Anvil - Entrevista exclusiva com Steve Lips Kudlow

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Anvil - Entrevista exclusiva com Steve Lips Kudlow


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Por Thiago Corrêa Sarkis

Do sucesso do início dos anos 80 à atualidade, o Anvil se mantém forte na cena metálica e segue lançando discos com o estilo que chamou a atenção de uma enorme gama de pessoas ao redor do mundo.

Depois de algumas mudanças em sua formação, problemas com gravadoras, entre outras coisas, Lips e Robb Reiner seguiram acreditando no grupo e, mesmo na linha original dos primeiros anos de carreira, ainda apresentam idéias novas e originais.

Steve ‘Lips’ Kudlow, vocalista e símbolo maior do grupo de álbuns clássicos e inesquecíveis como “Metal On Metal” e “Forged In Fire”, nos conta um pouco da trajetória do Anvil, da atualidade e realidade financeira da banda, de sua perspectiva em relação ao mundo, entre assuntos bem polêmicos e algumas doses de humor. Confira abaixo:

Whiplash! - “Still Going Strong” é um álbum com aquele som familiar do Anvil. Mas existe uma pegada, um groove aqui e ali que não poderíamos imaginar ouvir da banda no início da carreira. Você concorda com isso? O que você acha que mais mudou desde os primeiros anos até este álbum?

Lips / Eu acho interessante quando as pessoas escutam nossos discos e não percebem que estamos propositalmente tentando ser diferente a cada vez que gravamos, nas músicas e no som. Nossas primeiras gravações foram realizadas em circunstâncias completamente diferentes e nunca se repetirão, e além do mais, também não se repetirão nenhum de nossos discos. Na sua afirmação, você faz o comentário de que existem coisas no novo CD que você nunca imaginaria que faríamos nos CDs antigos e eu concordo. Nós temos um baixista muito melhor e nós amamos usar o baixo para ajudar a formar o ritmo. Isto melhorou enormemente o arranjo das músicas em geral, ajudando a manter uma força motriz sólida, e acho que isso é o que mais mudou desde o início de nossa carreira.

Whiplash! - Como foi o processo de composição de "Still Going Strong"? Quando começou e o que mais influenciou no contexto instrumental?

Lips / Nós partimos da criação de algo que não havíamos feito antes, procurando por sentimentos e idéias que eram novas para a banda. Nós procuramos pelas nossas primeiras influências como inspiração, usando a pegada de bateria do final da década de 60, início dos anos 70. Fazendo isso, críamos um CD de sonoridade oitentista.

Whiplash! - A produção não é tão limpa e não foi usada uma alta tecnologia. É simples e pesada. Essa era realmente a proposta de vocês e de Pierre Rémillard?

Lips / Eu não sei se concordo com sua opinião sobre o quão limpo o CD soa. De fato, eu não penso que realmente possa existir algo mais claro que uma gravação digital. Este o CD do Anvil com o melhor som, na minha opinião, e se pudermos fazê-lo soar melhor na próxima vez, certamente tentaremos.

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Whiplash! - Falando sobre Pierre. Quando vocês o conheceram e o que você acha que ele traz de melhor à banda?

Lips / Nós conhecemos Pierre pela nossa gravadora aqui no Canadá. Nós gravamos o “Speed Of Sound” com ele em 1997. O que ele traz de melhor para a banda é a mixagem. Ele faz um trabalho completamente adequado das primeiras gravações aos overdubs. Ele é fantástico no trabalho com os vocais e nos sons incríveis de guitarra. Mas o principal é que acredito no julgamento dele. Quando ele diz que é um ‘take’, eu acredito nele.

Whiplash! - Quando ouço algumas das letras, como a de “Race Against Time”, sempre penso nos ataques terroristas de 11 de Setembro. Esse episódio realmente influenciou as letras? O que você pensa sobre os ataques?

Lips / Se você sente isso quando ouve e lê essas letras, é porque pode estar lá algo sobre isso num modo subliminal. Mas não coloquei isso intencionalmente nas letras. Eu tenho um tipo de perspectiva negativa sobre o mundo. Geralmente penso que somos homens da caverna com computadores, e que esperança existe nisso?

Whiplash! - "Holy Wood" me chama atenção não somente pelo instrumental, como também pelas letras. É provavelmente a melhor do álbum pra mim. Vocês utilizam bem as possibilidades do idioma. É uma letra muito intensa, crítica e sarcástica, você não acha? Quando você compôs essa música e quais são seus sentimentos e opiniões sobre ela?

Lips / Eu não poderia concordar mais com você na opinião sobre essa letra. É engraçado, mas não fui eu que tive a idéia. Foi o Robb que veio com esse título. Eu fui para casa e escreve essas palavras usando minha capacidade mental em descrever como a TV é mais influente que a bíblia em ensinar a moralidade à raça humana. No segundo verso é onde penso que atingi uma linha muito séria sobre Ishmael e Isaac. Não sei se você sabe, mas é coisa religiosa, do velho testamento. Era sobre os filhos de Abraham. Um se tornou um hebreu, judeu e outro filho um árabe, muçulmano e eternamente eles odeiam um ao outro. Isso fala de nosso destino? Eu sempre estou em questão com a religião. Eu realmente não acredito em um Deus que o homem fez. Eu acho que as histórias da bíblia e a literatura religiosa estão aí estritamente para ensinar a moralidade, contudo nós a interpretamos de maneira distorcida.

Whiplash! - Por outro lado, eu vejo uma boa questão para discussão na música "Sativa". Você não acha que essa música abordando o tema da maconha pode influenciar alguns de seus fãs (especialmente os jovens? Qual a sua opinião nessa discussão sobre a maconha, a legalização dela, etc.?

Lips / Eu acho que o mundo tem uma atitude arcaica em relação à maconha. Todos nós crescemos acreditando que nossos governos nos protegem de coisas perniciosas, e aí nos recusamos o abuso também de cigarros e álcool. A maconha é bem menos nociva que essas outras substâncias e apenas recentemente os médicos tiveram que admitir que esta é uma das únicas formas para um epilético conseguir passar um dia sem barbituricos. Foi então comprovado de fato que essa substância deve e pode ser usada numa medicina adequada.

Whiplash! - Você mesmo já disse não ser muito positivo sobre o futuro do mundo e da humanidade. Quais seriam as razões?

Lips / Quando você reflete sobre a trilha de guerra da humanidade, você chega à conclusão de que isto essa é a maior e melhor sucedida indústria. Sempre nos deparamos com uma violência imensa e sem perspectiva de fim. O poder ainda é medido pela força militar e financeira. Nossas tecnologias, em sua maioria, são preparadas pelos militares, e se não para os militares. Sendo um idealista, eu creio sinceramente que existem alternativas melhores do que matar meus companheiros humanos.

Whiplash! - Voltando ao novo disco. A música "Still Going Strong" nos diz um pouco da história do rock ‘n’ roll e do metal. Os estilos ainda estão aí, mas você realmente acredita, em termos populares, de exposição, que esses estilos, especialmente o metal ainda têm essa revelância destacada nas letras e no título? Existe inclusive uma série de preconceitos construídos historicamente sobre os fãs e as bandas de metal. O que você pensa sobre isso?

Lips / Eu acho que pessoas de pouca habilidade precisam etiquetar as bandas a fim de guardar os rastros de todos os tipos de ‘metal’ existentes. Nisso, o estilo se fragmentou completamente. Quando acontecem coisas assim, junto vêm os preconceitos. Se você não gosta de speed metal, então você perderá algumas coisas realmente fantásticas, porque ao mesmo tempo, essa mesma banda que compõe uma grande música de speed metal, pode Ter uma música mais lenta que enlouquecerá qualquer fã de metal. O resultado final disso é que a música acaba tristemente esquecida. A verdade é que todos os estilos de metal estão conectados de uma forma ou outra e as pessoas poderiam ter a cabeça mais aberta. Na criação das letras para a “Still Going Strong”, eu parti de uma breve história de um herói da guitarra e no final eu queria realmente dizer que a guitarra e a música que ela criou, continua forte e isso não pode ser negado.

Whiplash! - Você sente falta da fama que o Anvil teve nos anos 80? Como você vê as respostas dos fãs e da mídia especializada para os últimos lançamentos do Anvil? Atualmente é possível viver bem com o dinheiro que você ganha apenas das atividades da banda?

Lips / Infelizmente a verdade é que o sucesso do começo dos anos 80 foi tirado de nós e de fato, na época, estávamos informados de que falhamos. Atualmente eu não recebo dinheiro por estes CDs e nunca receberei, pois o contrato que assinamos em 1980 dá todos os direitos à gravadora, e para sempre. A gravadora na época tinha um problema na Europa, com CDs pirateados, os quais eu creio tinham um número bem significativo. Outra vez, mais um para as estatísticas das centenas de bandas roubadas por gravadoras. Sobre os fãs atualmente, é algo bem confuso. Eu creio que se fizéssemos um teste “deaf ear” (N. do E.: orelha surda, ouvido surdo. No Brasil, familiarizado como “Blind Ear” – orelha cega, ouvido cego) a maioria deles falharia. Na perspectiva de que se você desse um CD do Anvil a alguém que nunca ouviu falar da banda, a pessoa provavelmente diria que é ‘’Ok!’’ e não estaria preocupada em comparar com todos os outros álbuns do grupo. Quando os antigos fãs ouvem as novas músicas, sempre comparam-nas com as gravações antigas e poquíssimos dão a mesma chance que dão às velhas composições, às novas.

Whiplash! - O que você sente quando um fã chega e te diz que o Anvil era ótimo e que o melhor disco da banda é "Metal On Metal" ou "Forged In Fire"? Essa é a opinião da maioria. Você vê isso como negativo ou concorda com isso?

Lips / Eu realmente não penso sobre o que os críticos ou os meus fãs podem dizer. Tenho minhas próprias opiniões e acredito que elas estejam certas. Vivo no meu próprio estado de realidade e baseio minhas opiniões em fatos e não em mitologia. Quando as pessoas falam de antigos discos tendem a exagerar a qualidade deles. Isso é um processo bem natural e tem a ver com o ficar mais velho, o tornar-se adulto. Sempre que pensarmos no passado, tenderemos a vê-lo por óculos encantados, fazendo com que ele pareça maravilhoso. Mas na verdade, era tão mundano quanto o presente, mas por causa do tempo ficou mais doce. O fato é que para mim o Anvil de hoje tem uma formação muito melhorada. Glenn e Ivan são muito mais talentosos que Dave e Ian e as músicas antigas soam muito melhor agora do que em suas versões originais. Eu freqüentemente desejo que nós tivéssemos Glenn e Ivan para as gravações de Metal On Metal e Forged In Fire. Acho uma vergonha as pessoas não terem capacidade de evoluir junto com a banda.

Whiplash! - Em 1996 e 1997, o Anvil lançou dois álbuns que não estão na lista dos melhores para os fãs, mas que chamam a atenção de muitas pessoas, especialmente pelo título e também pela época em que foram lançados. Algumas pessoas dizem que “Plugged In Permanent” e “Absolutely No Alternative” foram respostas para o ‘discurso’ alternativo e a nova sonoridade do Metallica. Há alguma verdade nisso?

Lips / Não. Eu não me importo com o Metallica ou qual é a nova tendência. Eu faço isso por gratificação própria. Se eu gosto, eu gravo, e é simples assim. Na época em que gravei estes CDs, era o que senti que queria fazer. “Plugged In Permanent” é um ótimo CD, e tem algumas das músicas mais pesadas que já fizemos. Todo CD do Anvil tem ao menos umas boas composições e por isto eu digo que você gostará para sempre de ouvir algumas músicas. Eu gosto de zombar das tendências e da estupidez corporativista. Como todas essas bandas fazendo gravações acústicas, e o rádio voltando ao metal chamando-o de música alternativa.

Whiplash! - Você e Robb Reiner estão juntos no Anvil desde 1978. Você não sente vontade de matá-lo ou chutar-lhe a bunda algumas vezes? A que você creditaria essa longa convivência? Depois de mais de 20 anos, você se vê numa banda sem ele?

Lips / Robb e eu somos como irmãos. Somos amigos e tocamos juntos desde 1973. Claro que tivemos momentos pesados, mas sempre achamos formas de superar nossas diferenças. Eu não consigo ver o ponto em que algum problema nos leverá a não superar as desavenças. Robb e eu somos os núcleos do Anvil e estamos completamente contentes em termos o inteir controle de nosso destino. Eu fiquei totalmente convencido da companhia dele, de tal forma que náo penso que poderia tocar com um baterista que não fosse ele. Minhas expectativas às vezes são difíceis até mesmo pra ele. A bateria é o coração e a alma de qualquer música, e se eu não tenho uma excelente bateria, o quão boa poderá ser a música?

Whiplash! - O Anvil ainda excursiona pelo mundo, ou agora vocês só têm tocado na América do Norte e no Canadá?

Lips / Acredite você ou não, nós temos excursionado como nunca antes nos últimos anos. A primeira vez que tocamos na Alemanha foi em 1993. Nós ainda tocamos a maioria das vezes fora do Canadá, e o público vem sendo consideravelmente consistente na Europa e nos Estados Unidos. Muitos dos fãs são os originais fãs que ainda amam o que fazemos.

Whiplash! - Nos conte de dois shows ou duas turnês inesquecíveis do Anvil. Uma boa e uma ruim.

Lips / O show mais incrível foi em Brugge na Bélgica, no festival Heavy Sounds in the no verão de 1983. Nós tínhamos acabado de gravar Forged in Fire e tivemos a oportunidade de tocar em alguns shows na Europa, dentre eles o Reading Festival na Inglaterra, um festival na Irlanda, e este festival na Bélgica. A banda foi levada como uma surpresa, e ninguém sabia que iríamos tocar. Quando o bumbo do Robb começou a ser tocado no palco, o lugar foi à loucura. Eu estava completamente chocado, porque até aquele dia, eu sentia que éramos apenas mais uma banda. Porém, depois de nosso vitorioso show aquele dia, percebi que eu tinha um futuro sólido e uma base de fãs também sólida, o que é aquilo que qualquer grande banda precisa para tocar uma vida guiada por música.

Lips / Uma das piores experiências e provavelmente o momento mais embaraçoso foi um show na minha cidade natal, abrindo para o Dio. Eu costumava usar calças apertadas presas por uma alça, e a alça arrebentou e minhas calças começaram a cair e o pior de tudo é que não havia nada debaixo, então meus órgãos sexuais tiveram seus quinze minutos de fama!

Whiplash! - O que você acha do cenário metálico atual, incluindo estilos como nu metal, metal progressivo, melódico, etc?

Lips / Honestamente, eu não presto qualquer atenção a nada de novo, a não ser lançamentos novos de antigas bandas. Não acredito que bandas como Sum 41 tenham muito talento e eu realmente detesto o aspecto vocal desse tipo de música. Eu diria que sou um fanático da ‘old school’ e serei até morrer.

Whiplash! - O que os fãs podem esperar do Anvil nos próximos anos?

Lips / Eles podem esperar que eu mantenha a tocha acesa e tocar até a minha morte.

Whiplash! - Então é isso Lips. Muito obrigado pela entrevista...

Lips / Eu realmente gostaria de ir a seu país e fazer alguns shows. Eu ouvi dizer que o Anvil é uma banda bem conhecida na América do Sul. Tenho certeza que não haveria fã desapontado, porque ainda tocamos muitas das músicas antigas no nosso set. Se cuidem e espero encontrá-los um dia.

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