
PLAYBOY: Agora que vocês são superastros – não somente na MTV, mas também no VH1 – é fácil esquecer o quão inglórios vocês eram no começo.
HETFIELD: Quando Lars e eu nos conhecemos, nós gostávamos de um tipo de música que não era aceito, especialmente em Los Angeles. Nós éramos rápidos e pesados. Tudo em Los Angeles girava acerca de músicas curtas e ganchudas: Mötley Crüe, Ratt, Van Halen. E você tinha que ter visual. O único visual que tínhamos era feio.
PLAYBOY: Hey, mas vocês não eram imunes ao modo de se vestir de Los Angeles.
HETFIELD: Tivemos nossas batalhas com a lycra, é verdade. Você podia exibir seu volume escrotal. ‘Vista lycra, cara. Isso te arruma garotas!’. Na primeira turnê pelos EUA, minha calça de lycra – eu odeio dizer, ‘minha calça de lycra’. É uma fase bem maligna. Elas estavam molhadas da noite anterior, e eu estava secando-as perto do aquecedor. Um baita buraco abriu derretido bem na virilha. Eu pensei, ‘Ficaram igual meia calça’. Daí optei por ficar de jeans, e foi a melhor coisa que já aconteceu. Lars vestia lycra até a turnê do ‘Black Album’, apesar dele poder te dizer outra coisa.
ULRICH: Éramos bem os desajustados de Los Angeles. No primeiro ano, por aí, era bem solitário.
HETFIELD: Fizemos alguns shows onde, caso nossas namoradas não estivessem lá, não haveria ninguém na plateia além do barman. Daí alguns fãs ferrenhos nos seguiam pra todo canto, e tornaram-se membros da equipe. ‘Talvez aquele cara queira carregar uns equipamentos, daí eu não precisaria mais fazê-lo’.
PLAYBOY: De onde saiu a temática ‘Caverna do Dragão’ dos primeiros discos?
HETFIELD: O Judas Priest era uma banda da qual todos nós gostávamos. ‘Ah, ele escreve sobre isso. OK, então. É isso que você faz pra ser Metal’. Daí ficou mais pra, ‘Vamos escrever sobre o que fazemos’: ‘Whiplash’, ‘Hit The Lights’, ‘Seek and Destroy’, que eram sobre quebrar as coisas. Nós tínhamos empregos diurnos. Depois disso, nós dávamos festas, tirávamos a mobília pra for a da casa e depredávamos o lugar. Nós vandalizávamos camarins só porque era a coisa a se fazer. Daí chegava a conta e pensávamos, ‘Hey! Eu não sabia que Pete Townshend tinha pago por esse abajur!’. Voltávamos da turnê e não havíamos feito nenhum dinheiro. Você comprava mobília pra um bando de organizadores de shows.
HAMMETT: Bebíamos um dia e o outro também e mal botávamos a cara pra fora. As pessoas apagavam a nosso redor, mas nossa tolerância havia sido forjada. Nossa reputação começou a nos anteceder. Eu não me lembro da turnê de ‘Kill’em All’ – nós começávamos a beber as três ou quatro da tarde.
HETFIELD: Quebrar camarins tinha a ver com bebida. A pior vez foi no [festival] A Day On The Green. Um amigo e eu, completamente chapados de Jagermeister, enfiamos na cabeça que enfiaríamos duas bandejas de frios e frutas do bufett em um tubo de ventilação. ‘O tubo não é grande o suficiente, vamos fazer um buraco!’. O trailer ficou arruinado. Bill Graham – que descanse em paz - era o organizador. Eu fui intimado ao escritório dele. Tipo, ‘eu tenho que ir à sala do diretor agora’. Ele disse, ‘Essa postura que você tem, eu tive a mesma conversa com Sid Vicious e Keith Moon’. Eu pensei, ‘Legal! Ah, peraí – eles estão mortos. Não tão legal. Talvez eu devesse tomar jeito’. Eu me dei conta naquela altura que havia mais em estar em um abanda do que emputecer as pessoas e quebrar coisas.
PLAYBOY: James, o que você achou de Lars depois da primeira jam session?
HETFIELD: Lars tinha uma bateria bem vagabunda, com um prato. Ele ficava caindo, e tínhamos que parar, e ele pegava a porra do chão. Ele não era um baterista tão bom assim. Até hoje, ele não é o ‘Baterista do Ano’. Todos nós sabemos disso. Quando terminávamos os ensaios, era tipo, ‘Que caralho foi isso??’ Nós jogávamos a conta do estúdio pra cima dele também [risos]. Havia tanta coisa diferente nele. Seus modos, seu visual, seu sotaque, sua postura, seu cheiro. Ele tinha cheiro de Dinamarca, creio eu. Eles têm um conceito diferente de banho. Nós usamos sabão nos EUA.
ULRICH: Garotos estadunidenses, havia essa coisa meio compulsiva de quatro banhos em um dia.
PLAYBOY: Bem, você se lavava?
ULRICH: O suficiente pra mim. OK?
HETFIELD: Nós comíamos no McDonald’s – e ele comia arenque. Ele era de um mundo diferente. O pai dele era famoso. Ele era bem de vida. Um filho único, rico. Mimado – é por isso que ele é bocudo. Ele sabe o que quer, ele vai atrás e ele sempre conseguiu isso em toda sua vida.
ULRICH: Eu sou filho único. Eu venho de uma criação tão liberal quanto você consiga conceber. Eu viajei pelo mundo todo com meu pai. Então sim, James Hetfield e eu viemos de históricos incrivelmente diferentes. E à medida que crescemos, nós provavelmente só ficamos mais diferentes. (...)
HETFIELD: Ele me apresentou a muita música diferente. Eu passava muito de meu tempo na casa dele, ouvindo as coisas. Eu não botava uma fé no tamanho da coleção de discos dele – eu dava conta de comprar um disco por semana, e ele voltava da loja com 20. Ele comprava Styx e REO Speedwagon, bandas sobre as quais ele tinha ouvido na Dinamarca. Eu dizia, ‘Que caralho! Por que você comprou um disco do Styx?’
ULRICH: Eu tenho uma personalidade obsessiva. Quando eu me interesso por algo, eu tenho que aprender tudo sobre aquilo, seja sobre cadeiras dinamarquesas da era moderna entre 1950 e 1956, ou sobre Jean-Michel Basquiat, ou sobre o Oasis. Quando eu tinha nove anos, era tudo sobre o Deep Purple. Eu passava meu tempo todo sentado do lado de for a do hotel deles em Copenhague, esperando que Ritchie Blackmore saísse para que eu pudesse segui-lo pela rua.
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Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.
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