Muito já foi dito sobre a explosão do hard rock na década de oitenta, de onde surgiram as grandes bandas que todos já conhecem e seus discos que são citados até os dias de hoje. Mas e os outros conjuntos, aqueles que lançaram um ou outro disco, ficando na maior expectativa, não estouraram ou que, no máximo, tiveram seus “quinze minutos” de fama?
Pois bem, este texto é dedicado a estas bandas de segundo escalão, que lançaram ótimos trabalhos e caíram no esquecimento ou que continuam na ativa até hoje, tocando em locais tão pequenos que nem vale a pena mencionar, fazendo sempre o mesmo rock n´ roll pesado que ainda faz a cabeça de muita gente por aí.
A grande maioria destas bandas não se enquadra no quesito “visual andrógino” tão em voga na época, pois seus discos não chegaram a fazer sucesso tempo suficiente para que as grandes gravadoras exercessem pressão nesse sentido. São somente alguns amigos tocando o que curtem, com sonhos e muita ansiedade na cabeça.
Vamos a alguns destes bons discos:


Tudo começa em 1988, num destes típicos clubes noturnos de New York, quando Sweetheart, recém-saído do Canadá, conhece o compositor Danny, que já tinha bons músicos também dispostos a começar algo, mas faltava um vocalista que se encaixasse de maneira satisfatória. Nos ensaios o entrosamento é excelente e surge The Throbs, com um som simples e muito contagiante; aquele rock n´roll setentista cru como o velho Aerosmith e Stones faziam no início de suas carreiras, mas bem mais pesado e com um leve cheiro psicodélico.
Dão uma geral tocando em tudo quanto é clube de New York e sem nenhuma demo, apenas na raça, acabam fechando contrato com a Geffen Records, que fica bastante impressionada com o que vê e escuta, tanto que aciona Bob Ezrin, famoso por produzir Alice Cooper, para a produção de seu primeiro e único disco, “The Language of Thieves and Vagabonds”, que sai em 1991.
Cheio de idéias diferentes para cada faixa, apresentando músicas pesadas e variadas, onde o grande destaque vai mesmo para o tatuadíssimo Sweetheart, que com sua voz marcante, entre berros e excelentes melodias vocais consegue realmente chamar a atenção. Com canções pesadas como “Underground”, “Come Down Sister”, “It's Not The End Of The World”, a bonita balada bem Stones “Honey Child” e a viajante “Ocean Of Love”, a banda parte se apresentando nos EUA, Europa e Japão. Mas, apesar de ter um disco e tanto em mãos, platéias que interagissem com sua música onde quer que toquem; o que poderia ser promissor cai no marasmo, única e simplesmente pelo fato de todas as gravadoras da época começarem a focalizar suas atenções para o novo filão do momento: o grunge.
Apenas como citação, a capa de “The Language Of Thieves And Vagabonds” é uma reprodução de uma tela pintada em meados do séc. XIX por um paciente de um manicômio que havia esfaqueado seus pais, sendo uma pintura com tantos detalhes que realmente nunca chegou a ser concluída.


Mas foi em 1988, com seu quarto trabalho, “Blow My Fuse” que a banda estoura nas paradas com a baladinha ”Dont´t Close Your Eyes”. Mas o disco não é somente uma faixa lenta, é puro peso e refrões que grudam na cabeça, como nas faixas “Red Light, Green Light, TNT”, “Boomerang” ou “Blow My Fuse” entre tantas outras. Kix ganha o disco de platina e parte em turnê com seus ídolos AC/DC, Aerosmith, David Lee Roth, Ratt e muitas outras feras da época. E o sucesso tão sonhado durou apenas um momento, pois mesmo estando no topo do mundo, a situação financeira do grupo estava totalmente deteriorada. Para onde ia o dinheiro das turnês, merchandise e venda dos discos?
Entre este e outros problemas, bastante abalada com a atitude dos tubarões da indústria fonográfica e com todo o glamour-relâmpago que ficou para trás, Kix, por amor à música arranja forças para seguir em frente, mas tocando novamente em pequenos clubes e botecos. Aproximando-se musicalmente cada vez mais da sonoridade do AC/DC, lança ainda dois bons discos de estúdio e um ao vivo, até encerrar as atividades em 1995. O vocalista Steve Whiteman então monta o Funny Money, banda sonoramente até similar ao Kix, onde lança quatro álbuns e está na ativa até os dias atuais.


Formado inicialmente por Alex Mitchell (vocals), Ricky Beck Mahler (guitarra), Gary Sunshine (baixo) e por Ryan Maher (bateria), era uma banda bem marginal, bastante chegada a umas drogas, com uma imagem áspera e por isso fazia pouco caso dos conjuntos que estavam no topo, principalmente aquelas que usavam quilos de maquiagem e purpurina.
Seu primeiro e homônimo disco de 1988 é considerado um clássico no gênero, mas esse “Vices”, seu terceiro trabalho, é bem mais variado e pesado, talvez pela alteração na formação, sendo que Sunshine foi para a segunda guitarra e o novato Zowi assumiu o baixo. “Vices” apresenta músicas bem despojadas, sacanas e até certo ponto relativamente alto-astral, com ótimos trabalhos nas guitarras gerando momentos marcantes em toda a audição deste disco.
Circus of Power desde o início sempre teve lá seus problemas com os executivos engravatados, nunca conseguindo realizar dois discos consecutivos na mesma gravadora. E da próxima vez não seria diferente: os mesmos empecilhos começam novamente, tanto que seu próximo e derradeiro registro, “Magic & Madness” de 1993 tem um sentimento bem pessimista, e seu típico hard rock sujo apresenta um blues bem mais acentuado. Comenta-se que atualmente a banda, devidamente reformulada, está novamente compondo material para um novo trabalho, mas o assunto acaba por aí, pois não houve mais nenhum lançamento.


Posteriormente, Greg monta uma banda que leva seu sobrenome, Giuffria, e, com dois álbuns trazendo um hard rock bastante melódico e majestoso, logo atrai novamente a atenção de Gene, que contrata o grupo para Simmons Records, que era uma extensão da major RCA.
Logo de cara o prestativo Gene já começa a orientar para que o grupo alterasse seu nome, resultando em House Of Lords, sem contar que pressionou para que também se demitisse o vocalista original, David Glen Eisley. A banda fica então com Greg Giuffria nos teclados, o estupendo vocalista James Christian (que tem um timbre bem semelhante ao de David Lee Roth), Lanny Cordola na guitarra, Chuck Wright no baixo e o bastante técnico Ken Mary na bateria.
Logo lançam seu debut, com músicas carregadas de belas melodias e dramaticidade, perfeitas para serem apresentadas em grandes arenas. As músicas não tinham aquele peso, mas havia distorção suficiente para chamar a atenção de muita gente. Faixas como “I Wanna Be Loved”, “Hearts Of The World”, “Under Blue Skies”, “Call My Name” e “Love Don't Lie” (cujo clip rolou direto na MTV) mostram a grande performance e bom gosto nas composições. Porém, em mais uma dessas peças que a vida nos prega, o disco passa meio despercebido pelo público e não vende muito bem.
A desilusão bate e começam-se os problemas de alteração na formação; o segundo álbum “Sahara” vem recheado de convidados ilustres e vende melhor, conseguindo disco de platina. Mas não tem jeito, o House Of Lords racha de vez... Sobrando somente Greg e James, lançam ainda um terceiro disco caça-níqueis para o mercado japonês. E somente em 2002, dez anos após esse último disco, o House Of Lords se junta novamente e libera o apenas razoável “The Power And The Myth”.
LOVE/HATE
Blackout In The Red Room
(1990 - Columbia)


Em 1988 são contratados pelo grande selo Columbia, que passa a investir imensas quantidades de dinheiro na divulgação da banda, tornando-os imensamente conhecidos e somente depois de dois anos nesse esquema em cima do público rocker é que permitem ao conjunto gravar seu primeiro disco, intitulado “Blackout In The Red Room”.
E aí vem o mais interessante: com a insistência da gravadora na divulgação do Love/Hate e seu álbum, seria de se supor que este venderia horrores, certo? ERRADO! Nada aconteceu. A banda excursionou com AC/DC e ia muito bem na Inglaterra, mas nos EUA, sua terra natal, a coisa não engrenou. E “Blackout In The Red Room” é um disco bem bacana, nervosão e agressivo, apesar de na época não acrescentar nada de novo na já saturada cena musical.
Resumindo: Love/Hate perde a gravadora, perde o guitarrista, perde a paciência... Mas a banda, com trocas de integrantes, segue gravando vários discos até 2000, mas incorporando em sua música influências de punk, funk, psicodélico e blues, se transformando em uma banda mais alternativa e descaracterizada.
RAGE
Nice And Dirty
(1982 - Carrere Records)


Com o cantor Dave Lloyd, o guitarrista Mick Devonport, o baixista Keith Mulholland e o baterista John Mylett, esse quarteto inglês de Liverpool lança seu primeiro álbum pelo selo Carrere em 1981, chamado “Out of Control”, que vende muito bem e tem boa recepção da imprensa.
Mas para seu próximo álbum o Rage acrescenta o segundo guitarrista Tony Steers e “Nice And Dirt” é lançado em 1982, sendo todo aquele tipo de música cheia de feeling que chama muito a atenção, sendo em grande parte canções que poderiam entrar tranqüilamente nas velhas propagandas televisivas de uma certa marca famosa de cigarro, apresentando aquele hard europeu enérgico e cativante, melodioso e direto, com os instrumentos equalizados por igual e refrãos que já saímos cantando logo na primeira audição.
A fotografia da capa mostra duas beldades nas preliminares, algo descabido há mais de vinte anos. As vendas deste disco foram grandes, mas a banda começa a ser ignorada com seu terceiro e último disco, o bom “Run for The Night” e a banda se desmancha, sendo que cada um de seus membros começam a participar de outros projetos, alguns voltados para a NWOBHM.
WENDY O. WILLIAMS
W.O.W.
(1984 - Plasmatics Media)


Em 1984, Gene Simmons produz o primeiro álbum-solo de Wendy, o que infelizmente resultou num disco não muito bem gravado, mas que apresentava músicas completamente diferentes do que era feito no Plasmatics.
A banda neste disco se completava com Wes Beech e Michael Ray nas guitarras, Reginald Van Helsing no baixo e T.C. Tolliver na bateria. Com participações de vários músicos, entre eles os membros do Kiss (inclusive o disco apresentava a faixa “Thief In The Night”, que anos mais tarde acabou entrando no álbum Crazy Nigths do próprio Kiss). No lugar da tosqueira punk de outrora, as canções eram puro e simples hard rock da época, mas que com a interpretação e a voz rouquíssima da cantora obteve uma imensa carga de energia extra e identidade própria.
Ainda grava mais um álbum com o Plasmatics e um segundo solo intitulado “Kommander of Kaos”, que sai em 86 e se aproxima bastante do heavy metal propriamente dito. Porém, no final dos anos oitenta começa o enfraquecimento de sua carreira e ela deixa o ramo artístico, passando a levar uma vida saudável longe da loucura dos anos idos, se retirando com seu companheiro de longa data Rob Swenson (seu produtor de filmes pornô e empresário de toda sua carreira musical) para Connecticut / EUA, em 1995.
No dia sete de abril de 1998, Wendy, cansada de viver num mundo que considerava decadente, mas em paz consigo mesma, põe fim em sua vida, suicidando-se com um tiro na cabeça com apenas 48 anos.
E depois de um final trágico como esse, vou encerrando essa primeira série de bons discos que merecem serem lembrados. Não são clássicos, mas sempre proporcionarão aos ouvintes momentos de boa música dentro deste estilo. Na próxima etapa teremos os alucinados caras do Zodiac Mindwarp, Axe, War Babies, entre alguns outros... Saudações e até!
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Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".
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