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Cangaço: equilibrando maturidade e inovação em estreia

Resenha - Cangaço - Rastros

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Por Thiago Pimentel, Fonte: Hangover Music
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

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Rastros. Com esta palavra, os pernambucanos do Cangaço batizaram seu vindouro álbum de estreia. Estreia esta que traz consigo um grande lote de expectativas: afinal, o grupo conseguiria mostrar evolução – se comparado com as demos e o EP "Positivo" (2011) – e, também, coesão em sua ousada proposta?
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Ao iniciar o disco, a breve introdução instrumental "Atrito" desenvolve-se em sua atmosfera 'hermeto-pascoaliana' – principalmente pela inserção de flautas feitas pelo músico convidado Rico Albino – com melodias e abordagem rítmica tipicamente nordestinas. De forma ininterrupta, a calmaria é logo interrompida pela agressividade de "Cantar às Excelências das Armas Brancas".

Aqui destacam-se, sem dúvidas, o excelente duo de vocais realizados entre Magno Lima (baixo/vocal) e Rafael Cadena (guitarra/vocal). O poema do cangaceiro Pedro da Santa Fé é vociferado sob uma instrumentação tipicamente death metal – se não fosse, obviamente, a identidade nordestina que, desde a sua fundação, ronda a existência do Cangaço. O final da composição, realizado em uníssono pelos vocalistas, denuncia um bom potencial desta faixa para performances ao vivo. Além disso, a produção já mostra que pequenas nuanças (abundantes no som técnico da banda) possam ser mais apreciadas que nos registros anteriores.

Disponibilizada há alguns meses, "Arcabuzado" eleva o nível técnico do disco com suas boas variações e riffs bem desenvolvidos. Liricamente, a faixa traz trechos da clássica obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, 'O Auto do Frade'. Neste ponto, torna-se perceptível como o grupo levara a sério a rara missão de utilizar o português em seu heavy metal. Um diferencial? Na minha opinião, sim. Especialmente pelo fato de encaixar-se bem no instrumental típico dos caras.

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Logo em seguida, temos uma das faixas que mais me surpreendera neste trabalho: "Bombardeio no Ceará". Depois de uma introdução acústica, exótica e envolvedora, um dos melhores riffs do álbum surge e a canção desenvolve-se em um tempo mais acelerado. Não há muito o que comentar-se: basta ouvir. Mas, devo salientar, a incrível e explosiva sessão na metade final que, praticamente, evoca o black metal do Immortal (!). Além disso, o belo trabalho de bateria do músico André Lira se sobressai – a propósito, logo após a gravação de "Rastros", Lira deixou o grupo. Atualmente a banda, conta com o baterista Mek Natividade nesta função.

Na quinta composição ("Encarnação"), o metal extremo – em uma forma mais tradicional, digamos – ganha em evidência para, logo em seguida, ceder espaço para a envolvente, e totalmente instrumental, "Mental". Atingido a casa dos seis minutos de duração, desdobra-se em inúmeras sessões (acústicas e distorcidas) cujas ideias evidenciam o lado progressivo e, nas devidas proporções, jazzístico do Cangaço. Aqui o timbre estalado do baixo de Magno Lima – sempre com linhas criativas, vivas – mostra uma ótima relação com a guitarra de Cadena. Um detalhe curioso: apesar das músicas serem técnicas, não há "virtuosismo-por-virtuosismo".

A segunda metade de "Rastros" é dedicada as regravações. Regravações de faixas presentes nas primeiras demos e que, divergindo das outras músicas, tiveram suas letras escritas em inglês. Na ordem do disco, são elas: "Statu Variabilis", "Corpus Alienum" e, a composição mais velha deste álbum, "Devices of Astral". Curiosamente, estas são as três canções antigas que mais possuíam o toque da música nordestina incluso e que, também, mais conquistaram ouvintes.

Além da melhor produção, posso citar os novos arranjos e abordagens. Por exemplo, há até mesmo a inclusão de um pandeiro (!) na introdução da pesadíssima "Corpus Alienum" e que, dentro do contexto, funciona muito bem. Saliento que "Devices of Astral" foi extremamente beneficiada com essa regravação. No geral, suas inúmeras sessões instrumentais – como sua introdução, o refrão pegajoso e o curto, porém marcante, solo fuzzy – soam muito superiores a performance da primeira demo do Cangaço.

Debute do grupo recifense, "Rastros" não desaponta e, até mesmo, excede as expectativas. Algumas pessoas torcerão o nariz antes mesmo de ouvi-lo? Com certeza. Outras nem levarão com seriedade a proposta da banda? Claro. Mas, felizmente, o som do Cangaço tem culhões suficiente para, inclusive, abrir a mente dos ouvintes mais tradicionais da música pesada e, também, chamar atenção de pessoas não ligadas ao metal. Dois feitos homéricos, diga-se de passagem.

De forma paralela a música, toda a arte do disco chamou-me atenção. Em conjunto com o aspecto sonoro, tem-se um conceito muito interessante.

Apesar de ser um trabalho coeso e bem executado, o álbum mostra que ainda há limites – sejam eles artísticos ou técnicos – que, futuramente, ainda podem ser mais aprimorados e amadurecidos pelos músicos; afinal, a evolução deste registro para o que o foi feito anteriormente já é notória. Esperemos. Por enquanto, posso afirmar categoricamente e, felizmente, dentro do contexto: - que disco arretado.

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Músicas-chave:
"Bombardeio no Ceará" ; "Cantar às Excelências das Armas Brancas"; "Arcabuzado"

Formação:
Magno Lima – vocais, baixo, zabumba, pandeiro
Rafael Cadena – vocais, guitarra e violões
André Lira – bateria
Ivo Laje – percussão

Tracklist:

01. Atrito
02. Cantar às Excelências das Armas Brancas
03. Arcabuzado
04. Bombardeio no Ceará
05. Encarnação
06. Mental
07. Statu Variabilis
08. Corpus Alienum
09. Devices of Astral

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Sobre Thiago Pimentel

Tenta, desde meados de 2010, escrever textos que abordem as vertentes da mais peculiar - em seu ponto de vista - manifestação artística do ser humano, a música. Para tal, criou o blog Hangover-Music e contribui no Whiplash.Net. Além disso, é estudante de jornalismo, guitarrista e acredita que se algum dia o Deus metal existira, ele morreu em 13/12/2001.

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