Considerada (e com razão!) uma das maiores bandas de rock da história, os Ramones encerraram sua carreira há exatos oito anos. Depois de mais de 2.200 shows, no dia 6 de agosto de 1996 o grupo que inventou o punk rock pisou pela última vez no palco, de onde saiu para entrar definitivamente para a galeria dos grandes do rock. Deixou também para trás uma história de brigas, drogas e desavenças de anos entre seus integrantes, contrastando com a imagem de uma família feliz que os Ramones vendiam para os fãs.

Para os Ramones valia a máxima de que "o simples é que é difícil". Sem muito jeito para firulas, solos ou técnicas instrumentais, o negócio dos caras era tocar o maior número possível de músicas no menor tempo possível, de preferência uma emendada na outra, separadas apenas pelo "one - two - three - four" gritado pelo baixista Dee Dee Ramone (e depois por CJ Ramone) para marcar o início da próxima música enquanto os acordes finais da última canção ainda podiam ser ouvidos pelo público, nessa hora provavelmente hipnotizados pelo ataque sonoro da banda, que conseguia apresentar cerca de 30 músicas em menos de uma hora.
Em agosto de 1974 os Ramones - na época Joey, Tommy, Dee Dee e Johnny - pisaram pela primeira vez no C.B.G.B., clube onde o grupo se apresentou mais de 200 vezes e fez a fama da casa, que existe até hoje. Marcando estes 30 anos, a estreante Editora Barracuda acaba de lançar no Brasil o livro "Coração Envenenado: minha vida com os Ramones". Trata-se da autobiografia do baixista Dee Dee Ramone, escrita em parceria com Verônica Kofman, cuja edição nacional conta com o prefácio assinado por André Barcinski, o maior entendedor no Brasil quando o assunto é "Ramones".
Partindo da infância difícil na Alemanha, para onde o seu pai (um oficial do exército americano) e sua família mudaram após a 2ª Guerra Mundial, o livro de Dee Dee Ramone resgata a sua vida marginal na adolescência já em Nova York, o início da formação dos Ramones, as incansáveis turnês, as brigas, a sua saída da banda em 1989 e vai até aquele que deveria ter sido o último show dos Ramones em Buenos Aires, em 16 de março de 1996.
Sobre o fim da banda, ele escreveu: "simplesmente me alegro que tenha acabado, embora tenha sido divertido, em parte". Na época do lançamento do livro na Inglaterra, em 1997, Dee Dee Ramone ainda trazia muitas mágoas em relação aos Ramones. Porém, nos últimos anos de sua vida algumas feridas começaram a ser curadas o que possibilitou inclusive participações como a de Marky, CJ e Joey em seus projetos solo.
Quando o baixista fundador dos Ramones morreu por overdose, em 6 de junho de 2002, ele estava com 50 anos e na ativa. Inclusive, estava de viagem marcada para o Rio Grande do Sul onde iria se apresentar ao lado do baterista Marky Ramone e do baixista CJ Ramone numa turnê com os gaúchos do Tequila Baby. A morte de Dee Dee Ramone pegou a todos de surpresa, inclusive seus amigos. Afinal, como ele deixou claro em "Coração Envenenado", na metade dos anos 90 ele estava longe das drogas pesadas. Mas Dee Dee não resistiu e foi vencido pela heroína, da qual fazia uso desde a adolescência. Como Dee Dee afirmou no livro, uma história sobre os Ramones não poderia jamais ter um final feliz. Então, por que o final de sua vida seria?
"Coração Envenenado" está aí para ser devorado por fãs e amantes da boa música em geral. Escrito do mesmo modo que suas canções, de forma direta, simples, mas transbordando emoção e personalidade, o livro é a história de alguém que aos 12 anos de idade já se considerava um fracassado, mas que mesmo assim conseguiu viver a vida à sua maneira, protegido do mundo apenas pelas lentes do seu óculos escuros e por aquela cara de mau que só ele conseguia ter. Esse deixou saudades...

Escrito em primeira pessoa, com a colaboração da jornalista Veronica Kofman, Coração Envenenado impressiona pela mistura entre o tom ingênuo e coloquial da narrativa e a pungência dos fatos narrados. Os demônios que atravessam o livro, aqueles que infernizaram a existência de seu autor e dos quais ele tenta se livrar ao escrever, nos falam também sobre a cena punk nova-iorquina, sobretudo nos anos 70, e a conquista da Inglaterra, o berço do movimento; e o fazem como se fôssemos, nós leitores, seus camaradas. Não há, portanto, um grande tratado sobre a história da música, do rock ou do punk neste livro. Não cabe aqui tal distanciamento.
O que há é alguém, uma personagem de fato histórica, falando sobre sua infância na Alemanha pós Segunda Guerra, sua família desestruturada, a iniciação tão prematura nas drogas, a adolescência no Queens, a formação da banda, seus amigos, namoradas e desafetos, seus vícios e as tentativas de se livrar deles, seus problemas de adaptação ao mundo.
Terminada a leitura deste relato tão honesto quanto subjetivo, temos um quadro completo na mente, como se tivéssemos, a partir de então, acesso a meandros históricos que não nos poderiam ter sido revelados de outra forma.
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