O acervo de Bento Araújo, do poeira Zine

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Por Marcos A. M. Cruz
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São Paulo, início de 2003. Comenta-se que um cara que trabalhava na Nuvem (Nove, famosa loja de discos no bairro de Itaim em SP que fecharia as portas cinco anos mais tarde) estaria lançando um fanzine sobre Rock Clássico, mas eu não dei muita importância pra detalhes, não era a primeira nem última vez que via algum projeto semelhante, alguns eram legais mas, infelizmente, nenhum durava muito. Dias depois recebemos no Whiplash.net exemplares de cortesia do #0 do tal "fanzine" com o Status Quo na capa (aproveitando a então passagem da lendária banda pelo Brasil), onde o "cara da Nuvem Nove", chamado Bento Araújo, abria com: "'Publicação destinada à música não pega no Brasil'. Devo admitir que desde que me conheço por gente, escuto essa maldita frase". Folheando o "fanzine", constatei que o trabalho era muito interessante, e lamentei que certamente duraria apenas alguns meses, já que o próprio responsável admitia isto no editorial...

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Início de 2014: o poeira Zine (www.poeirazine.com.br), hoje um nome famoso no meio roqueiro, publicado trimestralmente, já ultrapassou as cinquenta edições e aquele "cara da Nuvem Nove" hoje é considerado por unanimidade um profissional sério e confiável, já tendo colaborado com textos para inúmeras publicações e jornais, entrevistado vários músicos famosos no meio e expandido sua área de atuação para podcasts, excursões para eventos no exterior e até um interessantíssimo programa em vídeo, feito em parceria com o apresentador e ex-VJ da MTV Gastão Moreira, o Heavy Lero, que pode ser visto no link abaixo.

http://www.youtube.com/heavylero1

Pessoalmente, penso que o Bento é um exemplo prático de como, com trabalho sério, perseverança e dedicação, sem perder tempo com picuinhas e "mimimis", se consegue atingir um objetivo, por isto hoje ele é um dos poucos que pode se gabar de (sobre)viver de Rock no Brasil. Claro que ficar rico não está em questão, mas ao menos é possível aliar o prazer de se fazer o que gosta com a possibilidade de se pagar as contas no final do mês, quer coisa melhor que isto?

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Grande Bento, um prazer falar contigo! Pra começar, em que consiste seu acervo? CD? LP? Outros? Sei que coleciona álbuns do Grand Funk, tanto que fiz uma "homenagem" pra você na matéria onde eu mostro meus discos...

Bento Araújo: Olá Marcos. Obrigado pelo convite! É uma honra estar aqui contigo e com os leitores do Whiplash.net. Tenho LPs, compactos, CDs, K7s, cartuchos e até alguns tapes em rolo por aqui. Por trabalhar escrevendo sobre música, gosto também de colecionar publicações musicais do mundo todo, principalmente as que saíram dos anos 60 aos 80, além de livros sobre o assunto também. A única banda que eu coleciono pra valer é o Grand Funk Railroad, a minha favorita. Aliás, obrigado pela homenagem!

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Por que seu interesse por Rock dos primórdios até os anos setenta, basicamente? Considerando sua idade, não seria mais lógico você ser fanático pelos anos oitenta? Aliás, quando começou seu interesse por música, exatamente?

Bento Araújo: Na verdade eu gosto muito de anos 80 também, principalmente o heavy metal feito na primeira metade dessa década, que foi a que eu cresci, descobrindo discos, bandas e tudo mais. O fato da pZ ser mais focada nas décadas de 70 e 80 acaba sugerindo que eu só gosto dessa fase da história da música, mas não é verdade. Como eu também escrevo em diversas outras publicações, gosto de estudar todas as eras e décadas, e vários gêneros também. Já fiz palestras abordando jazz e a música negra dos anos 20 aos 40, por exemplo.

Bento Araújo: Musicalmente, tudo começou pra mim em 1981, quando o Queen veio tocar no Brasil. Eu tinha apenas cinco anos de idade. Foi quando escutei uma guitarra pela primeira vez, escutei um disco (provavelmente o The Game) pela primeira vez e vi uma banda tocando pela TV. Minha tia era adolescente na época e foi ao show. Ouvia os discos, assistia os clipes e falava deles o tempo todo, então escutei de tabela. Dois anos depois vieram o Kiss e o Van Halen, daí eu já me lembro de ficar conversando sobre essas bandas na escola e ficar desenhando o logotipo do Kiss na lousa da sala de aula e nas capas dos cadernos. Com o primeiro Rock in Rio a coisa explodiu de vez e foi quando eu comprei o meu primeiro disco – Love At First Sting, do Scorpions. Daí eu não parei mais.

Você se lembra quando deixou de ser um simples ouvinte e passou a ser um colecionador?

Bento Araújo: Sim, foi logo após o lançamento do Appetite For Destruction do Guns N’ Roses. A partir de então o rock tomou conta da minha vida e eu decidi que era aquilo que eu iria fazer.

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Quais seriam atualmente os ítens mais raros que você tem no acervo, e quais deram mais trabalho para conseguir ou foram os mais caros?

Bento Araújo: É engraçado, pois eu geralmente não compro disco caro. Tipo se um LP custa mais de R$100, por exemplo, eu já não me animo muito (rs). Tive sorte de pegar uma época sensacional para se comprar LPs, e de trabalhar em lojas e sebos exatamente nessa época. Quando apareceu o CD, muitos colecionadores se desfizeram se suas coleções em LP, vendendo tudo a preço de banana. Já encontrei discos sensacionais em caçambas, ou encostados em postes, como se fosse lixo mesmo. Tenho LPs que hoje são raros, mas que há 20 anos ninguém dava um tostão. Talvez os mais raros sejam algumas prensagens japonesas, com OBI incluso. Alguns compactos japoneses também coloridos, que denotam ser de uma primeira prensagem limitada. Ter um bom “dealer nipônico” é imprescindível! Hehehe Talvez os mais difíceis foram alguns compactos japoneses do Grand Funk...

Existe algo em especial que você procura e ainda não conseguiu?

Bento Araújo: Sempre tem, mas eu não fico muito nessa paranoia de ficar caçando um determinado álbum. O que eu mais gosto é de “ser achado pelo disco”, ou seja, adoro ser surpreendido num sebo. Meu barato é ficar horas garimpando e achar um disco que provavelmente eu nunca pensei que iria comprar. Adoro achar discos em lugares inusitados e em cidades e lojas inusitadas. O garimpo é, na verdade, o que me fascina.

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Fugindo um pouco do tema "sua coleção", uma curiosidade: durante todos estes anos no poeira Zine, você teve oportunidade de conhecer e conversar com vários músicos; ficou nervoso com algum deles? Em alguma situação rolou algo curioso, ou alguém não foi exatamente o que você esperava?

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Bento Araújo: Cara, demais essa pergunta. Já entrevistei muita gente e isso é geralmente um enorme prazer. Fui escrever sobre música basicamente para poder chegar mais perto desses ídolos. O músico que eu encontrei que mais me sacudiu foi o Jimmy Page. Ao lado do Jeff Beck ele é o melhor guitarrista vivo, na minha opinião, e, pra mim, o Zeppelin é a melhor banda que já existiu. Então você imagina só como eu fiquei... Ele ainda fez questão de pronunciar meu nome corretamente, além de me perguntar se eu “também era músico”. Muita humildade, sensacional. Geralmente os mais fodões são os mais legais, acostumados em tratar bem a imprensa e os fãs. Recentemente eu entrevistei também o Lenny Kaye, que é um grande herói pra mim também no quesito “jornalismo rock”. Outro cara gente finíssima, que sacou de imediato a minha intenção com a pZ e o meu trabalho. Ele mostrou a pZ inclusive para a Patti Smith e me disse que ela gostaria muito de me conhecer, o que de fato aconteceu. Esse tipo de coisa me balança, assim como um garoto que usa o meu trabalho como base para o seu TCC de faculdade, ou que alega que foi escrever sobre música por minha causa. É esse tipo de reconhecimento que faz tudo valer a pena. Outros caras que eu entrevistei, e que foram fantásticos: Mark Farner, Paul Rodgers, Peter Hammill, Damo Suzuki, Derek Shulman, Mick Box, Leo Lyons, Steve Vai, Warren Haynes etc. Talvez o mais difícil tenha sido o Jan Akkerman, mas eu o entendo completamente. Lidar com fã saudosista não é fácil (rs).

Li ou ouvi em algum lugar que você já chegou a tocar semi profissionalmente, e inclusive ganhava algum dinheiro com isto: por que decidiu passar para os bastidores, e não investir mais fundo na carreira de músico?

Bento Araújo: Na verdade foi o contrário. Como a minha carreira como músico não deu em nada eu resolvi ir escrever sobre música, para poder orbitar por esse mundo. Foi uma opção. O meu sonho, originalmente, era viajar o mundo tocando com uma banda. Com o jornalismo acabei tendo cada vez menos tempo de tocar. Já fui guitarrista e depois virei baixista (inspirado em caras como Jack Bruce, Andy Fraser, John Entwistle, Phil Lynott, Chris Squire etc). Tenho fases como músico amador. Posso ficar um ano sem tocar, mas depois passar um ano inteiro tocando aos finais de semana com alguma banda, só de curtição. Tocar acabou virando o meu “futebol com os amigos”. Por outro lado, acho importante um jornalista sacar mais o lado musical do que ele escreve. Fazer um som com uma banda dá uma outra visão da coisa.

Quanto à poeira Zine, existe algum projeto no sentido de aumentar a tiragem e distribuir em bancas de jornais por todo o país, ou a demanda talvez não seja suficiente? Na verdade, manter uma revista impressa ainda é viável atualmente?

Bento Araújo: Bancas estão fora de cogitação. Pela demanda mesmo e também pela logística da distribuição da coisa. Costumo dizer que se a pZ tivesse ido para as bancas ela teria falido no primeiro ano de sua existência. Há 11 anos eu venho acreditando no mercado de nicho, de exclusividade e de um produto diferenciado. Confesso que manter algo impresso hoje no Brasil é uma loucura, uma guerrilha em todos os sentidos. Os custos gráficos e a ineficiência de uma organização chamada “Correios” são extremamente desanimadores. O mais viável seria manter uma versão digital e uma impressa por demanda, como acontece muito no exterior.

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Voltando à sua coleção, como você costuma adquirir material hoje em dia? E a experiência de conhecer lojas lendárias nas suas viagens para os EUA, como você conseguiu não estourar o limite do cartão de crédito?

Bento Araújo: Cara, isso é insano. Eu fico completamente maluco com algumas lojas que eu conheço nessas viagens. Algumas cidades são verdadeiros paraísos para se comprar discos, como Chicago, Boston, São Francisco, New Orleans, Memphis, Nashville, Amsterdã e Edimburgo. Procuro fugir dos grandes centros como Londres e New York, onde é caro, e comprar disco se tornou um hype. Acabo viajando a trabalho, para cobrir algum show ou festival, mas nunca deixo de separar um dia livre para o garimpo. Não gosto de lojas como a Amoeba, por exemplo, onde tudo é muito formal e parece que você está comprando num supermercado. Gosto daquelas lojinhas imundas e desorganizadas, cujo dono é mal humorado e rabugento. São nessas lojas onde estão os melhores discos, e onde acontecem as paradas mais inusitadas. Gosto muito de ir pra fora comprar discos na época do Record Store Day, onde acontecem eventos e lançamentos exclusivos. Aqui no Brasil está bem bacana também a coisa do revival do vinil. Muitas lojas abrindo, muitas feiras rolando. Quando eu comecei com a pZ o panorama era bem diferente. Fico feliz por estar tudo rolando melhor hoje em dia em termos de discos e de pessoas interessadas neles.

Tem casos de colecionadores compulsivos que pensam mais nos álbuns que ainda não tem do que os que já têm, obtendo mais prazer em ter um disco do que em ouvi-lo propriamente falando, você identifica isto em si mesmo? E no seu caso específico, até que ponto você adquire algo porque realmente gosta ou porque se trata de "material de trabalho"?

Bento Araújo: Não, de forma alguma. O meu barato é achar, levar o disco pra casa e ouvir. Não perco sono em razão de um disco que eu não tenho. O que eu gosto é da música, do ritual. Essa coisa de apenas ter, possuir, não me encanta nem um pouco. Por questões de espaço e de ter me mudado de uma casa para um apartamento, hoje eu só adquiro coisas que eu realmente gosto. Como eu geralmente escrevo somente sobre o que eu gosto (rs) a minha coleção é basicamente montada de itens de artistas que eu aprecio.

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Bento, valeu pelo papo, um grande abraço, que a poeira Zine esteja aí por muito e muito tempo ainda e boa sorte em todos seus projetos - nós do Whiplash.net temos certeza que todos serão bem sucedidos!

Bento Araújo: Eu que agradeço Marcos! Obrigado a todos vocês pelo apoio constante e por apreciar o que eu venho fazendo nessa última década. Quem quiser saber o que eu ando aprontando basta acompanhar o www.poeirazine.com.br e a fanpage da poeira Zine no facebook.

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