Endrah: o extremo do hardcore com o lado sombrio do death metal

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Endrah: o extremo do hardcore com o lado sombrio do death metal


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“O extremo do hardcore com o lado sombrio do death metal”, é assim que foi definido o som do Endrah, segundo a própria banda, que lançou seu debut, auto-intitulado, e começou a turnê brasileira domingo (15), em São José dos Campos (SP). Antes conhecida por ser “projeto paralelo” do guitarrista Billy Graziadei, do Biohazard, o grupo solidificou sua formação com o batera Fernando Schaefer, o Fernandão (Pavilhão 9, Treta e Kiko Loureiro, ex-Korzus e Rodox), o guitarrista Covero (ex-Nervochaos), o baixista TJ (ex-Nervochaos, Treta) e seu hóspede nesta passagem pelo Brasil, o vocalista norte-americano Ryan "Relentless" Raes, que chegou há apenas cinco dias do primeiro show.

Na casa de Fernandão, enquanto sua filha brincava aos montes, quebrando um pouco o aspecto agressivo do grupo, a banda, com exceção de Covero, teve uma conversa bem-humorada com o Whiplash para contar como foi o início da turnê, o objetivo de chegar à Europa, além de falar melhor o que seria o tal hardcoredeathmetal. Além disso, explicam sem meias-palavras as saídas de Billy e o antigo vocalista Scream, e como é ter mais um estrangeiro no grupo. Confira.

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Whiplash: Após abrir a turnê em São José dos Campos, no sábado (15/04), é um alívio finalmente juntar a banda, lançar o primeiro álbum e botar o pé na estrada?

Fernando Schaefer: Com certeza, foi o primeiro e tão esperado show com o disco na rua e a molecada estava cantando as músicas, conhecendo o som. Apesar de o lugar ser pequeno (Hocus Pocus Studio & Cafe) e um forno, ficou lotado, os contratantes gostaram. É o primeiro passo de muitos que estão por vir.

Relentless: Tinha muita gente e estava super-quente. Era um lugar pequeno, mas eu gosto, por ter mais contato com as pessoas. Eu estava ansioso e foi um ótimo começo.

Whiplash: Qual o principal foco de vocês neste começo?

Fernando Schaefer: A gente só foca a Europa no momento. Fazer show no Brasil é legal por que estamos aqui. Tem gravadora, dá pra arrumar uns shows legais. Mas o objetivo não é ficar fazendo show no Brasil.

Whiplash: Expliquem um pouco, para quem ainda não conhece, como o Endrah surgiu.

TJ: Eu e o Fernando somos camaradas desde moleques e sempre quisemos fazer uma banda pesada. Ele sempre esteve envolvido com outras coisas e não sobrava tempo. Eu tocava com o Covero no Nervochaos e, num belo 2002, decidimos nos juntar com o Fernando. Fizemos ensaios, testamos uns caras, até que essa formação se estabilizou. Sempre fui eu, o Covero e o Fernando, e aí chegamos ao Ryan, mas depois de muitas coisas. É fruto de um trabalho de anos.

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Whiplash: Como foi ter o Billy Graziadei, do Biohazard no começo? Foi algo que abriu muitas portas para vocês?

Fernando Schaefer: Abriu e fechou. No começo foi bom termos gravado a DEMONStration, nossa demo, e depois para termos o Ryan na banda. Porque quando o Scream saiu, fizemos um anúncio na Internet, recrutando um vocalista para o “projeto do guitarrista do Biohazard”. Vocalista do mundo inteiro mandou material. Se falássemos que era o Endrah, do Brasil, ninguém ia mandar coisa nenhuma. Mas o Billy foi um cara que teve como maior desafio musical tocar no Endrah, como até falou em outras entrevistas, porque o hardcore que ele toca é bem mais simples. Ele nunca trouxe um riff que a gente tenha usado, nunca compôs. Só ouviu, curtiu o som e quis entrar. Nós ficamos na expectativa de ele arrumar uma gravadora, o que também não aconteceu. Ficamos meio frustrados de ter um “aluno” na banda e ainda ficava travando a gente porque sempre tinha compromisso. Dois anos atrás, quando ele falou que estava na hora de sair da banda, foi um alívio. Fora que não vamos ficar com o estigma da “banda do Billy”.

Whiplash: Quem escolheu o nome Endrah, que não é uma palavra comum?

Fernando Schaefer: Eu e o TJ somos psicopatas em tatuagem, então a banda no começo chamava Ink, tinta em inglês. Quando o Billy entrou ainda era Ink e vimos que tinha uma banda nos Estados Unidos com esse nome, além de não ser o que a gente realmente queria. Começamos a fazer lavagem cerebral com os nomes e surgiu um livro de uma religião chamada vedismo, que veio antes do budismo. E tinha o INDRA, deus das guerras e das tempestades, um deus muito louco que toma uns gorós de vez em quando (risos). Decidimos colocar o “e” na frente e o “h” no fim e ficou mais demoníaco ainda, dando o ar e o poder que a gente queria.

Whiplash: Como foi a saída do Scream da banda, após ele gravar a demo?

Fernando Schaefer: Ele escolheu ter saído...

TJ: Nós já estávamos descontentes na parte profissional, pelo lance de ele não entrar num curso de inglês, já que no mínimo precisa saber o que está cantando, compor do jeito certo. Tanto que o Ryan pegou as letras e falou “o que é isso?”. Um monte de erros... Tirando isso, teve mancadas de querer aparecer demais, como o lance do reality show (N.R.: refere-se ao “Sem Saída”, da Record).

Fernando Schaefer: Ele queria fazer sucesso a qualquer custo...

TJ: O Scream falou pra gente que não ia, mas um dia de manhã, a namorada dele ligou para avisar que ele tinha ido. Nem veio avisar, mandou a mina.

Fernando Schaefer: Aí eu disse, fala pra ele que, então, ele estava fora da banda.

Whiplash: E você Ryan, por que se juntar a uma banda brasileira?

Relentless: Naquele tempo eu não estava trabalhando muito, estava frustrado. Foi aí que li a notícia no Blabbermouth [site norte-americano], de que eles estavam procurando um vocal. Vi sobre o Endrah, essa nova banda com o Billy, que seria ainda mais pesada que o Biohazard e achei demais. Baixei a DEMONStration e gostei muito, achei brutal. Não curti os vocais do Scream e pensei: “Pô, se eles gostam desse cara, vão me amar!”. Garanti superar esse cara, que é uma piada e fazer essa merda melhor. Queremos ser a banda mais pesado do mundo, por isso estou aqui.

Whiplash: Você não teve muito tempo no Brasil, aliás, estava a um ano e meio sem tocar com os caras, desde a gravação do álbum. Deu para conhecer alguma coisa?

Relentless: Na verdade, só o estado de São Paulo, ainda há uns 37 outros estados para conhecer (risos)!

Fernando Schaefer: O TJ também (mais risos)! O Brasil é muito grande, é difícil as pessoas conhecerem inteiro (explica ao vocalista).

Relentless: As pessoas lá fora pensam “oh, praia” e toda a aquela merda do Rio de Janeiro. E aqui estou eu na maior cidade que vi na vida, trabalhando e nunca vi a praia. Mas me divirto, estou conhecendo a cultura, adoro a comida e as bebidas. As pessoas são legais, é uma cultura amigável. Ah, e tenho aprendido português, para sair e, pelo menos, poder comprar alguma coisa e não me sentir um idiota.

Whiplash: Como é para vocês não tocarem todos juntos há tanto tempo?

Fernando Schaefer: Como profissionais, nunca paramos de tocar. Eu, o TJ e o Covero sempre ensaiamos aqui em casa, temos até três músicas novas prontas. E é isso aí, fizemos três, quatro ensaios com o Ryan e já estava tudo pronto.

TJ: O Ryan, mesmo sendo também americano, sempre esteve mais presente que o Billy.

Whiplash: E esperar tanto tempo para o lançamento, gera uma ansiedade grande, não?

Fernando Schaefer: O Brasil, nesse sentido, anda a 1km/h. Tudo demora a acontecer e é um dos motivos para focarmos lá fora. Logo que gravamos, os europeus pegaram e lançaram, tanto que lá saiu antes. E demorou para acertar aqui.

Whiplash: Como funciona a composição das músicas?

Fernando Schaefer: A gente faz mais jams. Alguém chega com um riff, eu chego com umas batidas, ou faço riff com a boca. E vai juntando.

TJ: Pegamos influência de tudo que escutamos, o que é mais difícil e que dá retorno da galera. Acaba que é o som que a gente mais gosta de ouvir.

Whiplash: De onde você tira tanta agressividade nas letras, Ryan?

Relentless: Eu sou maluco cara, tome cuidado (risos). Basicamente, tem muita gente com uma vida regular e sempre muito preocupada em não fazer as coisas por medo. É por isso que as coisas não mudam seriamente. Hoje, algumas músicas falam de idéias, do “se fizéssemos isso”. Às vezes, a violência é necessária para se fazer mudanças e o Endrah é brutal, queremos ser a banda mais brutal, sem besteiras de falar de merdas como dragões, gnomos. Há dois lados da rua e não queremos ficar onde se fala do sol brilhando ou de arco-íris, queremos manter a coisa real.

TJ: Como já foi dito, fazemos o extremo do hardcore com o lado sombrio do death metal.

Whiplash: Esse é um assunto que eu gostaria que vocês comentassem, por tocarem o que vocês chamam de hardcoredeathmetal. Mas, pelo que vejo, é um pouco mais puxado para o death...

TJ: É, o death metal é uma coisa que choca mais, veloz, mas se ver bem, é tudo misturado. Não tentamos ver “ah, está faltando hardcore, ou está faltando death”, vamos fazendo e quando vê sai isso aí.

Fernando Schaefer: E o vocal é hardcore né?! Não tem a ver com o death metal, com os guturais. Temos as batidas death, mas muitos grooves de hardcore. Vem da nossa escola. Eu escuto mais hardcore, o Covero só escuta death metal, o TJ escuta os dois, o Ryan também, então fica legal a mistura. Quando vimos, as músicas estavam assim e a gente gostou deste rótulo.

Whiplash: O som é muito técnico, veloz. Como fica ao vivo?

Fernando Schaefer: Para mim é super-desafiante, estou colocando minha técnica e meu corpo no limite. Acaba o show e estou detonado, mas é assim que chegamos onde queremos.

Whiplash: Vocês ficaram satisfeitos com o Ciero na produção?

Fernando Schaefer: Ficamos muito satisfeitos. O Ciero é um cara acostumado não só com bandas de hardcore, mas também de death, como o Krisiun, e achamos que ia ser o cara certo para fazer no Brasil. Participamos do processo inteiro e foi ótimo, porque pudemos passar exatamente o que queríamos.

Whiplash: E o lançamento primeiro na Europa (via Coretex, da Alemanha), como ocorreu?

Fernando Schaefer: Em uma viagem à Europa como roadie do Sepultura, conheci o David, da gravadora na Europa. Ele é gente fina pra caramba, ficamos bem amigos. Quando fizemos a demo, mandei pra ele, que curtiu, mas disse que ninguém compra demo. Então, ia esperar a gente fazer o CD cheio e com certeza ia lançar. Tanto que mandar para ele foi a primeira coisa que fizemos.

Whiplash: Vocês enxergam a Europa como um cenário bom para vocês?

Fernando Schaefer: Cara, esse tipo de som está crescendo muito, estamos fazendo uma música bem atual, que tem várias bandas vindo na cola. Nos Estados Unidos também, o Billy falou que vai dar uma ajuda e talvez role alguma coisa. Estamos esperando algumas respostas...

Whiplash: Para você seria ainda mais especial chegar ao mercado norte-americano, Ryan.

Relentless: Espero que aconteça, temos falado com algumas gravadoras lá, mas está só no começo. Para mim seria ótimo, estou ansioso para que dê certo. Quando Billy saiu, foi um passo atrás, muitas portas fecharam, mas ainda vamos fazer acontecer.

Whiplash: O que você acha do metal atualmente em seu país?

Relentless: O metal realmente teve um retorno nos EUA. Quando comecei parecia até uma coisa ruim, as pessoas falavam “uh, você tem uma banda”. Hoje ter um grupo é legal de novo. Uma nova geração está se formando, que compra CDs, lê as letras, quer ter a sua camiseta. Além de ter as bandas na faixa dos 40 anos, como o Testament e o Exodus, então é uma boa oportunidade para crescermos lá.

Whiplash: E por aqui, Fernando?

Fernando Schaefer: Tem umas bandas de metalcore que estão fazendo uma cena legal. Mas se no Brasil é difícil um cara ter uma carreira profissional, imagina fazer um som totalmente diferente da cultura de carnaval. O povo aqui só se fode, então na hora de se divertir só quer saber de ficar alegre, então é difícil.

Whiplash: Toda banda que começa no Brasil tem o estigma de seguir o Sepultura e o Krisiun. Rola essa comparação vocês?

Fernando Schaefer: Por incrível que pareça não, pois fazemos um som totalmente diferente, então é uma cena que nunca teve aqui e lá fora está começando. O público é diferente também, vem mais do hardcore e do death metal e essa mistura faz uma galera nova. Mas com certeza queremos preencher a lacuna do Sepultura... O Sepultura é banda ainda? (risos)

Whiplash: Você acha que é?

Fernando Schaefer: Ah, para mim, Sepultura sem Cavalera não é Sepultura. Sou amigo do Igor e, para mim, a banda era Igor e Max.

TJ: Nossa comparação vai além dessas coisas. As próprias bandas que gostamos, Meshuggah, Lamb of God, tem gente que nem consegue entender o som desses caras.

Whiplash: Antes de o CD sair, vocês disseram que tinham 20 músicas prontas. Dez entraram e as outras?

Fernando Schaefer: Estamos usando um riff ou outro para as novas, mas vamos fazer tudo de novo. Evoluímos muito desde o começo. Até porque eu só comecei a tocar com o Covero no Endrah, então leva um tempo pra se entrosar e tal...

Whiplash: Falando um pouco de trabalhos paralelos, ainda mais você Fernando, que sempre está envolvido em algo, como andam as coisas?

Fernando Schaefer: Tudo meio parado agora. A prioridade, desde que começou o Endrah, sempre foi a banda, mesmo porque é o som que eu gosto de verdade de tocar. Os outros projetos eu fazia, mas não tinha 100% de satisfação... Foi um motivo pra eu fazer a banda exatamente do jeito que gosto.

Whiplash: Nem o Rodox? (risos)

Fernando Schaefer: Pelo amor de Deus, sofri demais lá...

TJ: Naquela época, trombei com o Fernando e ele falou “Pelo amor de Deus, vamos fazer um som pesado ai”! (mais risos)

Fernando Schaefer: O Pavilhão está rolando um show aqui, outro ali, meio fraco. O Kiko está cuidando do Angra, mas já chamou para tentarmos compor alguma coisa, mas nada de concreto.

Whiplash: Além do Endrah, você tem o Vengince nos Estados Unidos, Ryan. Como está com eles?

Relentless: Nós vamos sair em turnê em julho, pelos EUA. Não é tão brutal como o Endrah, vai mais para o metalcore, parecido com as bandas modernas. Tem uns lances de teclado e samples. Estou na banda desde 1994, um longo tempo. Eu gosto de cantar o tempo todo, então é legal, sempre viajo bastante...

Whiplash: Para encerrar, deixem uma mensagem aos fãs.

Relentless: Essa é fácil! Depois que lerem essa entrevista, vão comprar a porra do CD! (risos)

Fernando Schaefer: Queria falar para a galera que nessa tour vamos mostrar para muita gente que o Endrah, além de ser uma banda que gravou um puta disco, é mil vezes melhor no palco. Então não percam a oportunidade de nos ver ao vivo que o bicho vai pegar de verdade.

TJ: Reforçando, queremos um maior contato com o público. Quando a gente toca para a galera, estamos nos divertindo e isso é muito legal. O Endrah é para isso aí. Valeu!

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Sobre Maurício Dehò

Nascido em 1986, é mais um "maidenmaníaco". Iniciou-se no metal ao som da chuva e dos sinos de "Black Sabbath", aos 11 anos, em Jundiaí/SP. Hoje morando em São Paulo, formou-se em jornalismo pela PUC e é repórter de esportes, sem deixar de lado o amor pela música (e tentando fazer dela um segundo emprego!). Desde meados de 2007, também colabora para a Roadie Crew. Tratando-se do duo rock/metal, é eclético, ouvindo do hard rock ao metal mais extremo: Maiden, Sabbath, Kiss, Bon Jovi, Sepultura, Dimmu Borgir, Megadeth, Slayer e muitas, muitas outras. E é de um quarteto básico que espera viver: jornalismo, esporte, música e amor (da eterna namorada Carol).

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