Não há dúvidas de que o metal se tornou popular no mundo inteiro nos anos oitenta. O estilo, que esteve à beira da falência na década seguinte em razão do sucesso do grunge, voltou a compor as preferências dos adolescentes quando a internet consolidou a popularização de uma série de bandas a partir dos anos 2000.
No entanto, o estilo nunca perdeu a sua força no meio underground. Em nosso país, bandas surgiram – e certamente continuam surgindo – mesmo sem o apoio da grande mídia. Na contramão desse processo, veículos independentes nasceram com a proposta de incentivar e divulgar o gênero pesado e independente. Nunca a música contou com um suporte tão específico.
Da internet para a televisão foi um pequeno passo. Enquanto que no centro do país o Stay Heavy se consolidou como a grande atração da música pesada, no sul o Bigorna TV surgiu três anos atrás. O programa, que é veiculado por uma emissora comunitária de Porto Alegre, vem surpreendendo pela ousadia e pelo empreendedorismo. O Whiplash! conversou com o idealizador do programa, Augusto Peres, que contou mais sobre a história do Bigorna e sobre as ações paralelas do programa.
Whiplash!: Como e quando surgiu a ideia de criar o programa Bigorna TV?

Whiplash!: E por que um programa que mostra o underground gaúcho?
Augusto Peres: Não sou nenhum especialista em metal, mas passei minha adolescência no underground. Eu tentei ser músico, tive uma banda, cresci ouvindo Iron Maiden. Enfim, desde o início eu sabia que seria um projeto extremamente prazeroso. Convidei um amigo para apresentar o programa, fiz minha primeira cobertura de um festival, criei material para a estréia. Uma semana antes, o apresentador havia arranjado um segundo emprego, o que complicaria a sua permanência no projeto. Compreensível, pois a verba de produção era zero. Fui obrigado a meter a cara na frente da câmera. No primeiro mês no ar, um “especialista em metal” me procurou e disse que o programa não duraria seis meses. O Bigorna está no ar ininterruptamente há quase três anos!
Whiplash!: Como é a rotina de trabalho? De que forma os eventos que o Bigorna costuma cobrir alteram o dia a dia?

Whiplash!: E quanto ao trabalho de edição e finalização?
Augusto Peres: Eu faço praticamente tudo quanto à parte técnica. Quando existe a cobertura de algum evento, conto com o apoio de dois amigos que se revezam, na medida do possível, para o programa a existir: Felipe De Marchi e Moisés Alves, da banda IMPETUS MALIGNUM, heroicamente responsável pela produção dos clipes da própria banda. Com o material bruto em mãos, gravo sozinho a abertura, edito tudo e levo o material para a POATV que coloca no ar.
Whiplash!: Além do Bigorna TV, existem outros poucos programas destinados ao heavy metal na televisão. Entre esses, o Fúria MTV, por exemplo, não existe mais há anos. A televisão é um meio em que o metal pode voltar a crescer?
Augusto Peres: É natural que o Bigorna seja comparado ao Fúria MTV, por não existirem muitas referências, embora eu ache quase uma covardia. O Fúria era um produto da MTV, uma rede de TV internacional, e contava com o apoio das gravadoras que forneciam clipes, notícias e tudo mais. Nada contra, que bom que existiu, eu adorava, mas a nossa realidade é outra. O Bigorna é totalmente independente, muitas vezes tiramos dinheiro do bolso para mantê-lo no ar, por amor ao metal, trabalhamos praticamente sem patrocínios. Quanto à relação metal e televisão, já está provado que o público do metal é um nicho de mercado fantástico. Os grandes patrocinadores ainda não enxergaram esse nicho de mercado ou são covardes – mas prefiro acreditar que eles ainda não enxergaram. Eu tenho certeza que metal na TV é audiência garantida.
Whiplash!: O mercado da internet é um bom espaço para que produções independentes possam ganhar o reconhecimento de maneira mais fácil e imediata. Vocês planejam investir nesse segmento?

Whiplash!: Como é a relação de vocês com as bandas? É uma preocupação do nosso underground gravar videoclipes e aparecer na televisão ou ainda é um mercado bastante caro para as bandas independentes?
Augusto Peres: Nossa relação com as bandas é a melhor possível, somos sempre muito bem acolhidos por elas. Existe uma minoria que ainda acha que televisão e internet são coisas de burguês, e quem é verdadeiro não deve se entregar para a mídia. Mas a esmagadora maioria tem a intenção de ter seu clipe produzido e veiculado. Contratar uma produtora custa caro, por isso temos duas diretrizes: o Bigorna produz clipes gratuitamente para as bandas, na medida do possível; e não existe, de forma alguma, cobrança de jabá. Por outro lado, o que atrapalha é a tecnologia mal usada. Infelizmente, muitos se contentam em colocar no Youtube um vídeo de ensaio com áudio ruim, ou o trecho de um show mal iluminado. Eu acho que deveriam repensar o assunto.
Whiplash!: Embora seja transmitido por um canal comunitário, o Bigorna TV tem um bom retorno e uma resposta interessante por parte do público?
Augusto Peres: O problema de estar em um canal comunitário é que a concessão é apenas para um canal de TV a cabo. É irônico, pois um canal comunitário deveria servir à comunidade e ter sinal aberto e disponível. Isso lamentavelmente limita a visibilidade do programa, mas não é um mal tão grande, pois sei de muita gente que se reúne na casa de alguém no final das tardes de sábado ou domingo para assistir o Bigorna.
Whiplash!: Existe uma estrutura fornecida pela POATV ao Bigorna? Como é a relação de vocês com a emissora?
Augusto Peres: Na POATV, todos os programas são independentes. O que a emissora consegue manter é a qualidade de transmissão, que melhorou muito nos últimos meses. Fora isso, a emissora não tem como fornecer recursos para os produtores. Dentro da POATV impera o dogma do respeito à diversidade. São transmitidos programas de variedades, de entrevistas, programas culturais, filosóficos, esportivos, de culinária, programas cristãos... e o Bigorna! Alguns pastores já pediram que as chamadas diárias do Bigorna não fossem colocadas junto aos seus programas. Porém, o auge foi quando me contaram que se referiram a mim como o “Anti-Cristo da POATV” por eu passar clipes de black metal (risos). Falando sério, a maioria esmagadora das pessoas ligadas ao POATV são pessoas muito sérias e inteligentes, que reconhecem que o Bigorna representa uma parte significativa da comunidade. Só tenho a agradecer a atual coordenação e ao conselho do canal.
Whiplash!: Como você vê o cenário de metal, tanto no Rio Grande do Sul como no restante do Brasil?

Whiplash!: Quais são os projetos do Bigorna TV para o futuro? Existe a possibilidade de o programa sofrer alguma modificação na sua estrutura ou até mesmo investir em outros segmentos?
Augusto Peres: Eu acredito que consolidar o Bigorna Festival é a nossa próxima meta. Se tudo correr como esperamos, o programa terá um ganho de qualidade significativo. As mudanças na estrutura acontecerão naturalmente, depende mais do público do que de nós. Por exemplo: a idéia inicial era que o programa mostrasse do rock ao metal mais extremo, mas o publico e as bandas de metal se uniram ao programa de uma forma tão legal que não tivemos como fugir disso. Nos primeiros meses, a idéia era não entrevistar as bandas de forma direta, e sim usar um formato de documentário para criar um arquivo histórico. Depois cedi ao clamor geral, peguei o microfone e comecei a entrevistar todo mundo que passa perto da câmera. Está dando certo, a naturalidade e os palavrões do público trouxeram um humor inesperado e positivo.
Whiplash!: Como surgiu a ideia de realizar esse festival [nota: realizado no último dia 19 de novembro]? A intenção é transformar ele em um evento tradicional de Porto Alegre?

Whiplash!: Deixe uma mensagem aos leitores do Whiplash!.
Augusto Peres: Não precisa ser músico, não precisa saber o nome de todas as músicas, tampouco os álbuns e as bandas. Apenas ir aos shows, abrir a mente para novos sons e novas bandas locais – se divertir com o que é nosso – já faz a maior diferença.
Para assistir:
Bigorna TV – sábados às 19h30
POATV (canal 6 – NET/Porto Alegre) ou pelo site http://www.poatv.org
http://www.youtube.com/bigornatv
http://www.myspace.com/bigornatv
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Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.
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