Resenha - Soulfly - Soulfly

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Resenha - Soulfly - Soulfly


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Nem parece, mas já se vão 14 anos desde o surgimento do SOULFLY, banda que, se não agradou a todos, com certeza tem construído um legado importante dentro da música pesada. Com oito discos lançados e tours pelo mundo todo, a banda de Max Cavalera já foi tema até de estudos acadêmicos relacionados à cultura brasileira, merecendo ao menos uma conferida por qualquer um que goste de metal.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Em 1996, o SEPULTURA tinha chegado ao auge. Depois de um começo tímido, flertando com o death metal e, mais tarde, já com Andreas Kisser na guitarra, lançando quatro álbuns que marcaram definitivamente seu nome na história, a banda soltava no mercado aquele que seria seu disco mais famoso, o tribalístico “ROOTS”. Naquela época, eles estavam, juntamente com o PANTERA, no topo da cadeia alimentar da música pesada mundial. Apesar disso, devido a problemas internos, e envolvendo a empresária e esposa de Max, Glória Cavalera, o vocalista acabou deixando a banda. O SEPULTURA, com o novo vocalista, Derrik Green, seguiu por outro caminho, distanciando-se dos experimentalismos, já Max Cavalera tentou aprofundar as idéias vencedoras mostradas em “ROOTS”.

O auto intitulado primeiro disco do SOULFLY, nova banda de Max, começa dizendo a que veio já na capa. De braços abertos, como o Cristo, livre (alma que voa?) para abraçar o que vier pela frente, Max parece dizer que está aberto, transparente, mas também só. Não no sentido próprio da palavra, pois a participação de convidados permeia toda a obra do SOULFLY, mas sim como aquele que possui uma visão, uma idéia que precisa ser exteriorizada. O Brasil, levado ao mundo por “ROOTS” através da participação dos índios Xavantes e da referência percussiva de Carlinhos Brown, aqui é apresentado com horizontes mais amplos, apontando para questões como a escravidão, a situação nordestina e a cultura brasileira de um modo geral. Mas, apesar de levar as características de um país para o resto do mundo, o mais interessante desse disco é o fato de apontar para interior de seu criador. Toda a raiva e a dor de Max Cavalera são expostas nas canções de “Soulfly”, o disco.

Já na abertura, as idéias de libertação e de recomeço ficam evidentes. “Eye for an eye” é explícita, na cara. A letra fala sobre começar de novo depois da perda, mas continuar sendo o mesmo, com suas convicções intactas. A idéia de apoiar-se e ter orgulho daquilo que o fez chegar até onde está também fica clara em versos como “All that i am doing can never be ruined, my song remains insane” (“Tudo o que estou fazendo nunca poderá ser destruído, minha música continua insana”). É a ponte perfeita entre passado e futuro. Max vocifera as palavras em cima de muito peso, com destaque para a bateria de Roy Mayorga, que, aliás, é matadora em todo o disco. “No hope no Fear” segue a linha, explorando ainda mais o conceito de liberdade, mas com a sabedoria de que o medo faz parte da ação, pois não senti-lo é o mesmo que estar inerte. “Às vezes sentimos como se a estrada estivesse bloqueada. Eu vou encontrar uma forma, vou mover essas rochas”, diz a canção. Se não há esperança para mudar, certamente não haverá o medo, e assim permanecemos no mesmo lugar, sem evolução.

Se o momento era de transição, tão forte quanto a expectativa do novo era o sofrimento da perda. Com a saída de seu antigo grupo, houve a ruptura com o irmão, e então baterista, Iggor Cavalera, com quem ficaria sem falar por uma década. Pouco tempo antes, o enteado, Dana Wells, fora barbaramente assassinado em uma briga de gangues nos Estados Unidos. “Bleed” surge como um grito desesperado de revolta e clamor por justiça. Mas não a justiça dos homens. “Por quanto tempo você pode se esconder”, urra o vocalista, e completa como uma promessa: “Tudo o que vai, volta”. A intervenção divina continua em faixas como “Tribe”, “Bumba”(animal folclórico que representa morte e ressurreição), com referência a Oxossi, orixá da caça, fartura e prosperidade, “First Commandment”, “Bumbklaat”, e “Umbabarauma” (composta por JORGE BEN).

Em “Quilombo”, Max conta a história do escravo Zumbi, que segundo ele, serviu como inspiração devido à coragem, e na faixa “Cangaceiro” é a vez de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ser lembrado. “No”, “The song Remains insane” e “Prejudice” são porradas na cara do sistema, criticando o preconceito, a falsidade e as banalidades da vida atual. A bela “Soulfly”, mesmo sendo instrumental, parece resumir a temática do disco sem precisar de palavras.

O primeiro do SOULFLY talvez seja o mais fraco de toda a carreira da banda. Trata-se de um disco longo e que ainda pairava sob a sombra de “ROOTS”. Mas, se este último primava pelo ineditismo, “SOULFLY”, o disco, tinha o mérito de ser agressivo na música e no sentimento. É claro que, assim como para seu criador, o disco é parte de um momento representativo nas vidas de muitas pessoas, mas a verdade é que se trata do primeiro passo de uma caminhada que acabou se provando longa e próspera. Com certeza, o melhor ainda estava por vir, e não demoraria muito.

SOULFLY – “SOULFLY” (1998)
Roadrunner Records

Formação:
Max Cavalera- guitarra e vocal
Jackson Bandeira- guitarra
Marcello D. Rapp- baixo
Roy “Ratta” Mayorga- bateria

Track List:
1- Eye for an eye
2- No hope = No fear
3- Bleed
4- Tribe
5- Bumba
6- First Commandment
7- Bumbklaatt
8- Soulfly
9- Umbabarauma
10- Quilombo
11- Fire
12- The song remains insane
13- No
14- Prejudice
15- Karmagedon
16- Cangaceiro
17- Ain’t no feeble bastard
18- The possibility of life’s destruction

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Sobre Johnny Freitas

Johnny Freitas, gaúcho de 34 anos, é formado em jornalismo pela PUCRS desde 2002. Foi editor do jornal Enfoque, tendo trabalhado, também, em diversas assessorias de imprensa no Estado. Filho de pais hippies, quando criança costumava não pegar no sono antes de a agulha sair do vinil "The Wall". No aniversário de cinco anos nada de brinquedos, "Innocent Victim", do Uriah Heep, "Creatures of the Night", do Kiss e "The Fool Circle", do Nazareth fizeram, literalmente, a festa. E, antes que alguém pergunte, ao contrário do célebre personagem interpretado por Selton Mello no cinema, seu nome é Johnny mesmo.

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