Cramps: Revolucionário e longe do politicamente correto

Resenha - Songs The Lord Taught Us - Cramps

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Por Paulo Severo da Costa
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O universo da cultura, da metade do século passado até os dias atuais, produziu um fenômeno de multidiversidade sem precedentes nos anos pós- Iluminismo: novas formas de abordagem romperam com paradigmas de massificação e, ainda que a mídia tenha produzido monstros efêmeros em embalagens de toda espécie, um certo gene humano ainda desconhecido insistiu em procurar por novidades e novas formas de se encarar a mortificação gradual e incessante do cotidiano.
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Uma dessas epifanias trouxe ao mundo o chamado "Universo B"- filmes de segmentos marginais, música distante dos formatos habituais e revistas de circulação clandestina deram a luz a cineastas como ROGER CORMAN e ED WOOD, revistas como TALES FROM THE CRYPT, e movimentos como blaxpoitation, sexploitation e o punk rock. A dicotomia desvelada assumia a existência de um olhar degenerado sobre o status quo, e gente problemática como QUENTIN TARANTINO e TIM BURTON deram as caras em meio a esse rebojo freak e alucinadíssimo.

Em 1976 , um casal digno de uma película de ROGER CORMAN, criou uma aberração em forma de banda que atendia pelo nome de THE CRAMPS. Fetichismo, filmes de terror da década de 30, psicopatia e EDDIE COCHRAN foram postos em um mix sonoro neurastênico e inovador até mesmo para a década que depositou o punk rock na cara do resquício conservadorista do mundo pós revolução sexual. Revolucionário e, longe do politicamente correto, o grupo liderado por LUX INTERIOR e POISON IVY ( pseudônimos de ERICK LEE PURKHISER e KRISTY M. WALLACE), depois de tocar em hospícios e lançar seu debut em 1979 - o EP "Gravest Hits"-gravou m lançou, no ano seguinte, "Songs The Lord Taught Us".

Se você nunca ouviu falar em CRAMPS comece por esse aqui: "Songs" é o resultado do encontro entre GENE VINCENT e SID VICIOUS em uma sessão de macumba, durante um porre homérico. Ladeados pelos igualmente insanos BRIAN GREGORY- que abandonou a banda pouco depois, sem avisar e dirigindo a van como todo o equipamento do grupo -(guitarra) e NICK KNOX (bateria), o som dos espamódicos da Califórnia é uma adorável sucessão de esquisitices no melhor espírito desinteressado do rock n´roll.
Absorvendo LINK WRAY, THRASHMEN, surf rock e o espírito B e arrepiante das histórias do Creepshow, o disco, apesar de passar a anos-luz do preciosismo musical, traz um frescor pra uma época que alçou o sintetizador à condição de Santo Graal: faixas como "Rock On the Moon" , " Garbageman" e "The Mad Daddy" parecem coisa de criança quando comparadas a qualidade de um gravador digital barato dos dias atuais; no entanto a energia punk aliado aos cenários de papelão de "Plan 9 from Outer Space" estão lá, vívidas e cheia de energia. A Gibson Flying V de GREGORY parece possuir captadores de latão barato quando ruge firme em "What´s behind the mask", "Tear it Up" e "Zombie Dance", em uma luta inglória e perdida contra o vocal psicótico de LUX.

Independente de seu diagnóstico clínico de sanidade mental, alugue um filme antigo sobre zumbis, compre uma edição de sebo dos "Contos da Cripta" e ouça esse caras: você vai ver que mesmo não tendo a menor lógica, o mundo ainda é um lugar legal para se viver.

Track list:

"T.V. Set"
"Rock On The Moon"
"Garbageman"
"I Was a Teenage Werewolf"
"Sunglasses After Dark"
"The Mad Daddy"
"Mystery Plane"
"Zombie Dance"
"What's Behind the Mask?"
"Strychnine"
"I'm Cramped"
"Tear It Up"
"Fever"

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Sobre Paulo Severo da Costa

Paulo Severo da Costa é ensaísta, professor universitário e doente por rock n´roll. Adora críticas, mas não dá a mínima pra elas. Email para contato: joaopsevero@bol.com.br.

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