X Factor: o álbum mais injustiçado do Iron Maiden?

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X Factor: o álbum mais injustiçado do Iron Maiden?


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“Pronto. Só faltava essa. Já estava demorando até alguém querer falar bem desse disco. Deve ser mais um fã cego querendo arrumar justificativa pra tudo o que o Maiden faz. Será que o sujeito que escreveu esse texto não tem nada melhor a fazer do que ficar procurando cabelo em ovo ou tentando explicar o inexplicável?” Eu imagino que muitos dos que passarem o olho nessa matéria já estarão pensando assim a essa altura. Dos que ainda não estão, alguns vão fazê-lo antes de terminar de ler a resenha. Eu sei bem do vespeiro em que estou enfiando a mão ao redigir essas linhas. Muitos acharão até mesmo que é algo totalmente dispensável e fora de propósito, mas como a seção trata de álbuns que algumas pessoas consideram injustiçados, aqui nós temos mais um que é citado como exemplo por muita gente. No entanto, seria o primeiro disco da polêmica ‘era Blaze’ no Iron Maiden um trabalho realmente menosprezado de forma injusta? É dessa discussão que estão todos convidados a participar. De qualquer forma, vamos em frente, pois talvez você entenda e até concorde com o que está escrito aqui...

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No começo da década de 90, após o lançamento de “Fear Of The Dark”, o mundo do metal foi sacudido por uma notícia devastadora para uma enorme quantidade de fãs: Bruce Dickinson anunciava que deixaria o Maiden para se dedicar à sua carreira solo. E agora? Não podia ser verdade! Afinal, como imaginar a Donzela sem seu frontman de tantos anos? A tristeza provocada pelo anúncio tornava-se ainda pior quando se tentava fazer prognósticos sobre o futuro da banda, já que... quem seria capaz de ocupar o posto? Seria aquele o fim de uma das maiores bandas da história do heavy metal?

A curiosidade em saber se a banda continuaria e quem seria seu novo vocalista aumentou quando Steve Harris resolveu promover um concurso para decidir quem seria responsável pelo microfone do grupo. A peleja era aberta para quem se achasse com capacidade para tal. No entanto, Harris tinha conhecido alguns anos antes uma banda na época quase anônima, chamada “Wolfsbane”, que tinha um tal de Blaze Bayley nos vocais. O baixista teria ficado impressionado com o desempenho do cantor. O que muita gente diz é que o posto de vocalista do Maiden foi decidido pelo chefão independente de concurso, audições e do que quer que fosse, num episódio lamentável. Entretanto, marqueteiros que são, Steve e a banda não perderiam a oportunidade de fazer um enorme movimento em torno do nome do grupo. Com isso, a história foi adiante. Entre os fãs, apareceu todo tipo de suposição e sugestão, desde artistas já consagrados até revelações. Rob Halford, Michael Kiske e muitos outros se viam no meio das especulações. De fato mesmo, entre os que eram considerados a sério para o posto, figuravam nomes como o do brasileiro André Matos, então no Angra, e o de Doogie White (que iria para o Rainbow), que chegou a ser anunciado como finalista ao lado de Bayley. No fim, a decisão foi a mais improvável e suscitou muitos comentários sobre a realidade do tal concurso.

Decidido o nome do substituto, era hora de colocar tudo pra funcionar de novo. As coisas não estavam sendo fáceis para Steve Harris. A saída de Bruce criou um enorme problema para o chefe e sua banda que, como todos sabem, é seu projeto de vida. Como se já não bastasse isso, o baixista ainda passava por um processo de separação, de forma que aquele momento era até de certa depressão para Steve. Existiram boatos na época de que foi cogitada inclusive a possibilidade de a banda encerrar suas atividades. No entanto, Harris decidiu passar por cima de tudo aquilo e, com o apoio de seu velho companheiro Dave Murray, começou a reconstrução do Maiden com o mesmo afinco de alguém em início de carreira.

A banda se mandou para o estúdio particular de Harris e começou o processo de composição de um novo álbum. E começou do zero, pois a história diz que a banda só iniciou as composições após a chegada do novo vocalista. O plano era que todos dessem vida às suas idéias para reuni-las e aproveitar o que surgisse de melhor. Dessa forma, não seria apenas Bayley que teria que se adequar ao estilo do Maiden, mas o grupo também se ajeitaria segundo o estilo do cantor, que poderia inclusive contribuir com novas idéias e composições. A Donzela demorou muito para lançar material inédito após a chegada do novo vocal, já que Blaze ficou fora de combate por um bom período devido a um acidente de moto. No entanto, quando lançou o disco, talvez nem imaginasse o rebuliço que isso causaria, sob os mais diversos aspectos. Após tantos anos com Bruce, cuja voz se identificava com o som da banda de forma espantosa, o mundo conhecia um novo Iron Maiden, que se mostrava com o enigmático nome “The X-Factor”.

Epa, e agora? Um álbum do Maiden sem Bruce e Adrian Smith? Sempre após um novo lançamento do Maiden, alguns críticos e mesmo alguns fãs costumam torcer o nariz de início, considerando que tal trabalho já não tem mais a energia e qualidade de algum anterior. Do “Somewhere In Time” (que já mereceu uma resenha nessa seção) em diante, isso é algo que foi se tornando cada vez mais evidente, a cada novo álbum. Entretanto, não tem nada, mas absolutamente nada, que chegue perto do que foi a recepção a “The X-Factor”. A estréia em oitavo lugar nas paradas inglesas, pior posição da banda desde “Killers”, já acendia um sinal amarelo na frente de Harris e cia. O próprio Blaze conta que não se continha em alegria por um álbum cantado por ele ter chegado a tal posição nos charts do Reino Unido, mas o restante da banda não demonstrava essa empolgação toda. Muitos poderão dizer que seu sucessor, “Virtual XI” teve acolhida ainda pior, mas a questão é que, no disco de 1998, muitos já não esperavam grande coisa. Outro fato curioso sobre esse décimo disco da banda é que ele, de início, não teve uma aceitação muito boa mas ainda conseguiu agradar a alguns fãs. Com o passar do tempo, foi sendo cada vez mais criticado e ridicularizado e, a partir de certo momento não bem estabelecido, foi se tornando um pouco melhor avaliado, a ponto de se encaminhar a passos largos atualmente para se tornar um disco ‘cult’, daqueles que nunca serão considerados obras-primas, mas que sempre terão seguidores fiéis e cada vez mais numerosos.

De fato, o ‘fator X’ não é uma obra-prima. De forma alguma é objetivo da matéria querer classificá-lo como tal. E por não ser uma obra-prima, acaba que também não é superior a vários dos álbuns que a banda já tinha em sua discografia. Apesar de gosto ser uma coisa subjetiva e individual, essa é, inegavelmente, a opinião da maioria dos fãs da banda. A questão que se pretende discutir então é a seguinte: esse disco é realmente a coisa ruim e desqualificada que tanto se falou? Será que o diabo é tão feio quanto o pintam?

O Maiden, que tanta gente gosta de criticar, usando o argumento de que a banda segue fórmulas prontas, cai na mesmice, tem medo de se arriscar, trazia um trabalho muito diferente de qualquer coisa que já tivesse lançado. A própria escolha de Blaze Bayley como vocalista já era uma mudança radical de estilo. Pois não é que esses mesmos que reclamavam da pouca afeição da banda a mudanças, reclamaram das mudanças também? Estão lá as cavalgadas, os duetos de guitarra, os solos, mas “The X-Factor” é, sem dúvidas, o disco mais melancólico, sombrio e obscuro da história da banda. Não era tão pesado enquanto distorção, mas o clima era pesado. Algumas letras também fugiam um pouco ao Maiden clássico, falando mais sobre temas que refletiam o próprio estado de espírito dos compositores. Só que a saraivada de críticas que esse trabalho sofreu vai muito além de sua temática e seu clima. A coisa já começou pela capa. Após tantos discos, singles e todo tipo de material trazendo os clássicos desenhos de Derek Riggs, com o monstro-mascote-ícone Eddie, eles resolvem inovar e trazem na capa um Eddie mais humanizado, quase que um ‘boneco’. A idéia que no começo até parecia legal, depois de certo período já não era tão bem sacada assim. Embora isso nada tenha a ver com música ou qualidade de um CD, teve gente que já não agradou da coisa desde aí. A produção, assinada por Steve Harris e Nigel Green, não era nenhuma maravilha, sobretudo quando lembramos os trabalhos de Martin Birch. E o principal, as músicas, será que também são tão ruins assim?

O álbum se inicia de forma totalmente atípica para os padrões do Maiden. Acostumada com aberturas rápidas, velozes e enérgicas para seus discos, a banda iniciava o novo trabalho com uma música de mais de 11 minutos, introduzida por um coro de canto gregoriano e um instrumental lento, com um dedilhado de guitarra acompanhado pelo baixo e sons de teclado. A banda viria a usar e abusar desse expediente em todo o seu trabalho posterior, inclusive após o retorno de Bruce e Adrian, mas, na época, essa estruturação não era tão constante assim. “Sign Of The Cross” é uma epopéia, cadenciada, com excelente instrumental, várias quebras de ritmo, linhas melódicas entremeadas por riffs pesados, partes lentas se alternando com passagens mais rápidas e uma linha vocal que se encaixava muito bem no clima sombrio da música. Por que dizer então que uma canção assim seria ruim? A prova final da qualidade dessa música viria anos depois, quando muita gente considerou que a canção na voz de Dickinson ganhava ares de um clássico da banda.

“Lord Of The Flies” transitava entre o heavy metal simples e o hard rock, com bons riffs e outro vocal bem encaixado de Bayley. A terceira música, “Man On The Edge”, remetia ao clima um pouco menos sombrio que a banda mostrava em seus áureos tempos. Uma música mais rápida, mais ao ‘estilo Iron Maiden’ e, por isso mesmo, uma das mais queridas pelos fãs nessa fase. A melancolia e o tom obscuro retornariam em “Fortunes Of War”, música que traz uma excelente interação entre o clima do instrumental e a idéia que a banda queria passar com a letra, além de evoluir para uma pauleira na sua segunda metade, e “Look For The Truth”, na qual Blaze Bayley errava a mão em alguns momentos. E o que dizer então da simplicidade das melodias de “The Aftermath”, que são justamente sua maior qualidade. “Judgement Of Heaven”, que algumas pessoas adoram e outras tantas não suportam, traz grandes qualidades em sua cadência, na melodia vocal e no refrão em tom de lamento.

“Blood On The World’s Hands” é um dos pontos mais altos do disco, desde a intro com o baixo de Steve Harris até seu tom ao mesmo tempo agressivo e dramático. “The Edge Of Darkness”, assim como “Man On The Edge”, trazia resquícios da sonoridade antiga da banda, sendo assim também uma das mais queridas pelo público em geral, ainda que nunca tenha sido trabalhada pela banda. “2 A.M.” é uma espécie de balada, que se não traz nada de extremamente belo ou empolgante, também não tem nada que a comprometa enquanto boa música, sendo inclusive aqui um dos momentos onde Blaze mostrava potencial. A derradeira faixa é a mais fraca. “The Unbeliever”, apesar de alguns bons momentos numa passagem melódica no meio da música, não convencia muito. Gers e Murray, se não são Smith e Murray, ainda mostram um bom entrosamento. Steve Harris colocou o baixo numa altura impressionante na mixagem final, mas isso até combinava com a sonoridade do álbum. Nicko McBrain sempre foi um cara que jogou para o time. Seu trabalho nesse disco não tem a exuberância dos tempos do “Piece Of Mind” mas se encaixa perfeitamente na nova proposta da banda.

É compreensível que um fã da banda, sobretudo os mais antigos, se assustasse e não aceitasse tais mudanças. Quem se lembrava da crueza dos 2 primeiros discos e da fase clássica da banda com Bruce realmente teria dificuldades em se acostumar com o estilo sombrio, introspectivo e cadenciado desse novo Maiden. Confesso que eu mesmo, como fã desde a fase mais clássica da banda, não aceitei bem aquela nova realidade. Com o passar dos anos, após várias audições do álbum, após amadurecer um pouco e me abster de radicalismos, passei a tê-lo em conta como um excelente trabalho. A questão aqui não é colocar uma opinião pessoal como se fosse uma verdade absoluta, mas trazer para a discussão um tema que já foi levantado em várias ocasiões e que se encaixa bem com a proposta dessa seção. Um disco, para ser bom, tem que ser melhor que os anteriores ou ser bom é uma qualidade intrínseca a algo? “The X-Factor” não é o melhor trabalho da Donzela, não se equipara em nível a obras como “Piece Of Mind” e “Powerslave”, só que também não merece tanto desdém e crítica como se observa. Ele é um trabalho de grande qualidade, que seria a grande obra na discografia de muita gente. Não são poucas as bandas que sonhariam com um álbum assim em seu currículo. Dentro desse disco existem várias passagens instrumentais excepcionais e, inclusive, algumas boas linhas vocais. Se o clima sombrio, melancólico e pessimista, associado a uma maior cadência e ‘lentidão’ nas músicas o afastam das características mais marcantes da banda, é fato também que justamente isso lhe confere uma originalidade e ‘alma própria’ impressionantes.

Muitos que criticam o trabalho falam que, na voz de Dickinson, o álbum seria maravilhoso, o que significa dizer que, então, as músicas são boas. Outros já dizem que ninguém o salvaria. Um grande problema foi o momento histórico em que foi concebido, tanto da banda quanto do cenário metal. E ser lançado sob o nome Iron Maiden faz com que a pressão e o rigor ao se analisar o trabalho sejam elevados à estratosfera. Outra coisa que fez parte de seu insucesso foi o vocalista. Não por Blaze Bayley ser ruim, pois isso ele não é. O cara tem uma carreira solo de três discos (quem sabe um dia não comentamos um deles aqui) para provar isso. Mas os problemas de Bayley começam por seu estilo ser diametralmente oposto ao de Bruce, sob o que se quiser analisar, e trazer um estilo totalmente diferente ao Maiden era algo quase impossível. Ah, mas Bruce tem o estilo totalmente diferente do Paul Di’Anno e se deu bem na banda. Sim, mas a questão não é ser parecido ou diferente do antecessor, mas ter um estilo que se encaixe ao som da banda. Arrisco a dizer que não haveria vocalista nesse mundo que pudesse agradar aos fãs do Maiden substituindo ‘Mr. Air Raid Siren’. Talvez só alguém com estofo como um Dio ou um Halford.

O maior dos problemas de Blaze não foi o que ele fez no estúdio e, sim, o que fez ao vivo. Faltava-lhe experiência, vivência num palco grande e um pouco mais de carisma no início. Ele é um ótimo vocal para heavy metal, mas não tem grande versatilidade, seu tipo de voz não permite grandes variações e exige que as músicas sejam bem encaixadas no seu estilo, o que era tudo o que o Maiden não tinha como oferecer. Além disso, fazê-lo cantar as linhas vocais altíssimas de Bruce era algo que não tinha como dar certo. Desafinava ao tentar alcançar os tons mais altos, se atrapalhava, perdia até mesmo o tempo das músicas. Então vão dizer, se o cara fez isso tudo, como falar que ele é bom vocalista? Cantando músicas que se enquadram em suas características ele sempre entregou excelentes performances. Não há explicação para o porquê de Steve Harris não ter percebido isso antes de chamá-lo para o grupo. Noventa e nove por cento dos fãs (eu incluso) preferem Bruce na banda e festejaram sua volta como se estivessem adorando uma divindade. Isso é uma coisa, agora querer crucificar Bayley como, aliás, foi feito e responsabilizá-lo pelo fato de a banda não ter atingido o mesmo sucesso de outrora nada mais é do que maldade.

Agora sim, você já pode esbravejar, praguejar, discordar de tudo o que foi escrito aqui. Faça isso mas, de preferência, após dar uma outra ouvida no “The X-Factor”. Quem sabe alguém que ainda não descobriu o bom álbum que existe escondido entre tantas críticas, possa fazê-lo agora? Tenho certeza que, da mesma forma que muita gente não comunga das idéias expostas acima, outros tantos concordam com boa parte do que foi dito. O importante é que cada um possa dar a sua opinião. Até uma próxima...

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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