Megadeth: história da Guerra Fria em "Set the World Afire"

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Megadeth: história da Guerra Fria em "Set the World Afire"

Postado por Rodrigo Lourenço Costa | Fonte: Blog HM - História e Metal

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"Set the World Afire" é a primeira composição de Dave Mustaine, mas curiosamente só saiu no 3º álbum da banda, em 1988, e inicialmente teria o nome de "Megadeth".

O mundo em que ele cresceu (anos 70 e 80) foi um mundo onde a ameaça nuclear era cotidiana. Tanto que isso se reflete em suas letras, como essa, Dawn Patrol, Rust In Peace e Black Curtains.

Os anos do governo Reagan nos EUA (jan/1981 à jan/1989) foram os anos finais da Guerra Fria, onde o presidente estadunidense acirrou o conflito contra o combalido Estado Soviético. Mas ainda assim, havia o medo da retaliação da URSS.

Dentro desse contexto, a letra conta aos “sobreviventes” sobre como foi a III Guerra Mundial, depois que EUA e URSS apertaram os botões de destruição em massa.

A utilização como música incidental a canção “I Don't Want To Set the World On Fire" (1941) do grupo vocal americano chamado The Ink Spots, nos faz imaginar uma pacata fazendo no interior dos EUA, onde as pessoas calmamente ouvem no seu radinho de pilha a linda canção. De repente ouve-se o efeito sonoro de um sibiliar de uma bomba e uma explosão em seguida. Entram os riffs frenéticos. Essa construção inicial da música mostra exatamente o que era o medo da Guerra Nuclear: ninguém em nenhum lugar estaria salvo. E mais, de repente tudo estaria destruído. Isso fica evidente logo na primeira frase da letra: "Red flash, clouds choking out the morning sky"

Com guitarras rápidas, bateria pulsante e uma linha de baixo que dá corpo à construção musical, o ouvinte recebe uma avalanche sonora. Os músicos executam com extrema velocidade e maestria arranjos muito complexos.O ouvinte é convidado a experimentar a dureza de um mundo destruído, que é sugerida pela letra da canção. Não haveria jeito de cantar sobre o fim do mundo de uma forma delicada e tranquila.

O "eu" poético pode ser entendido como alguém que assiste ao fim do mundo anunciado. A frase "They said it'd never come, we knew it was a lie" deixa essa sensação explícita para o ouvinte, e mostra novamente a paranóia de conviver com o medo da aniquilação em massa. (HOBSBAWN, 1995, p. 224). As pessoas não confiavam nos governos do EUA nem da URSS quando falavam em "distensão" ou "paz", pois só haveria paz se realmente houvesse o desarmamento de ambos os lados.

A letra ainda faz referência ao milenarismo, quando cita "Distorted figures walk the street, it's 1999". A crença do final do mundo sempre aumenta no final dos milênios. Foi assim em boa parte da Europa cristã em 999, quando o movimento das Cruzadas ganhou enorme força movido pela crença do Apocalipse milenar. Aqui a letra apresenta essa mesma preocupação, utiliza a proximidade do ano 2000 (a música é de 1988) para criar um clima apocalíptico.

A linha "The arsenal of Megadeth can't be rid they said", vem de um panfleto vinculado pelo senador da Califórnia, Alan Cranston, que diz: "Não é simples se livrar do arsenal de Megamorte, disseram, não importa o que os tratados de paz chegaram." (Megadeath = 1 milhão de mortes; terminologia utilizada em ocasiões onde as mortes se contam nas casas dos milhôes, como na guerra; que gerou a corruptela para o nome da banda).

A canção deixa bem claro que não acredita na "falsidade da paz mundial", e fala sobre as consequencias do ataque nuclear. Com detalhes horripilantes, primeiro cita os efeitos iniciais do ataque nuclear, com pessoas derretidas como vela, em formas inumanas. Depois fala sobre o cenário de total destruição gerado pelas bombas. As cidades em ruínas, citadas na linha "Dig deep the piles of rubble and ruins".

Há referência de Albert Einstein na linha: "There's unknown tools of World War III / Einstein said 'We'll use rocks on the other side". Perguntado se saberia responder que tipo de armas as potências mundiais usariam em uma eventual Terceira Guerra Mundial, Einstein disse: “Não sei. Mas na Quarta Guerra Mundial, usaríamos paus e pedras”.

A música tem riffs frenéticos e mantém o tom apocalíptico, trazendo a fúria e a angustia como sentimentos despertos nos ouvintes.Tem muitas quebras noandamento, que variam entre acelerado e muito acelerado, e ajudam a criar um clima tenso e raivoso. A técnica vocal do Dave Mustaine nesse período está em cantar de forma agressiva, quase como se estivesse “rosnando” ao invés de cantar. É como uma voz que grita que não há esperança para um mundo destruído pela guerra. Os vocais recebem efeitos em algumas frases, como na segunda estrofe, como se viesse de formas de vidas não humanas, dando ênfase ao que diz a letra.

Dave Mustaine é grande apreciador de HQs, e não é desprezível que a descrição dele sobre o conflito na letra de sua música, seja influenciada por histórias como Batman – O Cavaleiro das Trevas(1986) e Watchmen (1986). Se percebermos essas histórias, existem semelhanças muito expressivas entre a forma em que os quadrinhos contam um eventual ataque nuclear, e a letra de Mustaine.

"Set World Afire" figura como um grande clássico do MEGADETH, e nos conta um mundo à beira da destruição. Alguns críticos dizem que esse tipo de música é datada, porque ela fazia sentido quando era cantada em 1988, quando o mundo ainda vivia a Guerra Fria, mas que passados 25 anos a canção perderia o seu sentido. É nesse ponto que o historiador se apropria da música como documento, exatamente para analisa-la como registro vivo de um período, captando suas nuances e desdobramentos. É nesse instante que a história encontra a música, para poder dar-lhe sentido e trazer o discurso novamente à luz. Para que possamos entender o contexto em que a obra foi criada, e decodigicar os signos contidos nela. Quando conseguimos fazer isso, percebemos que temos uma obra atemporal, com valores culturais que não se perdem com o passar dos anos.

Referências bibliográficas:

BARROS, José D’Assunção. O campo da História: especialidades e abordagens. Petrópolis, Editora Vozes, 2004

GUARINELLO, Norberto L. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Revista Brasileira de História, São Paulo, v24, n.48, 13-38, 2004.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

KRAKHECKE, Carlos André. A Guerra Fria da década de 1980 nas Histórias em Quadrinhos Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Revista eletrônica História, imagem e narrativa. disponível em: <[www.historiaimagem.com.br ]>. Acesso em: 23 mai. 2010.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.

______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.

www.megadethbrasil.com Acesso em: 06 jun 2010

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