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Kernunna: Primoroso, é ouvir para crer!

Resenha - Seim Anew - Kernunna

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Por Durr Campos
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

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Antes de mais nada, um pouco da história e conceito envolvendo o Kernunna. A banda nasceu quando o já conhecido multi-instrumentista Bruno Maia deu um tempo nas atividades do Tuatha de Danann e Braia, ali por volta de dezembro de 2010. Contando com três vocalistas principais, isto é, Marco Diniz (Neverknow), Khadhu (Cartoon) e o próprio Bruno, o Kernunna possui uma abrangência musical bastante atípica ao dialogar com a música celta, indiana, rock progressivo e, lógico, heavy metal. Após fecharem o line-up, que ainda traz Alex Navar, Edgard Britto e Rodrigo Abreu, eis que surge “The Seim Anew”, debut produzido por Bruno, co-produzido por Marco, mixado e masterizado por Thiago Bianchi (Shaman/ Karma).
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Então, quem já acompanha a jornada de Bruno Maia sabe que o cidadão não brinca em serviço e costuma ser um expert nos temas que aborda. Desta feita, parte de “The Seim Anew” é inspirado na obra do autor irlandês James Joyce, a exemplo das referências a Finnegans Wake (nota do redator: em português, Finnicius Revém), último romance de Joyce, publicado em 1939, tendo sido um dos grandes marcos da literatura experimental por ser escrito em uma linguagem composta pela fusão de palavras em inglês e outros idiomas, buscando uma multiplicidade de significados. Sua tradução para qualquer língua é complicadíssima, e qualquer tentativa é um ato de ousadia desde a primeira palavra do romance. Ou seja, a cara de Bruno. Mas as alusões não param por aí, o mítico romancista, poeta e matemático britânico Lewis Carroll (criador de Alice no País das Maravilhas) também se faz presente, bem como duas figuras do folclore brasileiro: o Curupira, entidade defensora das matas e dos animais, e Sete Orelhas, mais conhecido como “O Vingador Mineiro”. Já perceberam que “apenas” ouvir as canções não se mostra suficiente; as letras são tão essenciais quanto o instrumental em “The Seim Anew”.

“Uma nova forma de expressão musical que é calcada no que eu já fazia antes, porém com a experiência adquirida e o teor da novidade e a vontade do eterno criar.” Tomando como base o comentário de Bruno em justificativa ao nascimento de Kernunna, coloquei para tocar a faixa que batiza a banda. Em uma deliciosa aura de Rush, esta o convida a não atrever-se a interromper a audição. As linhas de baixo e sintetizadores são um show a parte. Há uma pegada acessível nela extremamente cativante. Mas não pense que falta peso, é riff após riff, bateria certeira e linhas vocais irretocáveis. “Curupira’s Maze” inicia mais discreta, porém descamba a uma levada veloz no melhor estilo dos britânicos do Glencoe – aliás, senti algo deles em toda a bolachinha, em especial da fase do “The Spirit of...” (1973) – e, por que não, do Skyclad. Veja, utilizo alguns nomes apenas para situar o leitor, mas há bem mais aqui. Prova disso está na canção que dá nome ao álbum. A ‘vibe’ indiana nos remete de fato ao país, mas traz algo de The Beatles e Wings, em especial pelas vocalizações a la Paul McCartney, um primor. A criatividade na composição é sem precedentes ficando complicado não cantar junto já na segunda ouvida. Os coros nesta e em diversas outras possui aquele jeitão dos cariocas da MPB4 e de seus conterrâneos do Clube da Esquina, movimento musical mineiro formado na década de 1960 que, dentre outros, contou com Tavinho Moura, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Toninho Horta, Flávio Venturini e os integrantes do 14 Bis.

Assim como a anterior, “Snark” já tornou-se um xodó para este que vos escreve. A levada AOR do início me pegou de surpresa, as linhas vocais me lembraram um pouco “Silent Lucidity”, clássico do Queensryche, mas na prática a canção é muito mais Rush da fase oitentista e Uriah Heep, em especial pelos timbres de baixo e guitarra. O bom gosto nos arranjos de voz do Khadhu é de uma beleza rara. Fiquei com aquele trecho “Even my language doesn’t shape what my head flashes and creates/ How can I conceive such a world within this storm?” na cabeça por dias. Seu compasso em sete e toda a atmosfera típica do rock progressivo, faz com que esta destaque-se das demais, até porque é a única em que não há um instrumento folk sequer. “Dreamer” é outro dos highlights em “The Seim Anew”. Dona de uma letra caprichada, crédito do Edgard, possui uma passagem no meio com gaita de fole e violino criada por Bruno que não poderia ter sido melhor. Marco Diniz faz a voz principal nesta, mas há também os belos vocais de Clayton Prosperi, grande amigo dos caras. Em meio a cravos, pianos e, novamente, sintetizadores, eu arriscaria dizer que o YES foi também material de estudo para a confecção de tamanha grandeza.

E se não tivesse sido nela seria em “Póg Mo Thóin”, porque os coros iniciais poderiam figurar tranquilamente em “90125” (1983), aclamado disco dos britânicos e estreia do genial Trevor Rabin na banda. A influência chutada por mim para por aqui, pois o clima celta/folk retorna com tudo. Não é de estranharmos, a dita cuja faria parte do próximo disco do Tuatha de Danann, daí a banda a apelidar de canção ‘Kernunnana’. As melodias felizes regadas a muito banjo, fiddles, flautas e um refrão mais grudento que visgo de jaca dão a ela uma levada mais direta e pacata. As letras versam sobre pessoas que tentam te derrubar criando fofocas e puxando seu tapete. Em tempo, “Póg mo Thóin” seria algo como ‘kiss my ass’ (nota do redator: ‘Vá se ferrar’, em tradução livre do inglês). Outra que não nega sua referência ao YES, em especial pelo Khadhu encarnando o Jon Anderson nos vocais, “The Last of the Seven Ears” também estaria no próximo trabalho de estúdio do Tuatha e versa sobre a lenda mineira de Januário Garcia, conhecido como o Sete Orelhas, o qual teve seu irmão morto por sete irmãos de uma outra família, que o amarraram numa árvore e tiraram sua pele enquanto ainda vivia. Januário jurou vingar o irmão pelas próprias mãos, foi ao encalço dos assassinos e de cada um que encontrava e dava fim, cortava uma orelha e punha num colar. A banda ainda cita os musicais da Broadway como base para a segunda parte da música. O Queen também me veio a mente.

As duas derradeiras, isto é, “The Keys to. Given!” e a longa “Ricorso”, não só mantém a qualidade de todo o disco, como ainda adicionaram mais coisas. A primeira citada possui um solo sensacional de teclado, bastante strings, Hammond e Moog. Aquela pegada meio space rock também trouxe muito à composição, em especial por conectar partes acústicas a outras bem mais pesadas em uma harmonia ímpar. Os violinos, gaitas de fole e baixo também não podem ser ignorados. Em seus quase dez minutos, “Ricorso”, possui uma estrutura que, talvez, condense todo o álbum. Aliás, vai além por conta de trazer algo de death metal, novamente The Beatles, Electric Light Orchestra e Supertramp. Os vocais à capella chocam de tão bem arranjados, fico a imaginar o momento no estúdio. De fato é muita loucura junta em uma só canção, mas o esmero faz com que tudo funcione. Enfim pessoal, com o Kernunna é escutar para crer. Primoroso!

The Seim Anew - Kernunna
Independente – 2013 - Brasil

Track-listing
1 – Kernunna [5:23]
2 – Curupira’s Maze [4:05]
3 – The Seim Anew [5:39]
4 – Snark [4:08]
5 – Dreamer [4:55]
6 – Póg Mo Thóin [4:12]
7 – The Last of the Seven Ears [5:26]
8 – The Keys to. Given! [5:03]
9 – Ricorso [9:43]

Line-up:
Alex Navar – vocais, gaita de fole irlandesa
Bruno Maia – vocais, violão, bandolim, boouzouki, banjo, guitarra havaiana, guitarra elétrica, flauta transversal, as flautas irlandesas tin, low whistles, piano, etc.
Marco Diniz – guitarras, vocais
Edgard Britto - teclados
Khadhu – baixo, gaita, violão, esraj (ou harpa indiana), cítara, etc.
Rodrigo Abreu – bateria, percussão

Sites relacionados:
http://www.kernunna.net
http://www.facebook.com/Kernunna

Convidados especiais:
Rodrigo Berne – solo em RICORSO
Sandro Nogueira – solo em RICORSO
Clayton Prósperi – voz, piano e cravo em DREAMER
Michel Leme - solo em THE KEYS TO. GIVEN!
Raphael Castor – teclados em SNARK
Daiana Mazza – violino

Sites relacionados:
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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Alemanha, país onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar um Scum do Napalm Death, seguido de Substance do New Order ou Black Celebration do Depeche Mode, daí viajar no tempo com Stormbringer do Deep Purple, se acabar ao som do Bounded By Blood do Exodus e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo. Simples assim.

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