasília (Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial) também chegariam ao topo das paradas.

Mas nem tudo eram flores naqueles dias. A censura ainda era um problema, e os “roqueiros” se tornaram o principal alvo da polícia, como mostram as passagens que tratam das prisões de Lobão e Arnaldo Antunes por porte de entorpecentes. Se por um lado tais episódios serviram de inspiração para álbuns clássicos como “Cabeça Dinossauro” (dos Titãs de Arnaldo Antunes) e “Vida Bandida” (Lobão), por outro serviu para municiar o discurso conservador de que o rock era coisa de gente drogada e promíscua – tese reforçada pelo sensacionalismo em torno da doença de Cazuza, portador do vírus HIV, morto em 1990.

A última parte do livro, apropriadamente intitulada “Ressaca”, mostra o rock (e o país de modo geral) rumo a um período de instabilidade. O Plano Cruzado fracassara, a inflação ia às alturas e a insatisfação era geral. Apesar de as vendas de discos continuarem altas, as bandas começavam a se sentir limitadas estilisticamente, ao mesmo tempo em que a atenção do público e o investimento das gravadoras passavam a ser divididos com as novas tendências que chegavam às rádios, como a lambada e o sertanejo. Enquanto o metal de Sepultura e Viper abriam as portas do Brasil para o mundo, o rap, em São Paulo, e o funk, no Rio, ganhavam força como gêneros que representavam a realidade das periferias – uma realidade que parecia bem distante do universo rock.

O retrospecto vai até 1992. Naquele ano, a Legião Urbana lançaria o álbum “V”, inspirado no período Collor. A geração seguinte (Raimundos, Chico Science & Nação Zumbi, Pato Fu, Skank, O Rappa, Planet Hemp) daria as caras pouco tempo depois, trazendo influências mais ecléticas e formando uma nova base de seguidores. Desde então, pouca coisa relevante surgiu no cenário nacional – ou não teve o devido respaldo do público –, e o rock com algum conteúdo ficou relegado ao underground ou ganhou status cult, ou seja, quando, mesmo no mainstream, é mais comentado do que ouvido – Los Hermanos é o melhor exemplo disso. O atual momento vivido pelo país, de estabilidade econômica e consolidação das instituições democráticas, talvez explique o estado letárgico das bandas – veteranas e novatas – e a total indiferença por parte dos fãs. Será que os dias de luta acabaram?

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