Stephen Percy Harris é um idealista. Fiel ao que acredita, fundou o Iron Maiden em 1975 e conduziu a banda com mão de ferro até o topo do heavy metal, influenciando profundamente o gênero e tornando-se referência para qualquer grupo que queira se aventurar pelo estilo. Atravessou a turbulenta segunda metade da década de 1970 (quando o punk rock era a ordem do dia na Inglaterra), manteve o leme firme quando praticamente todas as principais bandas pesadas alteraram a sua música para agradar o público norte-americano no final dos anos 1980, sobreviveu ao período com Blaze Bayley no posto de Bruce Dickinson (quando o Maiden viu a sua popularidade desabar e trocou os shows em grandes estádios por casas muito mais modestas) e aceitou de volta o falante e hiperativo vocalista colocando a banda em primeiro plano, deixando de lado as várias questões pessoais que envolvem a sua eternamente turbulenta relação com Dickinson. E tudo isso sem cortar nenhum centímetro de sua longa cabeleira, mesmo quando cabelos curtos passaram a ser a ordem do dia no heavy metal :-)
Nota: 7 






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Steve cercou-se de músicos desconhecidos - o vocalista Richard Taylor, os guitarristas Graham Leslie e David Hawkins (esse também responsável pelo teclado) e o baterista Simon Dawson - e gravou um disco que não soa nada parecido com o Iron Maiden. Não há aqui nada que remeta à banda principal de Harris, e esse é o primeiro ponto que pode causar estranhamento em quem estava esperando, de maneira equivocada, um som na linha do que o Maiden fazia, por exemplo, na década de 1980. O negócio aqui é outro. Trata-se de um álbum de hard rock, com algumas passagens mais pesadas que podem ser classificadas como heavy metal. A influência é a escola setentista do hard, com canções baseadas em riffs - algo que, infelizmente, o Iron Maiden não vem mais fazendo nos últimos anos - e reminiscências de ícones do período e favoritos confessos do baixista como Wishbone Ash, Thin Lizzy, Rainbow, UFO, Scorpions e Judas Priest.
De maneira consciente, Steve escolheu um vocalista que possui um timbre totalmente diferente de Bruce Dickinson. A voz de Richard Taylor é aguda e remete a Glenn Hughes e ao jovem Klaus Meine. Segundo tombo para quem esperava ouvir algo semelhante ao Iron Maiden. Há uma enorme quantidade de melodia nas composições, com ótimas passagens de guitarras gêmeas e grandes refrões por todo o álbum. Faixas como "Eyes of the Young", por exemplo, tem potencial para fazerem bonito como single se bem trabalhadas.
As dez faixas de "British Lion" transparecem um frescor que não é encontrado nos discos recentes do Maiden. Esse é um ponto extremamente positivo e digno de elogios, pois demonstra o tesão de Harris, que do topo do mundo ainda mostra uma vitalidade juvenil para desvendar novos caminhos.
O início do álbum aponta para um lado mais experimental, com Steve trilhando caminhos até então inéditos em sua carreira. "This is My God" é um hard pesadão na linha do Alice in Chains, enquanto "Lost Worlds" vai pelo lado mais moderno do gênero. A coisa esquenta com "Karma Killer", construída a partir de um riff turbinado de wah-wah e com o baixo bem na cara. Aliás, esse é outro fator que chama a atenção em "British Lion". Se você acha o volume do baixo alto nos discos do Iron Maiden, prepare-se para conhecer outra padrão no disco solo de Harris. O baixo conduz todas as canções, e em vários momentos está mais alto até que o vocal. Isso, somado ao fato de o timbre de voz de Richard Taylor não ser dos mais potentes, incomoda um pouco.
Há grandes momentos e ótimos acertos em "British Lion". "Us Against the World" conta com guitarras gêmeas que, em um piscar de olhos, nos levam diretamente a "Somewhere in Time", disco lançado em 1986 pelo Iron Maiden. Essa é a música mais próximo do universo do Maiden em todo o trabalho, e é impossível ouvi-la e não imaginar a canção com a voz de Bruce Dickinson. Pra falar a verdade, parece uma faixa perdida saída diretamente daquela época. No outro extremo, "The Chosen Ones" é Steve mostrando que sabe compor um hard grudento e empolgante, que não faria feio no repertório de bandas como o Bon Jovi, por exemplo.
Mas o grande momento de "British Lion", ao meu ver, se dá com a estupenda "A World Without Heaven", que ao longo de seus mais de sete minutos derrama generosas doses de melodia e inspiração. As linhas vocais são agradáveis, e as longas passagens instrumentais levam ao paraíso. Uma canção ensolarada, com um refrão muito bom. O nível segue alto com o hard cheio de classe de "Judas", enquanto "These Are the Hands" é praticamente um pop rock temperado com um pouco mais pesado.
De maneira geral, "British Lion" é um bom disco. Tudo é focado no prazer em produzir música, em fazer um som. É bem diferente do Iron Maiden, e é justamente esse contraste que irá fazer com que os fanáticos seguidores da banda provavelmente não curtam muito o álbum. Steve Harris leva ao pé da letra a ideia de um disco solo e mostra uma faceta totalmente diferente e até então inédita de sua musicalidade, indo por um caminho novo e que não seria possível explorar em sua banda principal. Essa postura, essa coragem de se expor, é digna de elogios a um músico como Harris, idolatrado em todo o mundo e no qual sempre são despejadas grandes expectativas.
E aí está o único ponto negativo de "British Lion". Por tratar-se de um disco solo justamente de Steve Harris, a expectativa da maioria das pessoas era, mesmo de forma inconsciente, que surgisse um trabalho revolucionário e, no mínimo excelente. British Lion não é esse disco. Trata-se de um trabalho totalmente despretencioso, despido da grandiosidade do Iron Maiden e com uma pegada mais intimista e saudosista. Essas características certamente desapontarão quem estava esperando um álbum excepcional e que mudasse o rumo das coisas.
A voz de Richard Taylor é outro ponto que merece discussão. Entendo a escolha de Steve por um cantor bem diferente de Bruce Dickinson, mas a pegada de certas composições parece não combinar com o timbre de Taylor, pedindo um vocal mais rasgado e grave. É o caso de "Karma Killer", por exemplo. O trabalho de composição é muito bom, mas a voz de Taylor puxa algumas faixas para baixo. De maneira geral, tem-se a impressão de que, com um vocalista mais potente, o resultado final seria muito melhor e mais forte.
Mesmo assim, "British Lion" é um bom disco, com músicas interessantes e que, em sua maioria, agradam o ouvinte. Steve Harris mostra que tem várias cartas na manga no seu vasto vocabulário como compositor, e a banda revela-se inegavelmente competente.
Não é o Iron Maiden, até mesmo porque só existe um Iron Maiden e não faria sentido copiar a banda, soando como um clone. Mas é justamente a diferença em relação à banda principal de Harris que torna "British Lion" legal e faz a audição valer a pena.
Nota: 7
Faixas:
This is My God
Lost Worlds
Karma Killer
Us Against the World
The Chosen Ones
A World Without Heaven
Judas
Eyes of the Young
These Are the Hands
The Lesson
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Ricardo Seelig é editor do blog Collectors Room - www.collectorsroom.blogspot.com - e colaborador das revistas poeira Zine e Rolling Stone. Escreve para o Whiplash desde 2005.
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