Existem muitas músicas que agradam a todos, mesmo que quase ninguém saiba quem as canta/toca, ou praticamente saiba nada sobre ela. Lembram da marcante música instrumental da abertura do filme “Pulp Fiction”? Pois é... Ela tem nome, origem e história.
“MISIRLOU” é uma canção popular grega. Seu primeiro registro efetivamente relacionado a um artista data do longínquo 1927, por Michalis Patrinos.
A letra trata da intensidade do amor de um grego por uma garota muçulmana egípcia. A tradução da música original é mais ou menos esta: “Minha MISIRLOU, a doçura de teus olhos acendeu uma chama no meu coração; Oh, meu amor, Oh, minha noite, teus lábios gotejam mel; Oh MISIRLOU, mágica, exótica beleza enlouquecido de amor, não suporto mais, vou roubar-te da terra árabe; Minha MISIRLOU de olhos negros, teu beijo mudou minha vida; Ah, amada, um pequeno beijo de teus lábios tão doces.”
Após a iniciativa de Michalis, a canção foi regravada em vários estilos, entre eles o jazz e o orquestrado, até chegar ao rock, no início dos anos 60.
A versão roqueira, que mais nos interessa particularmente, é uma criação instrumental de Dick Dale e de sua banda, The Def-Tones, gravada em 1962. Antes de ser selecionada por Quentin Tarantino para “Pulp Fiction”, a música já havia sido trilha sonora de um outro filme, o bem menos aclamado “A Swingin Affair" de 1963.
Dick Dale criou a surf music no final dos anos 50. Tocava por diversão para sua turma de surfistas, na Califórnia, mas em um ritmo muito intenso para a época. Obviamente, começou a chamar a atenção de outros públicos, recebendo o apelido de “The Beast”, pelo estilo potente e exótico.
“MISIRLOU” talvez seja a primeira música realmente relevante do surf rock, movimento que o próprio Dale iniciou ao agregar peso em seu próprio estilo, já no início dos anos 60.
A idéia da concepção da versão instrumental da música por Dale é bastante interessante. Reza a lenda que Dick foi intimado por um fã a tocar uma música em apenas uma corda de seu violão. Dale se lembrou de um tio seu, de origem libanesa, que tocava o instrumento para dança do ventre. Imediatamente a versão do parente para “MISIRLOU” veio à sua mente, e aí foi só transformá-la para o seu estilo mais “animal”.
Dick Dale começou a tocar guitarra aos 12 anos, é canhoto e toca com a guita invertida, sem virar as cordas. Coincidentemente ou não, o monstro Jimi Hendrix, que tocava nessa mesma linha, foi aluno de Dick. A influência de Dale sobre Hendrix é notória, sendo que a música “Third Stone from the Sun” foi composta por Jimi em homenagem ao seu professor.
Dale sabe tocar 15 instrumentos musicais, entre eles bateria, harpa, piano e sax, além, é claro, de sua guitarra Fender. Aliás, sobre seu instrumento preferido surge mais uma daquelas deliciosas histórias do rock.
Ao conhecer e se impressionar com o jovem guitarrista, no final dos anos 50, o fabricante de guitarras Leo Fender pediu que Dick experimentasse uma de suas novas peças, a Stratocaster, e um amplificador também desenvolvido pela Fender.
Dale aceitou. Em um show, virou a guitarra de ponta cabeça e tirou daquele instrumento um som altíssimo, jamais escutado, explodindo os amplificadores que lhe davam suporte. Foram 49 amplificadores e dezenas de alto-falantes estourados na seqüência de suas apresentações, até que os engenheiros de som da Fender conseguiram produzir algo capaz de suportar a pegada de Dick. Esses modelos de amplificadores e falantes “reforçados” são os pais daquilo que o mundo musical conhece e consome hoje.
Dale também mudou a “engenharia” das guitarras. Valorizando a potência de seu som, Dick passou a exigir cada vez mais da Fender. Dale ia aumentando a tensão das cordas e a indústria precisou reforçar o braço do instrumento para que o mesmo pudesse suportar a pegada do “King of the Surf Guitar”.
O maior sucesso de Dick Dale é sua versão de “MISIRLOU”, indiscutivelmente. Poucas vezes uma música encaixou tão bem em um contexto quanto ela em “Pulp Fiction”, e em menos oportunidades ainda expressou tão bem o estilo de um músico: intensa, impactante, pesada, rápida, alternativa.
O cara e a música são fantásticos mesmo. Para quem não os conhecia pessoalmente, muito prazer...
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