Sweet Home Alabama: o mito Lynyrd Skynyrd x Neil Young

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Sweet Home Alabama: o mito Lynyrd Skynyrd x Neil Young

Postado por Filipi Junio | Fonte: Southern Rock Brasil

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Esse artigo é uma mescla de: Lynyrd Skynyrd and Neil Young publicado no site Thrasher's Wheat - A Neil Young Archives, Skynyrd X Neil Young: Amigos ou inimigos escrito pelo Bento Araújo e publicado no Poeira Zine e Lynyrd Skynyrd: a história de "Sweet Home Alabama" publicado aqui no Whiplash. Ao longo do texto eu coloco algumas opiniões próprias sobre o assunto. Espero que gostem.

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Sweet Home Alabama

Graças a Neil Young, o Lynyrd Skynyrd foi inspirado a escrever a canção "Sweet Home Alabama".

"Sweet Home Alabama" tem uma longa história. A música é muito popular e tem uma história extremamente complexa. Raramente uma canção popular foi tão amplamente mal compreendida por tantos durante tanto tempo.

As músicas de Young, que eram críticas as atitudes racistas e segregacionistas do sul, serviram de inspiração para a banda produzir uma música que continua a ser escutada incessantemente pelos fãs da banda 39 anos depois de seu lançamento.

Mas a ironia de "Sweet Home Alabama" é que, para muitos, a música não foi concebida como uma critica a Neil Young, e o trecho da música que diz "Hope Neil Young will remember, a southern man don't need him around anyhow” ajuda a evidenciar essas opiniões. Esse trecho pode ser entendido de forma ambígua, pois pode ser visto como repúdio a Young ou um elogio a sua postura anti-racismo.

Letra e Análise

"Sweet Home Alabama" muitas vezes é interpretada como racista, principalmente por causa de certas partes de sua letra, como: "In Birmingham [onde uma igreja negra foi bombardeada e matou quatro jovens] they love the governor [George Wallace que foi um segregacionista]". Depois de cantar essa parte, Ronnie canta "Boo, boo, boo!" como uma desaprovação a Wallace e suas políticas racistas. Quanto à "Boo, boo, boo!" alguns o rejeitaram. Muitos ainda a consideram como um símbolo do descaso do Sul para o movimento dos direitos civis.

George Wallace, governador do Alabama

George Wallace foi o governador do Alabama, quando a música foi lançada - aparentemente – ele amava a parte "Em Birmingham eles amam o governador". Na melhor das hipóteses, isto é ambíguo. O que é pior, isso pode ser visto como um endosso da política racista do estado do Alabama.

Talvez Van Zant resume-se melhor. "Nós não estamos na política, não temos nenhuma educação e Wallace não sabe nada sobre rock n’ roll".

Em 1975, Van Zant disse: “A letra sobre o governador do Alabama foi mal entendida. O público em geral não percebeu as palavras ‘Boo! Boo! Boo!’, depois dessa linha em particular, e a mídia pegou apenas a referência do povo amando o governador.” “A linha ‘We all did what we could do’ é, de certa forma, ambígua”. Kooper avisa: “Nós tentamos colocar Wallace pra fora é como eu sempre interpretei a letra”. O jornalista Al Swenson argumenta que a canção é mais complexa do que geralmente pensam, sugerindo que simplesmente parece um apoio à Wallace. “Wallace e eu temos muito pouco em comum,” disse o próprio Van Zant, “Eu não gosto do que ele diz sobre as pessoas de cor.”

O trecho: "Montgomery’s got the answer". Para essa parte da música encontrei duas explicações e ambas levam a entender que o trecho é contra o racismo:

“Alguns dos membros originais da banda revelaram em uma entrevista de rádio há alguns anos atrás, que possivelmente faz referência à famosa marcha de Selma para Montgomery, Alabama, liderada pelo líder dos direitos civis Martin Luther King.”

“Essa é uma referência ao boicote aos ônibus da Montgomery, que levou a Suprema Corte a declarar as leis de segregação racial, em ônibus no Alabama, inconstitucionais.”

O verso "Well, I heard Mr. Young sing about her", pode-se ouvir ao fundo o que soa como a frase "Southern Man". Muitos acreditam que foi a gravação original de Young sendo tocada. No entanto, outros afirmam ser o produtor do álbum, Al Kooper, representando Young.

Além disso, o trecho "Now Watergate does not bother me", dependendo da interpretação, pode mostra a falta de preocupação com a corrupção, que teve no caso Watergate, um dos maiores escândalos de corrupção dos Estados Unidos.

Alguns fãs reivindicam a banda como anti-racista, apontando para a letra da canção "The Ballad of Curtis Loew", uma música que Van Zant escreveu professando seu amor por um homem negro que tocava blues.

“Old Curt was a black man with white curly hair
When he had a fifth of wine he did not have a care
He used to own an old dobro, used to play it across his knee
I'd give old Curt my money, he'd play all day for me
(chorus)
Play me a song Curtis Loew, Curtis Loew”

Neil Young e Lynyrd Skynyrd: Amigos ou Inimigos?

A canção foi inspirada pelas duas canções de Neil Young "Southern Man" e "Alabama". Mais especificamente, por "Southern Man":

“Better keep your head
Don't forget
what your good book said
Southern change
gonna come at last
Now your crosses
are burning fast
Southern man
I saw cotton
and I saw black
Tall white mansions
and little shacks.
Southern man
when will you
pay them back?
I heard screamin'
and bullwhips cracking
How long? How long?”

E “Alabama”:

“Oh Alabama
Banjos playing
through the broken glass
Windows down in Alabama.
See the old folks
tied in white ropes
Hear the banjo.
Don't it take you down home?”

No encarte do álbum "Decade", Young escreveu sobre a "Southern Man" de modo irônico:

"Esta canção poderia ter sido escrita em uma marcha pelos direitos civis após parando para assistir "Gone With The Wind" em um teatro local. Mas eu não estava lá então eu não sei ao certo."

Em um artigo na Glide Magazine, Ross Warner, diz o seguinte:

"Embora a música seja percebida como um hino do orgulho sulista, 'Sweet Home Alabama', foi realmente uma intenção, não apenas como lembrança da banda da sua primeira vez em um estúdio de gravação, mas como uma lembrança para o resto da América de que nem todos os sulistas foram rednecks. Quando o Skynyrd critica Neil Young por causa de 'Southern Man', foi por causa da generalização de que todos os sulistas são caipiras. Não condeno os sulistas pelo que seus antepassados fizeram. 'Pensamos que Neil estava fotografando os patos para matar um ou dois', disse Van Zant. 'Somos os rebeldes do sul, mas mais do que isso, sabemos a diferença entre certo e errado'. De fato, a banda foi bastante sincera sobre o seu desdém para as políticas de Wallace."

O mito da rixa foi reforçado com a canção "Ronnie and Neil" do álbum "Southern Rock Opera" do Drive-By Truckers:

“And out in California, a rock star from Canada writes a couple of great songs
about the bad shit that went down
"Southern Man" and "Alabama" certainly told some truth
But there were a lot of good folks down here and Neil Young wasn't around
Now Ronnie and Neil became good friends
their feud was just in song
Skynyrd was a bunch of Neil Young fans and Neil he loved that song
So He wrote "Powderfinger" for Skynyrd to record
But Ronnie ended up singing "Sweet Home Alabama" to the lord”

O guitarrista Patterson Hood explica:

"Eu escrevi essa canção para dizer da amizade mal compreendida entre Ronnie Van Zant e Neil Young, que foram amplamente acreditados para serem adversários ferrenhos, mas eram na verdade muito bons amigos e admiradores mútuos...”

Quanto à reação de Neil Young sobre tudo isso? A faixa "Walk On" “parece” ser bem clara:

“I hear some people been talkin' me down,
Bring up my name, pass it 'round.
They don't mention happy times
They do their thing, I'll do mine.”

Mas boa parte das pessoas acreditam que essa faixa foi uma resposta aos ex-companheiros de Young, Crosby, Stills e Nash.

Assim, foram Neil e Skynyrd realmente amigos ou inimigos? Se você olhar atentamente para a foto da capa do último álbum do Lynyrd Skynyrd "Street Survivors", você pode ver Ronnie Van Zant vestindo uma camiseta com a capa do “Tonight's the Night" de Neil Young.

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Bento Araújo, em um artigo sobre o assunto, publicado na revista Poeira Zine, diz que:

“Ronnie declarou que as letras de sua polêmica canção não passavam de uma piada. Elas simplesmente “apareceram” daquele jeito na sua cabeça e foram passadas para o papel. Van Zant deixou ainda bem claro: “Nós amamos Neil Young, realmente amamos sua música...””

“O que pouca gente sabe é que Neil Young chegou a oferecer uma de suas canções para o Lynyrd Skynyrd gravar, a pedido da própria banda. Numa entrevista na revista inglesa Mojo, Young explicou melhor: “Eles queriam gravar uma das minhas canções, então mandei para eles uma demo com a música Powderfinger! Por muito pouco eles não a lançaram antes da minha versão (que está no disco Rust Never Sleeps, lançado em 1979).” Young ainda confirmou que o Lynyrd gravou “Powderfinger”, mas nunca a lançou oficialmente...”

Além da canção "Powderfinger", Young, disse que também cedeu “Sedan Delivery” e "Captain Kennedy" para o Skynyrd gravar.

Em uma entrevista a MOJO Magazine, Young disse:

“Ah, eles realmente não me colocaram para baixo! Mas, novamente, talvez eles fizeram! (Risos) Mas não de uma maneira que importa. Merda, eu acho que 'Sweet Home Alabama' é uma grande canção. Eu realmente executei ela ao vivo algumas vezes a mim mesmo."

Mais uma vez Bento Araújo, em um artigo publicado na revista Poeira Zine, diz que:

“Depois do acidente aéreo, Neil Young fez um show em Miami (no dia 12/11/1977) que contou com a inclusão de sua música “Alabama” (ele raramente tocou essa música ao vivo). No refrão, ao invés de cantar Alabama, Neil emendava a frase “Sweet Home Alabama”, uma justa homenagem aos integrantes mortos no acidente. E as homenagens não pararam por aí; no filme do show Rust Never Sleeps, o baixista do Crazy Horse, Billy Talbot, aparece vestindo uma camiseta do Lynyrd Skynyrd, mais especificamente aquela baseada no rótulo da Jack Daniel’s. No vídeo Weld, é a vez de um fã de Young exibir uma tatuagem em homenagem ao Lynyrd Skynyrd. Tudo isso sem contar as vezes que Neil Young tocou “Sweet Home Alabama” em suas tours...”

Em uma entrevista no programa de rádio Rockline (23 de novembro, 1981), quando perguntado sobre "Swee Home Alabama" e Lynyrd Skynyrd, Neil Young disse: "Grande banda, Ronnie disse certa vez que eu vou ser maduro sobre o assunto de um jeito ou outro. Ele estava certo. "

Ainda dizem que Young estava presente no enterro de Van Zant, tendo até carregado o caixão do vocalista do Skynyrd. Como pode ser visto nesse trecho da faixa “Ronnie and Neil” do Drive-By Truckers:

"And Neil helped carry Ronnie in his casket to the ground
And to my way of thinking, us southern men need both of them around"

Este é outra “lenda urbana” do caso Neil Young/Lynyrd Skynyrd, que é desmascarado em um ensaio interessante do Tone and Groove. Quanto ao boato de que Ronnie Van Zant foi enterrado vestindo uma camisa de Neil Young, novamente, parece ser outro exemplo de um mito para propagar o fato. Ainda mais estranho, são os rumores de que alguns fãs do Skynyrd cavaram o túmulo de Ronnie para provar que Van Zant foi enterrado em uma camisa de Neil Young. Alguns dos fãs/coveiros dizem ter visto o corpo de Van zant com a camisa negra de Neil Young com a capa de "Tonight's the Night", porém os relatórios policiais indicam que o caixão nunca foi aberto. Independentemente da sua motivação para a profanação de um túmulo, os restos mortais de Van Zant e Gaines foram transferidos para um local não revelado. A transferência foi motivada por um arrombamento em 29 de junho de 2000 ás criptas de Van Zant e Gaines no Jacksonville Memory Gardens, em Orange Park, Florida, onde os fãs se reuniram para prestar homenagem à banda.

E os mitos e as lendas em torno do fato Neil Young/Lynyrd Skynyrd são novamente abordados pelo Drive-By Truckers na canção "Three Great Alabama Icons":

"Speaking of course of the Three Great Alabama Icons
George Wallace, Bear Bryant and Ronnie Van Zant
Now Ronnie Van Zant wasn't from Alabama, he was from Florida
He was a huge Neil Young fan.
But in the tradition of Merle Haggard writin' Okie from Muskogee
to tell his dad's point of view about the hippies in Vietnam,
Ronnie felt that the other side of the story should be told.
And Neil Young always claimed that Sweet Home Alabama was one of his favorite songs.
And legend has it that he was an honorary pall bearer at Ronnie's funeral -
such is the Duality of the Southern Thing.
One that certainly exists, but few saw beyond the rebel flag…
And this applies not only to their critics and detractors, but also from their fans and followers.
So for a while, when Neil Young would come to town, he’d get death-threats down in Alabama…”

Quanto aos perigos enfrentados Neil no sul a que aludem o Drive-By Truckers, Young fez declarações sobre não querer tocar no sul. Existem apenas duas datas a partir de 1973, onde Neil tocou no estado do Alabama. E enquanto suas excursões pelo sul têm sido limitadas, isso é uma provável decisão econômica, em vez de uma fuga deliberada.

Assim como o assassinato de John Lennon pôr fim a década de 1960 ou a morte de Kurt Cobain, marcou o fim da era grunge, a morte de Ronnie Van Zant, terminou um capítulo na história do Southern Rock.

A "falsa disputa" entre Neil Young e Ronnie Van Zant parece fornecer fascínio interminável para seus fãs. Sempre existirá a dúvida, se Neil Young e o Lynyrd Skynyrd eram inimigos ou amigos, Tanto os fãs do Skynyrd e Young terão que tirar suas próprias conclusões diante os fatos apresentados.

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Sobre Filipi Junio

Carioca, nascido em 1989, bacharelando em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem como paixão as bandas Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, The Avett Brothers, Iced Earth e Hardcore Superstar. Alguns hobbies são: acompanhar o time do coração, Vasco; viciado em Star Wars, Tribal Wars, livros, Tolkien, etc. Criador e administrador do Southern Rock Brasil, blog especializado em Southern Rock, Jam Bands, Folk Rock e Country. Twitter: @southernrockbr.

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