
ULRICH: Eu terminei o colegial na Dinamarca e me mudei pros EUA pra tentar uma carreira no tênis. Acabamos em Newport Beach, que é o pico mais fresco de LA além de Beverly Hills. Tem todos aqueles moleques em suas camisas Lacoste rosas, e eu estou usando camisetas do Iron Maiden. Eu acho que havia um ódio generalizado por tudo aquilo, um tipo de alienação social. James Hetfield era o rei da alienação social. Então houve um sentimento de irmandade que nos aproximou.
PLAYBOY: O quão socialmente excluído era James quando você o conheceu?
ULRICH: Eu nunca tinha conhecido ninguém tão tímido. Ele era muito retraído, quase com medo de contato social. Ele tinha um problema sério de acne.
HETFIELD: Não havia muito pra dizer, creio eu. Quando eu conheci Lars, minha mãe tinha acabado de falecer. Todo mundo era um inimigo naquela época. Eu não era muito bom de conversa – isso tinha vindo de crescer no ambiente em que cresci, meio que alienado, eu estava cansado de explicar minha situação religiosa. Uma vez que a banda se formara, eu pensei, eu não tenho mais que falar. Lars pode dizer tudo. O que ninguém de fato entendia era sobre o que as músicas se tratavam.
PLAYBOY: E então, qual sua situação religiosa?
HETFIELD: Eu fui criado como Cientista Cristão, que é uma religião estranha. A regra principal é que Deus há de curar tudo. Seu corpo é apenas uma concha, você não precisa de médicos. Era segregacional e difícil de entender. Eu não podia fazer educação física pra jogar futebol [estadunidense]. Era estranho ter que sair da aula de ciências no meio do turno, e todas as crianças dizendo, ‘Por que você tem que ir embora? Você é algum tipo de maluco?’. Como garoto, você quer fazer parte do time. Isso era muito incômodo. Meu pai dava aulas de catecismo aos domingos – ele adorava. E isso tudo foi forçado em mim. Nós tínhamos esses testemunhos curtos, e tinha essa menina cujo braço havia sido quebrado. Ela levantou e disse, ‘Eu quebrei meu braço, mas olhem, está melhor’. Mas estava simplesmente, tipo, mole. Agora eu penso nisso, era tudo bem perturbador.
PLAYBOY: Você chegou a fugir de casa?
HETFIELD: Uma vez, eu e minha irmã fugimos. Nossos pais nos pegaram quatro quadras depois. Eles bateram muito na gente, bastante.
PLAYBOY: Então você acredita em bater nos seus filhos?
HETFIELD: Bater em meus amigos, e nas esposas deles. Sim, como ultimo recurso. Mas com a palmada vem uma longa explicação sobre o porquê.
PLAYBOY: Como era sua relação com seus pais?
HETFIELD: Era o segundo casamento da minha mãe – eu tenho dois meios-irmãos mais velhos. Eu não via nenhuma atribulação. Eles não brigavam na frente dos filhos. Daí meu pai saiu em ‘viagem de negócios’ – por mais de alguns anos, entende? Eu estava começando o terceiro ano do ensino médio. Esconderam que ele tinha ido embora. Finalmente, minha mãe disse, ‘papai não vai voltar’. E aquilo foi bem difícil. Houve tempos bem difíceis –minha mãe precisava chegar em casa antes dos filhos, ou eu teria assassinado minha irmã. A gente se surrava. Eu me lembro de queimá-la com óleo quente e pensar, ‘Ai, isso foi longe demais’. Minha mãe se preocupava muito, e isso a deixo doente. Ela escondeu isso de nós. De repente, ela está no hospital. Daí, do nada, ela morreu. O câncer apareceu. Fomos morar com meu irmão postiço Dave, que é 10 anos mais velho. Minha irmã estava se rebelando, e foi expulsa da casa. E terminei o colegial e disse, ‘Até mais, todo mundo.’
HAMMETT: James vem de um lar destruído, e eu venho de um lar destruído, e quando eu entrei pra banda, nós meio que nos ligamos por isso. Eu fui abusado quando era criança. Meu pai bebia demais. Ele espancava muito a mim e a minha mãe. Eu arrumei uma guitarra, e a partir dos 15 anos, eu quase nunca saía do meu quarto. Eu me lembro de ter que tirar meu pai de cima da minha mãe quando ele a atacou uma vez, durante meu aniversário de 16 anos – ele voltou-se para mim e começou a me esbofetear. Daí um dia ele simplesmente foi embora. Minha mãe ralava pra sustentar a mim e a minha irmã. Eu com certeza canalizei muito da raiva na musica. Eu também fui abusado por meu vizinho quando eu tinha 9 o 10 anos. O cara era um doente. Ele fez sexo com meu cachorro, Tippy. Eu consigo rir disso agora – porra, eu já ria naquela época.
PLAYBOY: Parece que o heavy metal atrai um grande número de pessoas que foram abusadas.
HAMMETT: Eu acho que o heavy metal é terapêutico – é uma música que dissipa a tensão. Eu acho que é por isso que as pessoas que passaram por uma infância muito ruim são atraídas pelo heavy metal. Ele permite que as pessoas soltem a agressão e a tensão de um modo não-violento. Além disso, o heavy metal tem um sentimento de comunidade – ele une os excluídos. O heavy metal parece atrair todo o tipo de animais velhos e perdidos, vira-latas que ninguém quer.
ULRICH: Eu sempre tive problemas com isso, porque eu não sinto que tenha tido nenhum dano psicológico significativo na minha vida. Por que isso é limitado ao metal? Se você vai a um show do Elton John, as pessoas tem a mesma bagagem emocional. Se você alinhasse 10 fãs do Metallica contra a parede, você ouviria 10 histórias diferentes.
PLAYBOY: E três deles mijariam no muro.
ULRICH: E um deles bateria a própria cabeça contra a parede, sim. Eu não me sinto muito confortável para aceitar esses tipos de cliché. [...]
Segue…
A segunda parte pode ser vista no link abaixo:
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Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.
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