Frank Zappa: uma das últimas entrevistas - parte 1

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Frank Zappa: uma das últimas entrevistas - parte 1

Traduzido por Jonathan Pires Fernandes | Fonte: Playboy

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Essa entrevista foi realizada pela revista playboy em 1993, no ano em que Frank Zappa faleceu, vítima de câncer de próstata. Na entrevista, Zappa não se mostrou abatido pela doença e esclareceu questões sobre suas músicas e sobre sua carreira. O texto original está no link ao final. A entrevista foi dividida em partes para não ficar cansativa.

Playboy: Você disse uma vez que seu emprego é "extrapolar tudo para o mais extremo do absurdo". Isso ainda é verdade?

Frank Zappa: É um dos meus empregos. Eu acho que era o meu principal emprego naquele tempo. Mas sim. Eu gosto de levar as coisas para o mais extremo do ridículo porque é lá, no ridículo, que está o tipo de entretenimento que eu aprecio.

Playboy: É frustrante as pessoas não entenderem isso?

Frank Zappa: o X da questão é: se isso te diverte, legal. Aproveite. Se não, que se foda, eu faço isso pra me divertir. Se eu gosto, eu gravo. Se mais alguém gostar, é um bônus.

Playboy: O quanto é importante ofender pessoas?

Frank Zappa: Você quer dizer...se eu acordo e digo: "Acho que vou ofender alguém hoje"? Eu não faço isso. Eu não escrevo mais letras, mas eu ofendo mais com a música em si, eu coloco acordes que eu gosto, mas muitas pessoas querem um ritmo onde eles possam dançar; eles ficam doidos para querer meter o bedelho nas minhas músicas. Algumas pessoas não gostam, o que é legal pra mim.

Playboy: Você certamente ofendeu alguém com o Phi Zappa Krappa poster.

Frank Zappa: Provavelmente. Mas e daí?

Playboy: E quanto as bizarrices dos seus dias do Mothers Of Invention. Como o famoso concurso de nojeiras?

Frank Zappa: Nunca participei de concurso de nojeira. Foi um rumor. Alguém deve ter imaginado demais. Deve ter viajado na maionese. O rumor é que eu comi merda no palco. Muitas pessoas ficaram muito desapontadas porque eu nunca fiz isso. Não havia nada de concurso de nojeira.

Playboy: Outro rumor é de que você mijou no palco....

Frank Zappa: Eu nunca coloquei meu pau pra fora no palco e nem ninguém da minha banda. A gente tinha uma girafa empalhada com rodinhas e com uma máquina de sorvete gigante. Embaixo dela tinha uma bomba de cereja. Foi assim que celebramos o quatro de julho de 1967. Alguém balançou a bandeira e atingiu a bomba de cereja. A bomba voou pela bunda da girafa. O cara que tava atrás apertou o botão e a bomba estourou por todo palco. Por algum motivo, isso divertiu o público.

Playboy: Então a girafa era apenas uma extravagância?

Frank Zappa: Arte teatral.

Playboy: Para entreter ou só para aliviar o tédio?

Frank Zappa: Havia um terceiro fator também. Havia uma máquina de sorvete na bunda da girafa, não tinha? A gente tava fazendo a antiga tradição da arte Dada. O mais absurdo, o que eu mais gostava.

Playboy: Os títulos dos seus discos e canções são obras de arte também.

Frank Zappa: Bem, você tem que dar um nome pra eles. Então por que não "engraçados"?

Playboy: Como Burnt Wenny Sandwich?

Frank Zappa: Eu ainda como burnt wenny sandwiches. É uma das melhores coisas da vida ou, no mínimo, é um bom almoço. Você pega uma salsinha com um garfo, queima ela no fogão e coloca dois pedaços de pão nela e de volta ao trabalho.

Playboy: Você também usou suas canções para fazer ataques políticos. Você fez "Rhymin´ man" pro Jesse Jacson. O que te deixou tão irritado?

Frank Zappa: Um artigo levantou algumas questões sobre se o Martin Luther King tinha morrido ou não nos braços do Jesse. Houve relatos que diziam que o Jackson passou a mão dele no sangue do King ou que até mesmo pegou sangue de galinha e esfregou na camisa, camisa a qual nós vestimos depois que ele voltou pra mídia. Então eu fiz a música sobre a ideia de comunicação através de historinhas de terror, as quais o Jackson faz muito bem. Mas me levaram a mal. Eu não digo que todas ideias do Jackson são ruins; eu concordo com algumas. Mas eu não acho que o Jesse Jackson seja a pessoa certa para executa-las. Eu não quero ver pessoas religiosas em escritórios, trabalhando para outro patrão.

Playboy: Você também atacou o cirurgião Everett Koo em uma canção.

Frank Zappa: A HBO transmitia algo como "Dr Koop Responde Suas Perguntas Sobre Aids". Nesse programa, eu vi ele explicando como a AIDS veio do macaco verde para à população. Ele especulou que um nativo queria comer um macaco verde, cortou o dedo e o sangue dele se misturou com o do macaco. O resto você já sabe, foi passando de sangue em sangue. O que eu quero dizer é que isso foi a merda mais ridícula que eu já ouvi. Isso se parece com contos de fada dos irmãos Grimm. E o Koop parecia um personagem de desenho animado com aquele uniforme e tudo mais. Antes do Ronald Reagan, onde já seu viu um cirurgião vestido que nem o cara do Katzenjammer Kids?

Playboy: Por causa de canções como "Dinah Moe Hummm (eu só tenho 40 doláres que dizem que você não vai conseguir me fazer gozar)", "He´s so Gay" e muitas outras, você foi acusado de ser sexista, misógino e homofóbico.

Frank Zappa: Algumas pessoas não entendem a piada. Em geral, eu era um inimigo conveniente e eles podiam expor suas causas me perseguindo. Mas eu não sou anti-gay. Quando Ross Perot anunciou que estava concorrendo à presidência, eu queria que ele escolhesse Barney Frank como candidato a vice presidente. Ele é um dos caras mais representativos do congresso. Ele é um grande modelo para os jovens gays.

Playboy: Mas você foi criticado por causa de "Bobby Brown" e "He´s so gay".

Frank Zappa: Fui, mas veja, eu sou uma espécie de jornalista. Eu tenho direito de dizer o que quero sobre qualquer assunto. Se você não tem senso de humor então foda-se.

Playboy: Foi o que você disse quando foi atacado pela liga de Anti-Difamação por "Jewish Princess" (patricinha judia)?

Frank Zappa: Eles queriam convencer o mundo de que não existem patricinhas judias, mas, sinto muito, os fatos falam por si só. Eles me pediram para eu me desculpar e recusei. Eu ainda tenho a carta deles pendurada na parede. Eles fizeram um estardalhaço quanto a isso. Mas foi tempestade em copo da água. Eles queriam dar a impressão de que aqui, no mundo do rock, esse "radical anti-Semita" estava sujando a reputação de todos os judeus. Ora, eu não inventei o conceito de uma patricinha judia. Elas existem, então eu escrevi uma canção sobre elas. Se não gostam, e daí? Os italianos têm patricinhas também.

Playboy: Existem fatos ou motivos por trás dos assuntos que você resolve atacar?

Frank Zappa: Tanto faz, eu estou com raiva o tempo todo. Eu gosto de coisas que funcionam. Se não funciona, a primeira coisa que você deve perguntar é: por que? Se não funciona e você sabe por que, então você precisa perguntar: "Por que ninguém faz nada quanto a isso?" O governo, as instituições. O sistema educacional do país está completamente fodido.

Playboy: Fodido como?

Frank Zappa: As escolas não prestam por que os livros não prestam. Eles ainda estão na época do George Washington e do cherry tree e do "Eu não posso mentir". Os livros são redigidos por comitês que cedem a pressão de grupos republicanos que fazem cada aspecto da história ser vista pelo ponto de vista fascista. Quando você manda seus filhos para escola, é com isso que eles lidam. As crianças são presenteadas com estes documentos, parte de uma indústria milionária que é absolutamente fraudulenta. A cabeça das crianças fica tão amontoada com esse monte de mentiras que quando elas saem da escola, eles saem despreparados para tudo. Não sabem ler, não sabem escrever, não conseguem pensar. Não falam sobre o abuso infantil ou das qualidades das escolas.

Link da matéria original em inglês:
http://www.science.uva.nl/~robbert/zappa/interviews/Playboy/...

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