Histórias de Guerra: O Sr. Anos 80 de Los Angeles

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Histórias de Guerra: O Sr. Anos 80 de Los Angeles

Postado por Nacho Belgrande | Fonte: Playa Del Nacho

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O jornalista estadunidense Gerry Gittelson entrevistou recentemente o maior promotor de shows de Los Angeles, JULIAN ‘Mr. Anos 80’ DOUGLAS. Douglas é um grande fã do Hard Rock daquela época, o que não quer dizer que ele fique bajulando bandas falidas pra ganhar o pão de cada dia.

Douglas foi eleito ‘o promotor de shows da década’ pelo L.A. Music Awards, e ainda hoje contribui em muito para a música ao vivo de Hollywood. Sendo assim, ele tem muitas histórias pra contar, e algumas delas seguem traduzidas abaixo:

OK, Julian, como você começou?

Douglas: Eu tentei carreira como vocalista de rock muito tempo atrás na Sunset Strip, mas não deu em nada – mas todos meus amigos ficaram famosos. Todos os caras do Ratt, Dokken, Great White, e especialmente Jack Russell.

Interessante. Estávamos numa parada com Jack Russell um dia desses, com você junto num show. Vamos começar com ele.

Douglas: Nos conhecemos faz 25 anos, desde ficarmos fazendo soca no [restaurante] Red Onion até ficarmos de bobeira no barco dele. Eu o conheci quando ele estava ficando famoso.

Então você passou por altos e baixos com Jack. Os tempos difíceis com as drogas e a doença, era doloroso pra você ver Jack daquele jeito?

Douglas: Claro que era. Era muito doloroso porque muitos vocalistas dos anos 80, não dão mais conta do recado ou estão forçando a barra, mas Jack sempre teve uma naturalidade e uma alma naturais em sua voz.

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Eu acho que ele nunca teve nenhuma aula de canto na vida. Ele não precisava.

Douglas: Sim. Então muitos dos contemporâneos de Jack, ou morrerem ou tiveram overdoses e não deram em nada, e mendigam por uma cerveja no Rainbow.

Houve algum momento em que você achou que Jack Russel pudesse morrer?

Douglas: Ah, eu não tinha dúvida que ele iria. É um milagre. Eu acho que é uma grande história a que Jack tenha acabado de completar um ano de sobriedade. Ele ainda tem uma longa estrada pela frente, mas deram uma segunda chance a ele na vida. É de partir o coração o que acontece com alguns desses artistas, como Jani Lane.

Por esse a gente ainda sente. Você e Jani eram bons amigos. Você foi ao funeral reservado para a família em Malibu.

Douglas: Eu conhecia Jani fazia 25 anos. Quando ele morreu, eu fui um dos primeiros a tomar conhecimento disso antes de tudo vir a público. Ainda é um mistério como Jani morreu. Eu acho que é uma investigação ainda aberta. A despeito do que tenha acontecido, ele se foi, e parecia que Jack Russel ia pelo mesmo caminho.

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Você mencionou o RATT. Eles estavam lá em cima com o MÖTLEY CRÜE nas antigas, mas olhe pra onde o Motley está agora e pra onde Ratt está. Qual sua opinião?

Douglas: Dokken, Quiet Riot, Ratt. Todos esses estavam entre os primeiros a aparecer nos anos 80, dos chamados dias da Strip. Warrant e Poison, e em especial o Guns N’ Roses, todos vieram depois. Eu era um rapaz de South Bay, com Bobby Blotzer e Juan Croucier e todos esses caras. Havia certo orgulho naquela época em ser de South Bay. Então todos nós fazíamos um esforço extra para podermos escutar a eles, e vê-los tocando em shows pequenos. Com o Ratt, vamos falar a verdade, eles eram muito bons, mas não eram gigantes como alguns dos outros.

Você está falando sério? Eles fizeram umas quatro ou cinco turnês por lugares grandes. O Ratt era bem famoso.

Douglas: Sim, mas deveriam ter sido maiores. Eles tinham um vídeo novo na MTV a cada número de meses, mas agora eles fazem parte do estigma negativo dos anos 80, a ascensão e queda como muitos outros artistas, e toda a merda, todos os conflitos internos que as bandas dos anos 80 tinham. Olhe pros dois exemplos, Motley Crue e Ratt, e o Motley agora é tão grande quanto jamais foi, porque eles entendem o conceito de que negócio é negócio – mesmo se cada membro da banda tem seu próprio ônibus, sua própria equipe, seu próprio camarim. Por vezes, eles só se cruzam na passagem de som e depois no palco pro show. O Poison também é assim – de vez em quando são grandes amigos, e de vez em quando se odeiam, mas as bandas como o Motley e o Poison colocam os negócios à frente de tudo.

Muitas bandas se separaram também, e o Ratt foi assim. Faz parte.

Douglas: Olhe pro Queensryche. Você só pode estar de brincadeira. Que piada. Mas com o Ratt, todos nós sabemos que Juan voltou, ele quer o que ele quer e Stephen Pearcy quer o que ele quer, e Warren quer o que ele quer, e já chega de problemas antes de tudo isso, então minha opinião é: vamos manter a coisa como um negócio porque se você olhar agora, o Ratt não sai em turnê faz o quê, um ano e meio? Você diz que eles fizeram quatro ou cinco turnês grandes, Gerry, mas agora eles não conseguem se organizar para tocar no Key Club.

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Manda ver, Julian. Você está mandando bem.

Douglas: Bem, as duas bandas tocando por aí ao mesmo tempo, agora com o Great White e o L.A. Guns, dois dos nomes mais notáveis, eles não conseguem nem se entender. Faster Pussycat, BulletBoys, mesmo o Ratt. É mesmo uma vergonha. Mesmo o Warrant fora parte dessa palhaçada.

E agora o Pretty Boy Floyd…

Douglas: Pretty Boy Floyd? Aqueles caras são uns idiotas. Desculpe, mas eles deram má reputação às bandas dos anos 80. Já é difícil vender uma banda como ela é, mas daí com os problemas internos, os fãs não querem fazer parte dessa palhaçada. E Tracii Guns. Merda, que cara cuzão. Digo, eu tenho talvez dois inimigos no mundo inteiro, então não curto falar de coisas pessoais, mas ele é um deles.

Esse é o momento perfeito para falarmos de Don Dokken. Vocês são bons amigos?

Douglas: Sou muito amigo dele.

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Então conta pra gente, Julian, com a reputação dele, o Don Dokken é tão difícil assim de se lidar, ou ele é mal-compreendido? O que digo é, você diria que há algo de errado com ele?

Douglas: Não, não há nada de errado com ele. Eu diria ‘mal-compreendido’. Eu acho que talvez por ele ser um tamanho gênio musical, e isso é provado com a produção e a engenharia dele, que ele é um perfeccionista, e talvez isso faça com que algumas pessoas vejam Don Dokken como um cuzão. O lance dos negócios, no que tange a dividir os créditos e os royalties pelas músicas e esse tipo de coisa, eu não posso comentar sobe isso porque não sei, mas a personalidade dele, ele com certeza passa uma certa imagem. Mas se você o conhece faz anos, você sabe que ele é um grande sujeito. Ele meio que me lembra de Jizzy Pearl. Todo o lance depende do que eles beberam, e com Jizzy, ou como ele chama, Jizzila, sai da toca.

Ele gosta mesmo é de vinho tinto, certo?

Douglas: Ah sim. Uma taça de vinho tinto. As pessoas dizem, ‘Foda-se o Jizzy, ele é um otário’, mas elas não o conhecem de fato. Ele é sarcástico. É a personalidade dele. Eu não acho que Don Dokken seja assim também.

Você promove shows. Tomara que a maioria deles lote ou faça muito dinheiro, mas sempre temos os fracassos. É de chacoalhar quando ninguém vem a seu show?

Douglas: ah sim, eu vivi isso diretamente. Eu tenho que ter cuidado com as bandas que cito, mas há muitas bandas, por exemplo, que quando tocam no Key Club, você esperaria que automaticamente, elas lotassem o lugar. Mas eu já peguei bandas assim que deveriam vender 500 ou 600 ingressos e ficam se gabando sobre como eles tocaram nesses festivais enormes e nessas feiras agropecuárias ou de que elas tocaram em Freemont Street e como estava tudo lotado. Mas quando elas tocam no Key Club e vendem 38 ingressos, eu quase quero dizer pra elas: “Olha aí, cara, você tocou na Freemont Street e estava lotado porque tudo quanto era viciado em crack e turista veio ver uma banda ao vivo, então baixa a bola.”

Algumas bandas, elas não querem tocar por um valor menor, e isso pode dar uma lição de humildade nelas. Por vezes elas pedem 5 mil dólares, e eu digo que pago 2500, além de bônus para cada parcela adicional de pessoas que comparecerem, e elas dizem, “De modo algum”. Eu digo a elas que se elas têm tanta certeza quanto a todo esse público que os segue e manda mensagens no Facebook, então porque não? Mas vamos falar a real. A maioria das bandas não é tão grande como era 25 anos atrás.

Tenho que ter cuidado com o que digo, mas olhe pro Great White, o outro Great White.

Sim…

Douglas: São apenas altos e baixos. O Faster Pussycat e o Bang Tango e o Bulletboys conseguiriam lotar a House Of Blues? De modo algum!

Qual foi o maior prejuízo?

Douglas: O L.A. Guns de Tracii Guns é um exemplo. Eles foram um desastre no Club Vodka. Cada vez que eu contrato eles, eles tocam pra menos e menos gente. Eles tocaram três vezes no Brixton, e cada vez com um vocalista diferente. O que é isso? Quando você coloca o CD duma banda a caminho do show, e você está todo animado, e quando você chega lá você quer ver o vocalista que você ouve faz 25 anos.

Menos de 100 pessoas aparecem?

Douglas: Ah sim. Meu emprego é fazer com que as pessoas venham e façamos dinheiro, mas como promotor, eu sou equivalente em força ao meu produto.

E o que rola entre você e Tracii Guns?

Douglas: Bem, tínhamos sido amigos por anos. Eu sempre achei que fôssemos trutas, mas uma noite no Brixton South Bay, eles tinham vendido TREZE ingressos com antecedência, e o dono queria que eu levasse uns 100 amigos meus na lista de cortesia, e eu não me senti à vontade fazendo aquilo. Contra minha vontade, eu arrumei 100 pessoas no fim das contas, mas metade, ou umas 65 delas foram embora, e eu me senti um trouxa.

Como homem de negócios, é meu papel vender o show. Enfim, no camarim, Tracii ficou tipo: “Ouvi o que você disse – que somos o L.A. Guns falso”, e ele quase quis brigar comigo. Daí ele estava tentando empurrar o guarda-costas dele pra cima de mim, ou o roadie grandão dele, quem fosse. O cara me peita e praticamente me ameaçou, me dizendo, “Você vai ter que sair daqui, cara”. E eu disse, “Cara, eu trabalho pra essa casa”. Foi tão infantil. Ao invés de brigar comigo, Tracii deveria ter me agradecido, por eu ter levado pelo menos 100 pessoas ao invés das 25 que estavam na casa. Foi uma bosta de noite. O Brixton agüenta 450. Foi um show horrível.

Você já foi atrás de Tracii depois disso?

Douglas: Nunca tive oportunidade. Eu disse pro empresário deles, “Nunca mais.”

Matéria completa: http://playadelnacho.wordpress.com/2012/09/01/historias-de-guerra-o-sr-anos-80-de-los-angeles/

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.

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