Resenha - Fireworks - Angra

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Resenha - Fireworks - Angra

Por Luizim Marques

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O ano é 1998. Em meio a uma enxurrada de problemas de convivência e de gerenciamento empresarial,algo nebuloso até hoje passados quase 15 anos, é concebido o terceiro disco do Angra.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Segundo Rafael Bittencourt, Andre Matos já queria abandonar a banda desde o final da turnê do Holy Land. Bittencourt ainda completa, falando que tal atitude estaria provavelmente sendo impulsionada pelo projeto solo de Andre na época, o Virgo. É deste tempo também que, conforme diz o guitarrista, ocorre a primeira experiência de Eduardo Falaschi, ainda vocalista do Symbols, junto à banda, incluindo Luis Mariutti e Ricardo Confessori. No entanto, o conjunto da obra conseguiu fazer com que Matos declinasse da idéia de sair, fazendo com que ele gravasse mais um disco, seu último registro à frente de uma das mais promissoras bandas de Heavy Metal do mundo. Isso é bem verdade, pois muito se falava no Angra no exterior.

Já segundo Andre Matos, em um dado momento de sua passagem pelo Angra começou a enxergar que eles estavam fazendo muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. O único problema é que ele enxergou também que muito desse dinheiro, pelo menos a parte que cabia à banda propriamente, não estava chegando aos músicos de forma correta. Andre foi o primeiro a cutucar a ferida. Contudo, não teve cumplicidade por parte de seus companheiros. Isso frustrou o vocalista. Mais do que isso, houve desgaste da relação pessoal, o que refletiu também na relação profissional. Como resultado, em algum momento de 2000, não só Andre, mas surpreendentemente Luis e Ricardo também deixaram o Angra, unindo-se a Hugo Mariutti para formar o Shaman, o que prova que Mariutti e Confessori também estavam se sentindo lesados com relação ao gerenciamento da banda e de suas finanças.

É bom que se diga aqui duas coisas: a primeira delas é que o músico tem, sim, todo o direito de achar ruim o fato de não estar recebendo de forma correta. Devemos acabar com esse negócio de que o cara só deve tocar por amor, por ideologia. Ser músico é ter um trabalho como outro qualquer. Você investe, você paga contas altas, você come, você dorme, tem seus gastos fixos e, no caso de uma banda do porte do Angra, existiam lucros que tinham que ser corretamente divididos e isto foi posto em questão. Se você está empregado em uma empresa e essa empresa não te paga o acordado, o que você faz? Trabalha por amor ou vai atrás dos seus direitos? É a mesma coisa. Por esse ponto de vista, eu concordo com o Andre Matos; por outro lado, o que dá a entender é que o Angra é uma espécie de “Grupo Dominó” do Metal (Não houve aquela coisa espontânea do cara tocar com o outro na garagem e chamar o outro e assim por diante. Tudo foi sempre acordado profissionalmente, embora muitos integrantes, sobretudo os remanescentes da formação clássica, dêem a entender que a banda começou sem aspirações mercadológicas). Então, em uma segunda análise, os rapazes eram “empregados” do empresário, que detinha o direito do nome juntamente com os músicos. Com o tempo, as relações e as cláusulas contratuais podem ter mudado, mas imagino que o empresário sempre esteve em vantagem se o compararmos aos músicos. Talvez Andre Matos tenha cobrado uma igualdade que legalmente não existia, optando por abandonar o barco.

O que há de verdade nisso tudo? Provavelmente nós nunca saibamos ao certo o que realmente aconteceu. O que podemos fazer é apenas pegar as pistas deixadas e tentar montar o quebra-cabeça. Mas seja como for, em meio a todos esses problemas, nasceu o FIREWORKS. Comparado aos seus antecessores, Angels Cry e Holy Land, o FIREWORKS é um disco bem mais cru, mais pesado e mais dedicado ao Heavy Metal. Ele não tem a forte influência clássica do primeiro disco (embora exista) e nem tem a forte brasilidade (embora exista) e o padrão conceitual do segundo disco. É tratado pelos músicos, tanto pelos que saíram quanto pelos que ficaram, como o grande patinho feio da discografia da formação clássica. Conta-se também que o Andre gravou e fez a turnê desse disco ainda sob cláusulas contratuais que o impediram de sair naquele momento, o que pode ter conturbado mais ainda a concepção do trabalho.

Produzido por Chris Tsangarides (renomado e experiente produtor inglês que, entre outros artistas, já trabalhou com Yngwie Malmsteen, Judas Priest, Gary Moore) e gravado no legendário Abbey Road Studios, o álbum foi trabalhado entre março e junho de 98, sendo lançado em julho do mesmo ano. Apesar de não ser, nem de longe, o disco favorito dos integrantes da banda, Rafael Bittencourt admitiu que ficou impressionado com o resultado final do disco.

Entretanto, houve alguns pontos positivos: se no Angels Cry e no Holy Land a banda teve sua excelência musical posta à prova e comprovada dentro do estúdio, foi no período do Fireworks que a banda “bombou” no mundo. Li algumas entrevistas e em uma delas o Luis Mariutti falou que a banda sentiu uma diferença cavalar de público na turnê do Fireworks, se comparada com a dos dois outros discos. Outra coisa: nesse período, o Angra era tido como “a grande banda do futuro” (Bruce Dickinson disse isso) e que “estouraria de vez” a qualquer momento, o que, musicalmente, dá muita pena pela formação clássica ter separado.

Como singles do disco, tivemos Lisbon e Rainy Nights, este último, por contrato, só seria lançado no Japão. Rainy Nights também foi o último registro de estúdio da formação clássica. Dentro do disco Fireworks, de fato, Rainy Nights só saiu no Japão também.

Até agora me segurei na parte técnica da coisa, mas agora serei mais enfático nas minhas opiniões: Eu, particularmente, nunca entendi porque o Fireworks é tido como uma “bola fora” na discografia da banda. Particularmente, é o meu disco preferido (ele lembra a história do Born Again, do Black Sabbath, que foi um disco cujo qual os integrantes não gostaram de modo algum – ou disseram que não gostaram – mas que ganhou status de cult. Para muitos é o melhor disco do Sabbath). Eu até compreendo que a grande obra prima da banda é o Holy Land mesmo. Eu gosto muito dele, inclusive. Mas o Fireworks tem uma energia que os outros dois discos não têm. É uma vibe completamente diferente, mais raivosa, agressiva, tensa. Também achei, entre todos, o disco melhor gravado, masterizado, enfim.

Destaco, além das conhecidas Wings of Reality, Lisbon, Metal Icarus, Gentle Change e Speed, as B-sides Petrified Eyes, Paradise, Mistery Machine e Extreme dream. Acho que elas é que são as reais responsáveis por toda agressividade e metal dedicado que falei até agora, sendo, para mim, Fireworks, a faixa “menos boa” de todo o conteúdo. Curiosamente, é a faixa-título. Mas não significa que seja ruim. É uma excelente música, mas, questão de opinião, fica aquém das demais.

O destaque maior desse disco, no entanto, são duas músicas: Speed e Lisbon. Elas são a cara de seus criadores, Kiko Loureiro e Andre Matos, respectivamente, e, de forma impressionante, cada uma delas mostram o que eles pretendiam seguir musicalmente no futuro. Não à toa, o Angra, com a mudança de formação, ficou mais próximo do power metal do que nunca, ao passo que o Shaman tentou uma veia mais retrô do heavy metal, com guitarras pesadas e bateria mais simples, sendo o ápice disso o controverso álbum Reason. Por sinal, Andre Matos, como sempre, estava metido na composição da maior parte das músicas do Fireworks, o que me faz pensar que ele já tentava mudar a sonoridade do que vinha tocando desde ali, cansado do rótulo do metal melódico.

É interessante notar também que, muito embora os músicos tenham dado a entender durante muito tempo que o disco não é um de seus melhores trabalhos, tanto os shows do Angra quanto os do Andre Matos possuem duas ou até três músicas do Fireworks em seu setlist. Sinal de que o disco não é tão ruim assim, não é mesmo?

Eu acho esse disco fenomenal! Talvez por todos esses problemas mesmo é que ele tenha nascido assim, cru, nervoso e pesadão. Foi o disco mais Heavy Metal do Angra, com poucas músicas dedicadas ao Power Metal e a maior parte delas tendendo ao Metal tradicional, com uma ilha de calmaria situada em Gentle Change. Como disse, para mim, da banda, não tem disco melhor. Mas se, por um lado, para a opinião geral e dos próprios músicos, o disco não é lá um primor, por outro também é hipocrisia dizer que esse é o pior trabalho da banda. O único disco pós-2000 que acho que tem capacidade musical de competir com os três primeiros discos do Angra é o Temple of Shadows. Os outros três, Rebirth, Aurora Consurgens e Aqua (este último é que o ponto mais baixo da carreira da banda), estão abaixo do Fireworks, bem como de todo o resto da discografia dos anos 90. E aqui não estou falando das diferenças entre Matos e Falaschi vocalmente. Isso é discutir o sexo dos anjos. Falo puramente da qualidade das composições, pois, no meu entendimento, do que mais o Angra se ressente, mais até do que da saída do “cantor” Andre Matos, é da saída do “compositor” Andre Matos. Acho até que vai além: o maior ressentimento do Angra é a perda do binômio compositor “Matos-Bittencourt”.

Isso é flagrante e é determinante para colocar o Fireworks, no mínimo, no top 3 dos discos da banda em toda a sua discografia ao longo desses vinte anos de carreira.

SETLIST:

1- Wings of Reality (Matos) 5:55
2- Petrified Eyes (Bittencourt, Tsangarides) 6:05
3- Lisbon (Matos) 5:13
4 – Metal Icarus (Loureiro, Bittencourt, Confessori) 6:24
5- Paradise (Matos, Loureiro, Bittencourt) 7:38
6- Mystery Machine (Confessori, Tsangarides, Loureiro, Bittencourt, Matos) 4:12
7- Fireworks (Matos, Bittencourt, Loureiro, Confessori) 6:20
8- Extreme Dream (Bittencourt) 4:16
9- Gentle Change (Bittencourt, Confessori, Mariutti) 5:55
10- Speed (Matos, Loureiro) 5:37
11- Rainy Nights* (Matos, Loureiro, Bittencourt) 5:03

Tempo total - 62:39

Por ultimo, quero dizer que, baseado nesse disco e, principalmente em Rainy Nights, que foi a última música da formação clássica lançada, eu acho que curtiria essa sonoridade vindoura do Angra. Acho que seria mais interessante do que o som do Angra da Nova Era. Tanto que eu gostei mais do Shaman do que o Angra depois da separação... e gostei muito do Reason (eu gosto dos discos injustiçados, ehehe). Seria interessante ter visto o Angra se enveredando nesta sonoridade, mas as coisas são como são e gosto também é algo muito pessoal.

Sobre o Fireworks, eu só tenho a dizer: escutem. Faz mais de 10 anos que tenho esse disco e nunca enjoo dele. É um discaço!

Saudade desse Angra aí...

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