Tudo começou quando, numa de minhas visitas à Cactus (loja de discos da Galeria do Rock em Sampa), assim que apontei na entrada, um dos proprietários disse: "aí, chegou mais um hardeiro!". Estaquei por uma fração de segundo, o suficiente para meu cérebro decodificar o adjetivo com o qual fui alcunhado como sendo derivado de Hard - mais precisamente, de Hard Rock "das antigas". Sorri enquanto cumprimentava alguns velhos conhecidos, e registrei a palavra num canto da memória, para retomá-la posteriormente com mais atenção.
Bem mais tarde, após horas e horas de audição e discussão sobre pérolas perdidas no passado, devidamente regadas a loiras estupidamente geladas, peguei-me no metrô rememorando o ocorrido, enquanto folheava o encarte do CD ao vivo do November. Minha primeira reação foi de júbilo, ao constatar que eu fazia parte de uma "tribo" - afinal, por mais ermitão que seja um indivíduo, no fundo todos gostamos de pertencer a algum grupo, e transparecer uma certa superioridade perante outros mortais que, coitados, sequer fazem idéia dos segredos que só nós, membros desta suposta "sociedade secreta", somos detentores...
Porém, minha expressão triunfante subitamente esvaiu-se quando constatei que, na realidade, eu não era detentor de segredo algum, e muito pelo contrário, estava mais perdido que cego em tiroteio, ao perguntar para mim mesmo, e não obter resposta:
"mas, afinal, que catzo vêm a ser exatamente este tal de hardão setentista???"

Claro que o sentido original da frase acima não era relativo à questões, digamos, "abstratas" (ou talvez fosse, sei lá!), mas ela se encaixa como uma luva quando vamos nos reportar a algo como, por exemplo: "quem é mais bonita, Déborah Secco ou Sheila Mello?". Duvido que alguém tenha uma resposta objetiva e inquestionável para a pergunta...
Como faz parte da humanidade o hábito de classificar, catalogar tudo que nos cerca, logicamente não poderia ser diferente quando se trata de transmitir em palavras que tipo de som a banda X faz. E sendo assim, resolvi perguntar informalmente a alguns experts no assunto o que seria Hard Rock Setentista:
- "Hardão? Caramba, é um som bem pesado, com bastante ênfase na 'cozinha' (baixo, bateria), e com um vocal áspero". (Luís Peixoto).
- "Riffs, riffs e mais riffs de guitarra." (Rodrigo Freitas).
- "(...) o que percebo de imediato é a marcação rítmica sem variações, reta, sem mudanças, e os arranjos padronizados, o uso do teclado apenas na base, de maneira pouco harmônica, e a falta de ênfase dos elementos jazzísticos e/ou de Blues originais. E independente se tocam 'pesado' ou não(...)" (Paulo Pacheco).
- "Eram bandas que na década de setenta aliavam uma marcação precisa do baixo e bateria com uma guitarra distorcida e uma cama de teclados fazendo fundo para canções energéticas, vibrantes, que davam vontade de acompanhar ou batendo o pé ou agitando a cabeça - mas sem os excessos da galera do Heavy Metal." (Carlos Pereira).
- (...) "orgãos Hammond, vocais crus, bateria pesada, baixo aveludado e muitos riffs e solos de guitarra. Tudo cru!" (Eduardo Lemos)
Como a coisa ainda permanecia confusa, resolvi apelar para os profissionais do ramo:
- (...) "Com seus instrumentos ligados ao máximo, tivemos o Hard Blues. Quando se diminui as frescuras dos instrumentos, chega-se ao Hard Rock e, finalmente, ao Heavy Metal." (Leopoldo Rey e Gilles Philipe em "Livro Negro do Rock", 1984)

- "Embora inicialmente as bandas que faziam Hard-Rock fossem voltadas para sons mais experimentais, com o tempo elas foram se aproximando cada vez mais da música Pop, sendo atualmente sua ênfase calcada em 'singles', ao contrário do que acontecia no passado. Entretanto, há aquelas que resolveram apelar de vez para o Heavy" (Phil Hardy, em "The Encyclopedia of Rock" - vale mencionar que este livro foi editado em dezembro de 1975!).
- "Na primeira vez em que alguém distorceu uma guitarra, inaugurou uma outra variante do Rock que representaria sua imagem esteriotipada aos frágeis ouvidos do não-iniciado: o Heavy-Rock (Rock Pesado) ou Rock-Pauleira, como é mais conhecido, quebrava com as seqüências mais melodiosas do Rock-tipo-Beatles e atendia a um mercado mais feroz e ansioso por uma batida mais violenta que faria Chuck Berry parecer o terceiro violino da Filarmônica de Nova Iorque." (Paulo Chacon em "O que é Rock", 1985)
De cara fica patente a dificuldade em se estabelecer limites entre Hard Rock e Heavy Metal, embora já na época, como constatado acima, alguns sugerissem a expressão Heavy Rock, para definir as bandas que faziam um som mais pesado que o habitual (mas há controvérsias: mais de uma pessoa me disse que era tudo muito simples: ou o cara ouvia Rock Progressivo ou Rock Pesado, não havia esta "frescura" de divisões e subdivisões, que nos assola hoje em dia...)
De qualquer forma, tentei mais uma vez achar uma definição clara, me valendo de um recurso que nós, que costumamos escrever sobre música, lançamos mão quando vamos descrever uma determinada banda: compará-la com outra mais conhecida, de preferência algum "baluarte" do gênero ou algo parecido...
Mas, até isto rendeu uma boa polêmica, pois quem seria este "baluarte"?

- "Grand Funk na cabeça!" (Sandra Reis).
- "O 'Machine Head' do Purple é o melhor disco do gênero" (Rodrigo Freitas).

- (...)"mas existe um limite, que é quando o Hard passa para Heavy(...) Algumas bandas fizeram esta transição(...) o UFO se inscreve na segunda categoria." (Paulo Pacheco)

- (...)"o Captain Beyond é progressivo, o som deles é muito elaborado(...) com certeza, os primeiros discos do Grand Funk!" (Luís Peixoto)
perceberam o drama da coisa?
Como a coisa tava beirando papo de maluco em manicômio, decidi eu mesmo estabelecer determinados limites para esta coluna (afinal, sou ou não um ser pensante?):
1º ==> Antes de mais nada, vou deixar bem claro para todos que o que vamos tratar aqui é de discos lançados entre 1968 e 1978; portanto, se o leitor estiver pensando em achar material sobre bandas que fizeram sua estréia após este período, nem perca seu tempo - nada contra, é que simplesmente foge à proposta da coluna;

3º ==> Inicialmente minha idéia seria disponibilizar músicas (inteiras ou não) em formato MP3, afinal, além de nem todos terem exatamente os mesmos gostos (de repente eu posso achar algo maravilhoso, e outra pessoa achar "meia-boca"), muito deste material é dificílimo de ser encontrado, além de geralmente custar os olhos da cara. Mas, infelizmente, devido à questões legais, isto não vai ser possível;

5º ==> Nem sempre, ou melhor dizendo, praticamente nenhuma banda se manteve fiel ao estilo - um bom exemplo seria o Lucifer's Friend, que embora tenha registrado um excelente álbum de estréia dentro do gênero, depois migrou para outras paragens; sendo assim, se o grupo tiver ao menos um disco que possa ser considerado como sendo de Hard Rock setentista, poderá aparecer neste espaço.

7º ==> Por último, gostaria de salientar que muitas destas bandas são apenas verbetes em enciclopédias, e há uma certa dificuldade em se achar maiores informações sobre elas; aliás, peço aos leitores que, caso queiram fazer algum reparo ou contribuir com algo, por favor entrem em contato comigo, que serão devidamente creditados.
Talvez alguns se decepcionem pelo fato de não encontrar uma definição clara para o gênero, mas até o próprio Denis Meyer, autor do livro "Hard Rock Anthology 1968-1980" se esquivou de fazê-lo, colocando a seguinte citação no texto de abertura:
- "Hard Rock é o estilo musical que está mais próximo de uma sinfonia erudita: o ritmo do baixo e bateria é comparável às cornetas e violinos que dão a base, e a guitarra, os teclados e até os vocais são como os primeiros violinos em seus 'vôos' líricos". (Jimmy Page).
Abraços para todos, espero que gostem,
Marcos

Todas as matérias da seção Hardão Setentista
Os comentários são postados usando scripts do FACEBOOK e logins do FACEBOOK, HOTMAIL, AOL ou YAHOO, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de exclusiva e integral autoria e responsabilidade dos usuários que fizeram uso deste sistema (citados na assinatura de cada comentário). Caso você considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Os responsáveis pelo site podem excluir comentários que julgarem inadequados e fornecer informações sobre os comentários a reclamantes se solicitados.
Nascido no milênio passado. Empresário falido, atualmente sobrevivendo de "bicos" diversos (dentre eles, professor de contabilidade - tenho cara?). Fanático por hard-rock e congêneres das décadas de 60/70, Hendrixmaníaco de carteirinha. Acha que apenas três coisas valem a pena na vida: Mulheres (mas dão um trabalho!), Rock'n'roll em geral e Motocicletas. Quando morrer, conforme combinado com o saudoso Heavyman (RIP), vai ser enterrado com um CD do Black Sabbath (ele levou um do Jimi Hendrix para a eternidade...)
Mais matérias de Marcos A. M. Cruz no Whiplash.Net.
QUEM SOMOS | RSS | FACEBOOK | TWITTER | NEWSLETTER | APPS | ANUNCIAR | ENVIAR MATERIAL | FALE CONOSCO
Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria. Os textos não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será retirado do site.
Em abril de 2012 Whiplash.Net teve 1.078.971 visitantes únicos, 2.974.068 visitas e 10.616.661 pageviews. Ver stats.