É inegável que a cidade de São Paulo seja o centro do rock underground do Brasil. E é daí que vem o New City Rockers, banda de Punk Rock formada em 2001 e que depois de dois anos já era indicada para a categoria ‘Banda Revelação’ pelo Prêmio Dynamite de Música. Sua estréia em disco demorou, mas, liberado numa parceria entre a F Records e Alternar Records, a audição de “Mesa Virada” é tão gratificante que compensou com folgas esta demora toda.
Marcelo (voz), Thiago (guitarra), Márcio (guitarra), Fernando (baixo) e Fellipe Topo (bateria) resgatam as raízes da música Punk com maestria, tendo força para conquistar a nova geração amante do estilo e manter o interesse dos que vivenciaram o início do punk rock nacional lá pela década de 1980. O Whiplash! conversou com o vocalista Marcelo, que forneceu mais detalhes sobre este excelente álbum e que, com certeza, merece ser conhecido pelas outras regiões deste imenso Brasil.

Whiplash!: Olá pessoal! Sempre gosto de começar pelo início (é óbvio!). O New City Rockers está na ativa desde 2001, período em que as raízes do Punk Rock estavam bem diluídas em função do sucesso comercial do ingênuo ‘Poppy Punk’. Como foi esta época, considerando que vocês procuram resgatar as origens do estilo?
Marcelo: Acreditamos que sempre existam dificuldades, mas na época estava começando a saturar aquele monte de banda na cena de São Paulo cantando em inglês. Neste mesmo momento começou a surgir bandas fazendo punk-rock em português. Fazer um som com influência das coisas mais velhas sempre pode ser uma surpresa, mas fomos relativamente compreendidos por toda a galera do independente, seja HC, punk dos anos 90, Psycho,... Ou o que for. Nós também curtimos bandas diferentes.
Whiplash!: Quais as bandas que primeiramente chamaram sua atenção, influenciando-o a começar a tocar?
Marcelo: Acho que inicialmente devemos dividir isso por locais. No nosso país: Plube Rude, Inocentes e 365; da Argentina: Ataque 77, Argies pra começar. As inglesas: Stiff Little Fingers e todas as bandas clássicas; na América, o Ramones e bastante punk japonês também, o Cobra só pra dar um exemplo. É mais ou menos por aí.
Whiplash!: O New City Rockers foi indicado como uma das cinco mais importantes bandas revelação de 2003 através do Prêmio Dynamite de Música Independente (o atual Prêmio Toddy), mas pouco depois o grupo acabou se afastando do cenário. O que aconteceu? Afinal, a situação parecia promissora...
Marcelo: É verdade, mas acontecem coisas que... Ou a pessoa olha a vida pessoal e a põe em ordem primeiro, ou a banda acaba parando para sempre. Foi quando cada um foi cuidar de si, para voltar e finalmente gravar um CD. Gravar fica mais fácil a cada ano que passa, mas para o NCR não foi tão simples assim por questões financeiras.

Marcelo: Sim, é verdade. Sempre brincamos entre nós que somos uma banda que faz som de auto-ajuda – kkkkkkkk – que, sem intenção, acabou agradando a todos, sem restrição de idade ou gosto musical. E o mais curioso é que conseguimos tocar em todos os lugares, seja em baladas noturnas ou matinês com bandas das mais variadas. E sempre é muito bom.
Whiplash!: A faixa-título é excelente e mostra uma forte decepção. De que ela realmente se trata?
Marcelo: Foi uma forma de retratar algo que, se qualquer pessoa não vivenciou, com certeza vai. A letra é minha e fala de decepção sim, que se coincide no trabalho, em família, entre amigos. E é um trocadilho para a banda também, “Mesa Virada”, o primeiro CD, a maior conquista depois de anos na luta. Virar a mesa e ver no que dá.

Whiplash!: Suas letras não apresentam aquele espírito combativo do Punk Rock, mas geralmente expõe a situação de forma quase melancólica, como em “Hoje eu sei” ou “Alguém pode me dizer?”. O que é importante na música para vocês? Em que detalhes vocês atentam ao compor algo novo?
Marcelo: A parada acontece assim, é meio que coincidência às vezes, pois as composições fluem naturalmente, pode ser que o espírito combativo que se refere esteja nas entrelinhas. Mas a coisa toda acaba caindo na idéia de mostrar que se pode encontrar a solução, ou ao menos um caminho para tentar resolver os problemas, seja pessoal ou algo muito maior. Por exemplo, os problemas sociais do nosso país.
Whiplash!: Outro grande lance em seu disco é a matadora versão para “Sangue Latino”, originalmente gravada em 1973 pelos Secos e Molhados. Por que incluí-la como uma faixa escondida?
Marcelo: Na verdade ela ficou escondida, pois acreditávamos que assim poderíamos estar reduzindo qualquer problema que venha a ocorrer referente ao direito de poder gravá-la, mesmo sendo uma versão. Sei lá o que pode acontecer, né?
Whiplash!: Putz, cara, espero que o Ney Matogrosso seja compreensivo se vier a ler esta matéria...! Considerando que a população cada vez mais se entrega à ilusão de consumo oferecida pelos ‘marqueteiros’, existem grandes diferenças entre os punks brasileiros dos anos 1980 e os do novo milênio?
Marcelo: Há! Claro que sim, dependendo do ponto de vista, mas isso é a transformação da música, isso acontece em vários estilos e o punk não poderia ficar de fora. E, por outro lado, só sobrevive com a impressão de coisa boa quem faz de verdade, com conhecimento de causa. As pessoas não são tão tolas como a indústria deseja, oferecendo qualquer mercadoria, só porque tem um cabelo espetado e arrebite no cinto. O punk sempre é muito mais do que estética e modismo.
Whiplash!: São Paulo é uma cidade fantástica, com uma cultura independente que sempre teve seu espaço garantido. Como “Mesa Virada” está se saindo neste sentido? Estão conseguindo contar com o apoio dos veículos de comunicação?
Marcelo: Acreditamos que sim, que está caminhando relativamente bem. A cena sempre sofre altos e baixos, hora tem uma porção de bandas, hora é um gato pingado, o público que perde e ganha tamanho. Mas é fato que cada dia temos mais veículos independentes de comunicação e todos ganham com isso, e tem uma galera que nos dá a oportunidade de exposição, como vocês estão fazendo.
Whiplash!: Quais os planos para o futuro? Já estão a trabalhar em novo material, ou concentrando-se nas apresentações ao vivo?

Whiplash!: Com certeza eu irei escutá-lo, Marcelo. Bom, fica aqui meu agradecimento pela entrevista! Fique à vontade para uma mensagem final aos leitores.
Marcelo: Eu é que agradeço da mesma forma a você, e dizer que a coisa toda está aí, os problemas, as dificuldades, mas também coisas boas pra curtir... Vamos viver tudo isso intensamente e sempre procurar melhorar. ‘Nunca se Renda, Nunca Desista’, já diz a canção.
Contato:
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Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".
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