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Resenha - Flying Colors - Flying Colors

Por Breno Rubim |

Quando Mike Portnoy deixou o Dream Theater, em Setembro de 2010, eu, assim como milhares de fãs dessa banda, fiquei me perguntando: "que tipo de som esse cara vai fazer agora?" Eis que, no início de 2012 (inclusive depois do lançamento de um novo trabalho do próprio Dream Theater), ele retorna com dois grandes lançamentos: "Adrenaline Mob" (junto ao monstro dos vocais Russel Allen) e este álbum de que falarei a partir de agora: o debut "Flying Colors".

Nota: 9

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Mas falar deste álbum associando-o unicamente ao "barba azul" é heresia. O line-up é espetacular, contando também com Steve Morse ("Deep Purple") nas guitarras, Neal Morse ("Transatlantic") nos teclados, Dave LaRue no baixo ("Dixie Dregs", "G3", "Steve Morse Band"), e um certo "desconhecido" nos vocais: Casey McPherson, que originalmente é vocalista de uma banda de pop rock chamada "Alpha Rev", com suas músicas meio depressivas que combinam com encerramentos de seriados americanos como "The O.C." e "One Three Hill". Pergunta-se: um cara desses aguentaria o tranco de estar cercado de monstros em seus instrumentos? Conseguiria contribuir com sua voz a um som diferente do pop rock a que está acostumado? Conseguiria adequar bem seu vocal a músicas de hard rock?

Felizmente, ao ouvir o álbum várias vezes, tive certeza que a resposta a essas perguntas é afirmativa. Casey tem um timbre de voz diferente daqueles vocais a que estamos acostumados a escutar em bandas de hard rock contemporâneas, e essa diferenciação acabou se tornando um dos baratos de "Flying Colors". Seu vocal peculiar, se não pode ser chamado de excelente, e mesmo sem ter nenhum "drive" ou agressividade, dá conta do recado e acrescenta um "quê" a mais de melodia nas canções.

Eu poderia fazer um texto enorme apenas enaltecendo as qualidades dos instumentistas, mas isso é chover no molhado. Todos sabem que eles são monstros no que fazem. O que nos interessa, aqui, é a análise desta obra em si, como um todo, e particularmente, música por música.

O play abre com "Blue Ocean", com a bateria de Portnoy e o baixo de LaRue ditando o ritmo, num interessante tema. Desde já, Casey e Neal Morse revezam os vocais (ah, nem falei dos vocais de Neal, que são ótimos e ainda mais melódicos). A faixa é puramente um hard rock refinado (que mostra que não é necessário um riff matador para se abrir um álbum com chave de ouro) e deságua num belo refrão. Destaque, também, para o belo solo de guitarra de Steve - eles são frequentes nesta tracklist.

Após o belo início - porém não tão pesado - a porrada é maior com "Shoulda Coulda Woulda". Trata-se da faixa mais pesada do álbum, com um riff matador, e uma linha vocal incomum nas estrofes. Muito interessante faixa, daquelas com grande potecial de ser tocada em grandes arenas, afinal, o riff tem o potencial de deixar a galera pulando. Mais uma vez um belíssimo solo de Steve, um dos grandes destaques do álbum, e, ao final, Mike Portnoy enlouquece e começa a solar, mesmo quando o riff ainda não tem terminado: talvez seja o momento do álbum em que o ex-Dream Theater mostra seu virtuosismo mais intensamente. Há, inclusive, video na internet do "making of" dessa música, em que se vê Portnoy gravando esse trecho: já sentimos a porrada da bateria na música, mas ouvi-la separadamente nos dá uma idéia ainda maior do virtuosismo do cara.

Após a intensidade, a calma vem com "Kayla", balada com potencial de single e de videoclip, que, embora eu não considere grande destaque, possui ótima melodia e bom refrão. Penso que seu maior destaque é o singelo tema de teclado que a abre (utilizado, também, como base para o solo de guitarra do meio da canção).

Os vocais de Casey abrem "The Storm", que também pode ser considerada uma balada com potencial de single, com a diferença de que é bem melhor do que a antecessora. O refrão é espetacular (com Casey na voz principal e Neal na segunda voz), e o longo solo de guitarra é um dos mais melódicos do álbum. Perceberam como eu sempre estou falando dos solos de guitarra? É, eles estão presentes em quase todas as músicas, com grande, imensa maestria do loiro do "Deep Purple". Em outra resenha desse álbum, li a respeito dessa faixa que é como se o "U2" tivesse gravado o "Scenes From A Memory": mais ou menos... mais ou menos...

Em seguida, "Forever In A Daze" dá as caras, e aqui somos surpreendidos com uma invejável cozinha de bateria e baixo (mais interessante ainda do que em "Blue Ocean"), e o ouvinte que ainda estivesse reticente em relação a Dave LaRue quebra a cara: o baixo é energético, pulsante, e se caracteriza por ser simples, sem abrir mão do virtuosismo. O refrão também é energético, e, depois de um deles, um interlúdio instrumental realça novamente o baixo, deixando-nos boquiaberto.

Pra quem estava começando a achar que o álbum consistiria basicamente em hard rock (com baladas) é surpreendido por "Love Is What I'm Waiting For": com clima "beatlesiano" (se for neologismo, permitam-me o uso), é uma daquelas faixas gostosas e bem leves que, apesar da leveza, não se enquadram no rol de baladas de hard rock. Até porque o que vemos aqui não é hard rock: é puramente um pop rock simples, com uma levada que remete ao quarteto de Liverpool, mas tocado com muita competência. Temos vários componentes desse tipo de som: o piano pausado, a batida do refrão, os coros de vocais... É uma faixa que poderia facilmente ser cantada por artistas como Noel Gallagher. É, sem dúvida, um dos destaques do álbum, pela forma como surpreende o ouvinte.

"Everything Changes" é uma faixa magnífica, e fica em segundo lugar no álbum em termos de complexidade instrumental em sua construção (a que fica em primeiro lugar está mais adiante...). Os argumentos de que essa canção se assemelha aos tempos áureos de "Supertramp" é certeira: em determinado momento, após o refrão, a atmosfera muda abruptamente (inclusive no tom) e cede lugar a um piano e um vocal de Neal Morse que nos remete imediatamente à banda de Roger Hodgson. Sem falar no tema de guitarra que acompanha a música no início e no final. Pode-se dizer que é uma genial faixa de rock progressivo.

Outra balada aparece: "Better Than Walking Away", e não fica atrás das anteriores. Novamente abre com um tema de guitarra que acompanha toda a música (todos esses temas de que estou falando são extremamente melódicos e criativos). Trata-se de uma das faixas em que Casey McPherson empresta seus vocais de forma mais emotiva e melódica. Agradável surpresa.

E para quem estava começando a reclamar da falta de peso (a última faixa pesada foi a segunda) é presenteado com mais outra: "All Falls Down". Guitarra e bateria nervosas ditam o ritmo. Se quisermos ser críticos, podemos dizer que nessa faixa se sente falta de um vocal mais poderoso, mais rasgado, mais agressivo. Casey, repito, não tem essas qualidades. Mas acho que ele conseguiu segurar bem o tranco, e me contentei apenas com o peso dado pelos instrumentos.

A penúltima canção do trabalho é outra balada: "Fool In My Heart". Espere: este cd não tem baladas demais? Pode ser, mas todas elas são tocadas por maestria, com melodias extremamente criativas, fugindo do "lugar comum" que ouvimos em quase todas as baladas de bandas de hard rock atuais. Com "Fool In My Heart" não é diferente. Mas aqui há um diferencial: Mike Portnoy assume os vocais! E canta muito bem, por sinal. No refrão, divide as vozes com Neal Morse. A atmosfera da canção é totalmente blues: o solo de Steve Morse dá uma prova disso. Ah, não sei se fui só eu que pensei: "o trecho da música do solo de guitarra (02:30 - 03:00) é perfeito para se escutar enquanto se assiste a um striptease...".

Pois bem, mal afortunados os que ouvem este álbum e se cansam até a nona faixa, desligando o play, porque perdem a décima: a obra-prima, "Infinite Fire". É como se os membros dissessem em seu ouvido: "nós somos excepcionais em nossos instrumentos, você achava mesmo que a gente iria fazer só pop rock e hard rock diretos, sem nenhuma faixa longa e viajem instrumental?". Pois é, "Infinite Fire" tem cerca de doze minutos, e é uma viagem instrumental de rock progressivo com influências escancaradas de bandas como o "Yes". Mais uma vez, somos presenteados com um lindo tema de guitarra, cujas notas vão subindo em progressão. Depois, elas dão lugar a um baixo espetacular, pulsante (assim como em "Forever In A Daze"). Mas a maior delícia é a passagem instrumental de virtuosismo dos músicos: bateria, baixo, guitarra e teclado unindo técnica e feeling, complexidade e melodia. Sem falar, em determinado momento, de um dueto entre guitarra e teclado, remetendo-nos imediatamente à parte final de "South Side Of The Sky" tocada ao vivo pelo "Yes". Para fãs de rock progressivo, como eu, é de arrepiar. O trecho vocal, quase no final da música, em que se canta: "Seasons and times may take you over / Lead to you places you wouldn't go / So many seeds sown by the sower / Infinite fire come turn us to gold" nos remete imediatamente a vocais do "Yes" feitos pela dupla Anderson/Squire.

Enfim, o barato deste álbum é sua versatilidade. Não se prende a um estilo só: nele se escuta pop rock, hard rock, metal (em alguns riffs) e progressivo. Para os amantes de um rock bem feito e refinado, é audição obrigatória: o trabalho faz jus aos nomes dos integrantes.

Pessoalmente, nunca tive costume de "babar" artistas, elogiando-os em demasia. Mas fui obrigado a fazê-lo em relação a este álbum, que, em minha opinião, é, disparadamente, o melhor lançamento do ano até agora. Resta-nos esperar que esta banda seja tratada com mais seriedade pelos integrantes, no sentido de gravar videoclipes, agendar turnês, e, quem sabe, lançar outros álbuns. Ao que parece, até o momento, Portnoy está mais entretido com o "Adrenaline Mob", fazendo diversos shows com ele (uma pena, pois, na minha opinião, "Flying Colors" é um lançamento melhor - embora seja perigoso compararmos bandas de estilos diferentes). E Steve Morse provavelmente entrará em estúdio para gravar um novo trabalho com sua banda principal "Deep Purple". É esperar pra ver, mas, se os membros resolverem entrar na estrada, nada precisam temer em relação ao futuro: este projeto veio pra ficar.

Flying Colors - Flying Colors (2012)
1. Blue Ocean (5:05)
2. Shoulda Coulda Woulda (4:32)
3. Kayla (5:20)
4. The Storm (4:53)
5. Forever In A Daze (3:56)
6. Love Is What I'm Waiting For (3:36)
7. Everything Changes (6:55)
8. Better Than Walking Away (4:57)
9. All Falls Down (3:22)
10. Fool In My Heart (3:48)
11. Infinite Fire (12:12)

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