O ano é 1974. O local, a emissora WMMS-FM em Cleveland nos Estados Unidos.
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Nesse ínterim, o até então baterista do grupo, John Rustley, por motivos pessoais, decidiu deixar o RUSH, fazendo com que seus dois agora ex-companheiros, Geddy Lee (vocal/baixo/teclados) e Alex Lifeson (guitarra), tivessem que correr para achar um novo integrante às vésperas de uma eminente tour Norte Americana.
Trinta e oito anos, muitos shows e dezoito álbuns de inéditas depois, eu diria que a concepção lírica de Clockwork Angels não pode ser resumida apenas aos cinco anos que separam este de seu antecessor, Snakes and Arrows. O álbum 'nasceu' no dia 29 de Julho de 1974, data que, além de aniversário de Geddy, marca a escolha do jovem Neil Peart como o novo detentor das baquetas do RUSH.
"Chances são aqueles momentos que acontecem apenas uma vez, mas são suficientes" - Neil Peart
Na biografia oficial de Clockwork Angels (publicada no site da Roadrunner Records), Peart conta que teve com seus companheiros uma "conversa ambiciosa" sobre criar uma música "que fosse mais prolongada", um conjunto de canções que contasse uma história ficcional sobre "um dos muitos mundos possíveis".
Leitor assíduo e um grande estudante de tudo, o baterista buscou influências em "uma vida inteira de leituras destiladas de dezenas de cenas, e algumas centenas de palavras", para elaborar o enredo deste novo trabalho. Amalgamou em sua "imaginação febril" elementos de steampunk e alquimia, para nos contar a jornada de um jovem em busca dos seus sonhos, através de um universo extravagante de ordem e caos.
"A história apresenta cidades perdidas, piratas, anarquistas, um desfile exótico e um rígido Relojoeiro, que impõe precisão sobre cada aspecto de sua vida cotidiana" - site oficial da banda
Depois de muita conversa a respeito da concepção do álbum - o primeiro integralmente conceitual na carreira do RUSH -, a banda decidiu que as idéias apresentadas não seriam utilizadas de maneira literal, mas sim, 'pinceladas' ao longo das composições. Com lacunas propositais, a obra ganhou um sentido subjetivo tanto em sua forma quanto significado, com os detalhes da narrativa não exercendo uma possível 'influência negativa' sobre o peso individual de cada canção.
"[…]todos nossos discos são temáticos e espontaneamente interligados; às vezes de uma forma mais ampla e às vezes de uma forma mais estreita"
- Alex Lifeson
"Não podendo deixar de pensar grande", Peart foi além de simplesmente contar uma história, criando de forma metafórica algo substancioso por detrás da cortina ficcional contida no registro. Fazendo uso dos valores simbólicos da alquimia, retratou ao longo das canções, para cada qual designou um símbolo alquímico diferente, as reais intenções dessa antiga 'ciência mística'. Conforme embarcamos na "intrépida jornada" narrada através dos capítulos de Clockwork Angels, nos deparamos com um conjunto de processos transformadores que invariavelmente nos auxiliam ao longo de toda uma vida na busca por sabedoria e compreensão - sobre o que somos e o que nos cerca -, transmutando nossa mente 'comum' em algo 'superior'.
"Mais tarde eu tentaria unir os restos de forma que ainda expressassem o que eu queria no começo – e essa parte não foi fácil. Eu tinha uma história complicada para contar, assim como personagens e idéias, entre outras coisas" - Neil Peart
O resultado final é algo belíssimo e de extremo valor lírico e literário - fato que rendeu uma novelização do material pelas mãos do escritor, e amigo pessoal de Peart, Kevin J. Anderson. Neste ponto destaca-se a genialidade do compositor, que, além de ser um dos bateristas vivos mais influentes do cenário musical, é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores letristas do Rock.
"Nos últimos anos eu poderia ter passado vários dias a desenvolver e aperfeiçoar um trecho de bateria, mas dessa vez foi apenas uma questão de horas, "do zero a herói". Gosto de imaginar um ouvinte podendo sentir essa diferença – compartilhando a tensão e realização de um cara indo pra longe dali, tocando alguma coisa que ele nunca tentou antes, e apenas fazendo se tornar 'uma' - Neil Peart
E musicalmente? O que dizer que já não tenha sido dito, a respeito de uma banda que, de uma forma ou de outra, já usou quase tudo em sua sonoridade através dos tempos?
O trio está a todo vapor, numa espécie de apogeu artísstico/criativo, chegando a impressionar tamanho o vigor, segurança e liberdade de improvisação impressas no registro - no que pode ser considerado o melhor álbum da segunda fase dos caras, desde o retorno em 2002 com Vapor Trails. Talvez seja por isso que o selo RUSH de qualidade carrega um alto nível de grandeza e expectativa. E, como não poderia ser diferente, eles não decepcionam nesse quesito.
Da sutileza de momentos acústicos ou orquestrações, à crueza da guitarra elétrica e do baixo sempre presente, com um acento aqui, outro acolá de momentos complexos (marca registrada da banda), tudo aqui parece estar no seu devido lugar. Cristalino, genial. Funcionando precisamente, como as engrenagens de um relógio. Porém, soando fluído. Natural. Nunca mecanicamente rígido.
"Hoje sentimos uma confiança bem descontraída em nossa música e composições e também em nossa forma de tocar. Nós absolutamente nos respeitamos e confiamos uns nos outros, mais do que nunca" - Alex Lifeson
"Não há um indivíduo mais importante que o conjunto. Aprendemos ao longo de quarenta anos que essa é a chave do nosso sucesso e nossa integridade"
- Alex Lifeson
Clockwork Angels é uma obra de entrelinhas fortes, para ser lida atentamente. Cada audição nos transporta à seguinte, que se mostra melhor e mais impactante que a anterior na medida em que vamos acessando as várias camadas presentes na temática.
O RUSH encontra-se na "plenitude de sua vida". Com um jardim florido de muitas conquistas e um poderoso legado construído.
Só posso desejar que esses malucos, magos, cientistas, alquimistas, aventureiros …artistas, continuem "desejando fazer tudo isso novamente". Muitas e muitas vezes mais.
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