Rock: um dependente que não tem vergonha de admitir

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Rock: um dependente que não tem vergonha de admitir

Por Dilan Toñomars

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O ROCK CAUSA DEPENDÊNCIA: NÃO HÁ NÍVEIS SEGUROS DE CONSUMO.

Eu sou dependente do Rock. Lembro-me que meu primeiro contato com o Rock foi na casa de minha avó. Ia passar o feriado, e brincando no quarto de meu tio (o caçula de quatro irmãos) encontrei no fundo do guarda roupa um disco do BLACK SABBATH. Então assustado esperei meus avós irem dormir, e escutei na antiga vitrola aquele delicioso “Volume 4”. Era como voar nas nuvens. Tudo mudava de cor e o tempo passava lentamente.

No outro dia tive muita vergonha e resolvi colocar uma pedra em cima daquilo. Mais tarde, quando eu tinha doze anos tive minha primeira experiência forte, quando fui presenteado por um primo com um disco do OZZY. Levei para casa correndo quase vomitando de ansiedade. Entrei no meu quarto coloquei o fone de ouvido e ouvi. Pensei: “Meu Deus! É a mesma voz de quando eu ouvi aquele disco na casa da vovó. Só que com melodias diferentes.” E então eu vivi novas sensações. Guardei o disco e quando estava sozinho em casa ouvia para me deleitar e sair da realidade.

Ouvindo eu criava o meu mundo. Se meus pais soubessem daquilo eu estaria frito e isso só me excitava mais ainda. Fui criado em família muito conservadora de advogados e médicos, ou seja, eu não poderia ser a ovelha negra da família. Ou poderia? Mas voltando, eu usava o disco do OZZY sempre que podia, e isso começou a ser frequente.

Em todas as festas que ia, eu levava o OZZY comigo, seja numa festa de amigos em que eu poderia ouvir alto, apesar das críticas dos caretas, ou até mesmo em uma festa de família que eu levava escondido no Discman. Já não conseguia sair de casa sem antes ouvir “No More Tears” ou Road To Nowhere” só para perder a timidez.

E eu pensava “É só uma fase. Eu tô curtindo a vida um pouco pô, mereço né?! Logo mais eu arranjo um trampo e a porra toda vai ficar séria, e vou ter de largar o rock... mas beleza”. Logo passei a ouvir o CD todos os dias, aquelas faixas já não me satisfaziam mais. A viagem já não era mais a mesma. Então tomei coragem e menti pela primeira vez pelo Rock. Pedi dinheiro à minha mãe para “comprar um livro para a escola”, e quando ela me deu aquela grana, eu não conseguia dormir pensando no dia seguinte em que eu iria... bom, no dia seguinte saí da escola aflito, corri até a loja de discos mais próxima e comprei em disco do IRON MAIDEN. Cheguei em casa e fui ouvi-lo diretamente.

O que era aquilo? Era muito mais pesado do que eu havia usado antes. A viagem era completamente diferente. Daí pra frente eu já não conseguiria mais ficar sem IRON MAIDEN todos os dias. Passei do IRON para o MEGADETH daí foi um pulo até chegar no PANTERA.

Passava os dias todos ouvindo rock. Antes de ir pra escola, durante as aulas, depois da escola a tarde toda até dormir. Eu ficava no meu quarto trancado o tempo todo ouvindo rock. Passava dias sem comer na escola juntando o dinheiro do lanche só pra comprar um disco dos BEATLES.

Os professores perceberam o meu baixo rendimento. Eu não anotava nada mais. Só ficava desenhando os logotipos das bandas que eu gostava nos cadernos. Na prova a professora perguntava quanto era 333 x 2, eu escrevia a letra de “666 The number of the Beast”. Na pergunta em que pedia para se descrever uma metamorfose, eu falava que era ambulante e que era melhor do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Passava os recreios inteiros com meus amigos do rock imaginando a banda perfeita. Sim, eu fiz amigos que usavam o rock também, e só andava com eles. Até que por intermédio de um amigo meu, que eu comecei a usar SLAYER e SEPULTURA. É eu tava pegando muito pesado. Estava escutando RATOS DE PORÃO pra dormir tranquilo.

Meus pais foram chamados na escola. Quando chegaram em casa minha mãe chorando muito disse que eu era a decepção da família e que iria me levar pro carnaval de Salvador pra eu largar esse tal de Rock. Meu pai não me dizia nada só me olhava com cara de decepção. Eu jurei que ia parar, mas essa foi apenas a primeira vez que jurei que ia parar com o rock para a minha família. Minha vó, musicista de piano entrou em depressão em razão disso.

Eu tava pegando muito pesado. Misturava muito. Me lembro de uma tarde em que ouvi um disco inteiro do LYNYRD SKYNYRD apenas pra abrir o apetite, e que em seguida ouvi “Alive I”, “II” e “III” do KISS em seguida. Como se não bastasse já quase de noite ainda pilhado pelo “Alive III”, eu escutei “Dark side of the moon”. Que viagem foi aquela!!!

No entanto, minha vida inteira estava mudada e eu não percebia. Quase não parava em casa mais. Quando não estava na galeria do rock com meus amigos estava curtindo um som na casa de um deles. Ah a galeria do rock!! A Amsterdã de qualquer rockeiro paulistano. A essa altura meu cabelo passava dos ombros, eu só andava de preto, e possuía mais de dez brincos e percings pelo corpo.

Na escola eu não era muito bem visto. As garotas não gostavam de mim. Lembro de uma vez que consegui ouvir a conversa de duas que elegiam o mais bonito da turma e todas disseram que eu era muito bonito, mas que ficar usando “rock pauleira” estava me estragando.

Então meus pais resolveram tomar uma medida drástica. Compraram a coleção inteira do João Gilberto e me obrigaram a ouvi-la. Eu vomitava de hora em hora era horrível. Mas no fundo eu entendia o motivo deles.

Lembro-me que numa tentativa desesperada da minha mãe, ela convenceu ao meu pai que fossemos ao um show do Oswaldo Montenegro e me levaram juntos. Mas eu levei meu Ipod escondido com a discografia completa do AC/DC, coisa fina, difícil de encontrar por essas redondezas. Porém, já alucinado pelo Rock não me lembrei que teria revista na porta, e ao passarmos pelo detector de metal e meu Ipod ser detectado, minha vida desmoronou. Eu não consigo esquecer a cara de desgosto da minha mãe. E a vergonha que a fiz passar. Então eles resolveram cortar toda forma de dinheiro e qualquer acesso ao rock que eu pudesse ter. Mudei até de escola.
Até que eu tentei arrumar um emprego comum, mas me negava a tirar meus brincos e cortar meu cabelo. Logo não é difícil concluir que não parei em nenhum dos empregos. Eu precisava fazer alguma coisa pra me manter no Rock, foi então que resolvi fornecer Rock.

Com alguns amigos consegui um velho violão, onde fui ter aulas de violão na igreja perto de casa. Minha mãe havia pensando que eu estava regenerado. Mas tudo que eu aprendia la, eu usava no rock. E assim foi. Tornei-me o maior fornecedor de rock da minha escola.

Passava os recreios tocando violão pra todos que chegavam na roda e pediam uma música. Todos os fins de semana eu ia pra festas tocar violão. Eu tocava de tudo desde “Pais e Filhos” até “Wish you were here”. E aquilo me consumia cada vez mais.
Minha família havia me abandonado, afinal eu sempre chegava de madrugada em casa nos fins de semana. Mas pra mim estava tudo bem. Eu adorava tudo aquilo. O status de fornecer o Rock da galera é muito bom.

Tornei-me muito respeitado na escola e nos arredores. Até que resolvi ampliar e já totalmente entregue ao Rock eu vendi o violão, laveis alguns carros, juntei uma grana e comprei uma guitarra, um amplificador e alguns pedais.

Pronto. Já não escondia de ninguém. Nem da minha família. Muitas vezes meus pais chegavam em casa e eu estava estudando a técnica do Tapping sentando no sofá da sala.

Já recebia os amigos em casa para ouvir um som. Até que um dia um conhecido de um conhecido levou um baixo e tocamos “Smoke on the water” juntos. Aquilo era fantástico. Dali pra bateria e pro vocal foi tudo muito rápido. Sim eu havia formado uma banda dentro da minha própria casa.

Meus pais já nem se importavam mais, simplesmente fingiam que eu não existia. E tocávamos demais, ensaiávamos a tarde toda. Até que conseguimos executar com perfeição “We can´t this be love” do VAN HALEN.

Daí pra frente a coisa foi ficando cada vez melhor. Eu já havia me formado na escola (em mais um tentativa desesperada de minha mãe de me tirar do rock ela me obrigou a estudar muito, e eu passei no terceiro colegial com louvor, mas não adiantou, na comemoração rolou muito GRAN FUNK e MUTANTES, e eu me acabei também, hehe!!) e então marcamos nossa primeira apresentação num bar de rock de São Paulo.

Aquilo tudo era mágico e aos primeiros toques da bateria ouvi a galera cantando junto com o vocalista “We’re not gonna take it” foi demais. Eu havia nascido pra aquilo. Passei os próximos dois anos tocando em bares da noite de São Paulo e do interior.

Até que um dia acordei com minha mãe chorando muito ao meu lado no sofá de casa. Eu havia chegado cansado de um show. Estava muito calor eu tirei a camiseta e acabei adormecendo no sofá. Ela viu a tatuagem que eu havia feito nas costas. Sim, eu fiz uma tatuagem. Eu estava no fundo.

Minha mãe então resolveu me expulsar de casa. Eu havia chegado ao limite da indignidade humana. Minha família estava me rejeitando. Mas graças a um tecladista que tentou entrar na banda eu logo consegui um emprego na galeria do rock e as coisas começaram a mudar.

Eu percebi o quanto estava pegando pesado com o rock, e até onde eu iria fazer sucesso com uma banda de rock no Brasil e comecei a cair na realidade. Eu já não usava tanto rock e sabia que precisava formar uma família.

Conheci uma garota que também gostava de rock. Porém ela me mostrou que o rock pode ser usado de outra forma. Logo no nosso primeiro encontro eu me assustei, mas achei melhor não comentar, mas ela tinha tinta no cabelo. Até que fomos numa festa estranha com gente esquisita e eu havia bebido demais, e ela rachou o bico de mim, e daí fomos nos conhecendo nos apaixonando e ela me mostrou outra visão de mundo. E então resolvemos ir morar juntos. Hoje ela é minha esposa e tenho dois filhos lindos que são o orgulho dos meus pais.

Quanto ao Rock, continuo usando todos os dias. Quando estou indo ao trabalho no carro. Ou quando chego em casa e pra relaxar ouço um pouco de WHITESNAKE. Nos fins de semana eu pego mais pesado, ouvindo uns três ou quatro CDs do BLACK LABEL SOCIETY, e assim vai... Sim. Eu sou dependente do Rock e não tenho vergonha de admitir isso.

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