Nota: 9 








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“Escolha bem o whisky. Separe o gelo. O copo certo. A poltrona mais confortável. Separe o cotonete. Prepare o terreno.
Você vai ouvir solos de guitarra na medida certa. Daqueles em que as notas fora escolhidas a dedo. Do tipo que você não imagina outra coisa para acrescentar. Agora, multiplique isso para cozinha, riffs e vocais. É mais ou menos nessa língua que La Futura é escrito.
Que o futuro seja assim quando eu reencarnar. Cru, direto, com personalidade e com muito blues de matéria-prima. Às vezes misturado com groove, às vezes com hard, às vezes com ele mesmo. La Futura é mais do mesmo. E que bom que seja assim.
“I Gotsta Get Paid” já vale o disco, e é só a abertura. “Chartreuse” é riff que qualquer bandinha moderna mataria para ter criado. “Over You” é uma pérola, e o timbre do solo é ostra que molda. A dor da letra é o grão de areia que torna tudo belo, mesmo com uma voz de auto falante rasgado.
“Heartache in Blue” tem aquelas gaitas de boca que dá vontade de fazer aula só pra tirar. “I Don’t Wanna Lose, Lose, You” é ZZ, é Top, e é pop. Ofereça ela pra qualquer garota que te fez sofrer e encha mais um copo.
“Flyin’ High” parece saída dos irmãos Young, mas a voltage e o carimbo são ZZ. “It’s Too Easy Mañana” é climão de pegada no chão, com vocal dobrado e embebido. A melhor do disco.
Cuidado pra não derrubar o resto de bebida da garrafa quando “Big Shiny Nine” começar. Se você estiver com a chave do carro no bolso, vai pegar a estrada. Batera impecável. Mais um solo perfeito.
A paulada que encerra o disco, “Have a Little Mercy”, não poderia ter outro nome. Aumente o som o quanto puder e seque a garrafa sem misericórdia. O que os ouvidos sentem o fígado não vê. Solo pirofágico.
Se o futuro for assim mesmo, você não precisa de máquina do tempo. Pode voltar pra lá a todo momento. Cada vez que ouvir La Futura.
Prepare o fígado. Esse disco é para iniciados.”
Não há muito o que comentar depois disso. "La Futura", décimo-quinto disco do barbudo trio texano, é uma paulada bem dada na orelha. Os nove anos de que separam o álbum do anterior, "Mescalero" (2003), são compensados com sobra nas dez composições. O título é mais do que apropriado, pois traz um ZZ Top atual que soube entender o que fez de melhor em seu passado, reprocessou os inúmeros acertos e jogou fora os excessos - como as batidas eletrônicas e os teclados em demasia - e emergiu com uma sonoridade renovada, que olha para frente mas não abre mão de suas raízes.
A produção de Rick Rubin e do próprio Billy Gibbons deixou tudo com um timbre sujo e áspero, onde é possível quase sentir o cheiro de bar, a cerveja gelada na mão e a densa fumaça de uma noitada inesquecível.
Não há o que destacar. As sensações já foram descritas no texto inicial. O ZZ Top atendeu à todas as expectativas com um disco excelente, cheio de feeling e com aquela malandragem que só a experiência é capaz de trazer. Cada fio das longas barbas de Billy Gibbons e Dusty Hill e do bigode de Frank Beard foram honrados com um álbum que mostra que o ZZ Top ainda tem uma longa estrada pela frente.
O rock não é feito de caras certinhos, cabelos cortados e roupas alinhadas. O rock é sujo, beberrão e suado. É sexo, tesão e suingue. É bebida em excesso, cigarros aos montes e mulheres pelos cantos. O rock é malvado, alto e barulhento. Ele não é querido, bem feitinho e todo redondo. Riffs de guitarra bons são aqueles pontiagudos. Os vocais devem ser roucos, com as cordas vocais repousando em banho maria em tonéis de whisky e nuvens de fumaça. O baixo é o coração, e ele deve pulsar não conforme manda a cabeça de cima, mas sim como indica a cabeça de baixo. E a bateria não é um instrumento cirúrgico e muito menos uma peça de circo. Ela é o ritmo puro e simples, sem viradas mirabolantes ou maneirismos desnecessários. E tudo isso é "La Futura", é o ZZ Top, é um dos melhores discos do ano.
Sem mais, deixa eu aumentar o volume e calibrar meu copo.
Faixas:
I Gotsta Get Paid
Chartreuse
Consumption
Over You
Heartache in Blue
I Don’t Wanna Lose, Lose, You
Flyin’ High
It’s Too Easy Mañana
Big Shiny Nine
Have a Little Mercy
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Ricardo Seelig é editor do blog Collectors Room - www.collectorsroom.blogspot.com - e colaborador das revistas poeira Zine e Rolling Stone. Escreve para o Whiplash desde 2005.
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