O jornalista estadunidense GERRI GITTELSON conversou recentemente com uma das estrelas do reality show ‘Ex-Wives of Rock’ SHARISE NEIL, ex-esposa do vocalista do MÖTLEY CRÜE, VINCE NEIL, e durante a longa conversa com a ex-performer de luta livre na lama, Gittelson conseguiu uma perspectiva privilegiada do período mais prolífero do Crüe, e como era aquele mundo depois que as luzes se apagavam e a última calcinha havia sido jogada no palco. O que segue abaixo é a tradução de alguns trechos da primeira parte da entrevista.

Você ficou com Vince Neil do Mötley Crüe por seis anos, casada por cinco. O que aconteceu no fim?
Sharise: Eu diria que fiquei infeliz no fim. Eu era muito alheia e sem noção até o fim. No começo, eu não gostava de rock. Eu era mais uma garota punk, do surfe, de Huntington Beach em Orange County [condado a sudoeste de Los Angeles]. Eu passava meu tempo com todas aquelas bandas da praia.
Você não ia nem ao Rainbow?
Sharise: Não, eu nunca ia ao Rainbow. Eu nunca fui a Hollywood com Vince. Não era a minha. Ele tinha dois lados diferentes – o doce e cavalheiresco e o outro lado. Eu não sabia que quando ele saia em turnê, ele virava uma pessoa diferente. Eu tinha 21 anos de idade. Eu era ingênua.
Peraí. Você não trabalhava no antigo [clube de strip] Tropicana em Hollywood lutando na lama?
Sharise: Eu trabalhei lá por seis meses, só à noite para ganhar um dinheiro extra. Toda noite eu pensava, “não vá”, mas eu era uma menina que passara a vida toda em um biquíni, de qualquer modo, e foi assim que eu entrei nessa.
Quanto você tirava?
Sharise: Numa noite ruim, pelo menos $275 em dinheiro, e numa noite boa, de $400 a $500. E eram só 20 minutos de trabalho, pronto. Então você consegue ver como era pra ficar tentado? [...]

[...] No começo do programa, há uma foto de você com um reluzente Porsche vermelho. Esse era o tipo de presente que você recebia quando era casada com Vince Neil?
Sharise: Ah sim, aquilo foi de aniversário, mas era típico. Em certa altura, a gente terminava, e daí ele me convencia a voltar. Aquele Porsche foi um que ele me deu depois de um almoço no Bel-Air Hotel. Ele me surpreendeu com ele no estacionamento. Estava lá, esperando por mim. Estávamos em crise na época.
Sharise: Uma coisa sobre Vince, ele é generoso com presentes. Ele me trazia bolsas da Chanel pra casa, não só uma, mas um monte delas, sem motivo algum. Talvez porque ele tivesse com a consciência pesada, mas estou chutando.
Aquele Porsche vermelho é um Carrera, certo?
Sharise: Na verdade era um Porsche Carrera 930 muito raro. Só havia três deles nos EUA naquele tempo.
Hm… parece que ele pode ter comprado só pra poder dirigir também…
Sharise: Não, não. Aquele era o meu carro. Vince não tava nem aí. Ele tinha três Ferraris na época. [...]
[...] Vince ganhou bastante peso ao longo dos anos, ganhou e perdeu, ganhou e perdeu.
Sharise: Quando ele saía em turnê, ele ficava mais sério quanto à sua dieta na estrada, daí ele emagrecia. Ele tende a ganhar peso quando fica em casa. Quando eu conheci Vince, ele era muito magro. Quando ele tinha, 30, 31, 32 anos, ele engordou. Era a bebida. Quando estávamos juntos, eu tinha que policiá-lo, eu o mantinha no caminho certo. Tínhamos uma academia na casa, e um professor vinha todo dia – mas Vince o mandava embora na metade das vezes.
Você leu o livro do Mötley Crüe, ‘The Dirt’?
Sharise: Eu li as partes sobre mim. Algumas das outras garotas não concordam com a cronologia e sobre o que foi escrito.
Todos os quatro caras do Mötley Crüe parecem muito inteligentes no livro.
Sharise: Eu não me lembro de Vince ter uma memória tão boa pras coisas. Eu acho que o autor do livro foi muito inteligente. Eu sei que Nikki Sixx fala muito bem e Tommy é um grande contador de histórias. Mick Mars não é de falar muito. Ele é tão tímido, então tenho certeza que ele teve alguma ajuda para escrever sua parte do livro. Vince é mais do tipo, ‘e aí, mano, beleza?’.
Você foi bem próxima de Nikki Sixx. Você pode nos dizer algo sobre a personalidade dele?
Sharise: Nikki, Tommy Lee e Vince, esses três sempre estavam brigando pelo poder no Mötley Crüe. Nikki é muito bem letrado e um pensador profundo. Eu era muito amiga da esposa dele. Éramos a melhor amiga uma da outra.
Na noite em que Nikki teve uma overdose e quase morreu, ele foi até o [hospital] Cedars-Sinai. Refresque-nos a memória.
Sharise: Eles tinham acabado de sair da estrada. Eu me lembro de Vince e eu estarmos dormindo em nosso apartamento em Hollywood. Isso foi antes de Brandi Brandt. Nikki tinha muitas namoradas diferentes. A reação de Vince, ele surtou, gritava: “Ah meu Deus! Ah meu Deus!”
Não falamos sobre drogas. Vince usava muita cocaína?
Sharise: Quando saíamos, as pessoas davam drogas pra ele. Elas literalmente colocavam as coisas na mão dele, e ele ia ao banheiro. Mais tarde, ele desmaiava, e eu vasculhava os bolsos e a carteira dele, escondia as drogas e tacava no vaso e dava descarga. Ele não lembrava de nada no dia seguinte. Ele dizia, ‘Onde eu coloquei aquilo?’
Sharise: Quando nos conhecemos, ele tinha estado na desintoxicação uns três meses antes, então eu tentava manter aquela merda tão longe dele quanto possível. [...]
[...] Daí vocês se casaram em 1987, e ficaram juntos por cinco anos. O Mötley Crüe era inacreditavelmente famoso naquela época.
Sharise: Eles tinham acabado de fazer a turnê de ‘Theatre of Pain’, mas lembre-se, quando eu conheci Vince, eu não sabia quem ele era. Eu o conheci numa festa na piscina da casa dele em Northridge [norte de Los Angeles]. Era uma casa bem comum, e nem em um milhão de anos você diria que alguém como Vince Neil morava ali. Era uma daquelas vizinhanças com crianças, sabe, casinha padrão de classe média, mas ainda assim uma casa bem grande, com uns mil metros quadrados, eu acho.
Fale sobre como foi apaixonar-se por Vince Neil.
Sharise Neil: Bem, se você perguntar pra esposa seguinte dele, Heidi, Vince diz que é porque eu tinha o melhor corpo. Eu acho que foi um grande erro dizer algo assim. A verdade é, o que Vince gostava mesmo em mim, eu acho, é que eu era difícil. Eu fiquei impressionada. Eu disse pra ele, ‘Não, você não faz meu tipo.’ Eu fiz ele correr atrás de mim, dando corda e puxando, e ele me tratou muito bem. Eventualmente eu vi o quanto ele era talentoso.
Ah, talento, mais um assunto. Quais suas considerações sobre Vince não cantar a letra inteira das músicas?
Sharise: Ah, ele nunca fez isso quando eu estava com ele. No começo, ele cantava todas as palavras e corria pelo palco, pra lá e pra cá, por duas horas.
Sharise, o Mötley Crüe nunca tocou por duas horas. Você está louca.
Sharise: Ah, ou por 90 minutos, que seja.

Na lata: algum dos outros caras do Mötley já te cantou?
Sharise: Depois que terminamos, eu fui pra uma casa noturna chamada Club Ugly em Holywood, e Tommy Lee veio, e uma noite Tommy queria me levar pra casa com ele. Eu disse, “Você está louco. Você é como meu irmão. Sai daqui.” Ele estava bêbado, a propósito. […]
[…] A banda deve ter feito milhões e milhões de dólares quando você estava com Vince. Você recebeu muito dinheiro no divórcio?
Sharise: Ele ganhou milhões de dólares, mas ele os gastou tão rápido quando os fez. Eu não vou te dizer exatamente quanto recebi porque isso seria cafona, mas foi menos de $100,000.
O quê? Você só pode estar brincando! Ninguém te disse que você foi louca de assinar algo assim?
Sharise: Isso rolou quando eu estava muito fraca. Eu não ia lutar por dinheiro. Ele estava enfiando os advogados dele em cima de mim, e nossa filha tinha morrido três semanas antes, e eu não conseguia nem sair da cama. Eles ficavam me ligando. Eu só queria fazer um acordo. O divórcio levou três ou quarto anos. Os advogados armavam tudo e ele não aparecia no fórum. Nenhuma oferta jamais foi feita, mas havia tanto papel. Havia aluguel, creche, então quando ele ofereceu aquilo, como eu disse, não queria lutar. Só disse, ‘foda-se’.

Eu ainda não consigo imaginar pra onde foi o dinheiro. O Mötley Crüe tinha discos de enorme sucesso e músicas na rádio o tempo todo.
Sharise: Não é tanto como você pensa. Ele estava sempre gastando, e os impostos e tudo mais eram muito altos. Ele tinha 12 carros. Ele ia a leilões para comprar um carro, e ele vinha pra casa com dois. Com a ficha policial dele, custava 8 mil dólares para fazer seguro de cara carro, e tínhamos 12.
Você não dizia pra ele que isso é ridículo?
Sharise: Sim, eu dizia a ele pra por favor não comprar nenhum outro carro. Mas ao invés disso, ele instalou uma plataforma hidráulica na garagem para empilhar os carros um em cima do outro. Eu tenho fotos disso.

Conte-nos sobre o talento de Vince para resolver conflitos. Isso é fascinante.
Sharise: Eu acho que éramos ambos muito jovens, e ele tinha muito poder e muito álcool, mas Vince era uma boa pessoa que tinha uns problemas desde a juventude, e ele não era muito bom em resolver problemas. Ele dava chiliques. Ele quebrava as coisas. Ele tinha muito ciúme de Nikki Sixx e de Tommy Lee. Uma vez ele jogou uma cadeira de uma sacada em um hotel e quebrou uma mesa de vidro na minha frente. Eu podia ter sido ferida com vidro nos olhos. Eu terminei com ele por causa disso. Foi no Canadá, e eu pensei, ‘não vou entubar isso’. [...]
Leia a segunda parte da matéria no link abaixo:
Mötley Crüe: chifres, gastança e crocodilagem
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Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.
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