Claustrofobia: Ousadia e excelência em novo álbum

Resenha - Peste - Claustrofobia

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Por Fernanda Lira
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O Claustrofobia lança agora seu quinto e mais recente trabalho intitulado "Peste", pela nova gravadora goianense Sangre. Mesmo antes do lançamento oficial do disco, ele já vem ganhando uma boa repercussão por parte dos headbangers e com essa resenha eu pretendo, de forma tão natural quanto o próprio álbum soa, explicar o por quê de todo esse falatório positivo acerca dele. Sim, o álbum é isso tudo, e mais um pouco!
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Antes mesmo de colocar as faixas pra tocar, já é possível se ter uma ótima impressão da obra: não somente a arte da capa com o simples, mas bem profissional, bem sacado e bem feito design de Alex Spike, mas o cuidado em fazer um digipack de qualidade, com boa disposição de fotos e das letras das músicas, chama muito a atenção.

Mas, o mais legal de tudo, em minha opinião, é a forte mensagem que o disco carrega. Seguindo uma tendência já bem característica em suas composições, os integrantes do Claustrofobia dessa vez não inseriram uma música ou outra em português - mas, sim, TODAS as faixas.

Para se entender bem o álbum, acho que a melhor maneira de apreciá-lo é acompanhar a música e ao mesmo tempo o conteúdo lírico - vai ser difícil controlar a vontade de fazer um bate cabeça ali mesmo no seu quarto, sala ou ambiente de trabalho, mas eu garanto que vai valer muito à pena. Isso porque letras e melodias casam muito bem, e o conceito que "Peste" traz, nada mais é que um desabafo de brasileiros inconformados com tudo o que acontece nesse país. Comenta do headbanger que se estraga em um dia e tem que trabalhar duro no dia seguinte, daquele que sofre, mas não desiste, daquele que toma cachaça pra sufocar a dor e que se indigna com tanta injustiça. Mas também não deixa barato para aquele que se deixa alienar pela televisão, que come seu churrasco tranquilo enquanto o país sucumbe em coisas erradas. Exalta porém aqueles que apesar de tudo, ainda seguem em frente com raça, que sobrevivem a todo esse caos. Isso tudo, da forma mais natural, mais Claustrofobia possível, como se fosse um papo reto de brasileiro para brasileiro!

Muitos créditos devem ser dados à banda pelo ótimo trabalho de composição e criação de linhas vocais - não é fácil, e os caras mandaram muito bem!

Bom, mas se estamos falando de metal, o que com certeza você, leitor, não vê a hora de saber, é sobre as músicas! E é exatamente aí que a coisa fica ainda melhor!

Logo de cara, com a faixa de abertura "Peste", é possível entender o que está por vir. A música já vinha sendo executada ao vivo em alguns shows desde o ano passado e seu incrível refrão de certa forma "pegajoso", no bom sentido, é claro, faz com que na primeira ouvida, você já se sinta íntimo da faixa e a cante no segundo refrão. E conseguir isso com maestria com letras em português é realmente muito interessante!

Mas em termos de musicalidade, o teor da gravação fica escancarado logo de primeira: peso e coesão são as palavras-chave. Por incrível que pareça, o que se pode ouvir é pesadíssimo, quase sujo, mas ao mesmo tempo, cristalino. Difícil explicar! Digo isso porque, ao passo em que se ouve uma guitarra com distorção típica do metal mais agressivo, pode-se identificar cada nota, palhetada, toques na bateria…

Cada instrumento está onde deve estar e pode ser ouvido perfeitamente, apesar de todo o peso. O DaTribo Estúdio mais uma vez provou porque sempre foi procurado por diversas bandas da cena para gravar. Produção de primeira!

Eu sinto uma banda mais ainda coesa e profissional nesse disco, sem perder as maiores qualidades 'claustrofobísticas': bateria impressionantemente rápida e precisa, os típicos backing vocals do baixista Daniel Bonfogo, a mescla entre thrash metal do mais tradicional e empolgante com passagens com grooves mais cadenciados e letras em português.

A segunda, "Metal Malóka", é outra bem na linha da banda. A letra é muito legal e sem dúvida alguma muitos headbangers vão se identificar ou pelo menos curtir bastante. A música inteira é excelente, mas duas partes me satisfizeram bastante. A primeira é quase no início, onde ocorre aquela pausa clássica onde você sabe que é hora de agitar um moshpit porque na sequência vem um thrash destruidor - e destruidor MESMO nesse caso. A batida é tão rápida e agressiva, que eu carinhosamente apelidei a banda de "Sadus brasileiro"! O outro trecho impressionante é no fim da faixa, onde ocorrem umas mudanças bem sutis em relação ao tempo da música - eles brincam com o tempo da música. Além de bem ousado, isso só reflete o quão bem entrosada, e o melhor, o quão confortável com seu modo de compor a banda está!

Entre essa última e a próxima do disco, um dos pontos altos do álbum - algo que deixa bem exposta a 'brasilidade' no disco. Uma voz agita um samba com batuque cantando "meu Brasil brasileiro….". Quando eu ouço, eu imagino aquele tiozinho sentado no bar, tomando uma e cantando sua felicidade sofrida pros amigos. Ótima sacada que exprime muito o clima de todo o disco.

Na sequência, uma das minhas favoritas. "Bastardos do Brasil" além de apresentar novamente uma cadência excelente com riffs bem coesos e criativos, tem, para mim, a melhor letra do disco. É um tapa na cara daquele brasileiro acomodado, é um alerta, através de frases como "filhos do Brasil, acreditem se quiser, o futuro não se resume no rabo de uma mulher" e "não se faça de vítima senão vai se fuder" dentre outras muito bem criadas. A batida mais "hard-core" no meio também marca outra característica bem presente por todo o álbum, que são arrancadas rapidíssimas no ritmo após alguns grooves, e nela também fica claro quão orgânico o álbum é - o barulho do chimbal soando ao fim da faixa demonstra isso!

Então chega a hora da faixa mais inusitada do disco. Antes mesmo do lançamento oficial do "Peste", certa 'polêmica' já havia se formado apenas com a divulgação de um teaser há certo tempo, que continha trechos de uma música que mesclava samba e metal. Foi a deixa para muitos headbangers mais radicais já torcerem o nariz e não raro ouvia-se dizer que tinham medo de um disco todo baseado nessa mistura. Eu vou ser bem sincera ao dizer que colocar samba no meio do metal SEMPRE me fez, no passado, olhar 'torto' pra algumas músicas, mas a "Nota 6.66" não deixou que isso acontecesse. O primeiro motivo é a ousadia da banda em fazer logo na faixa mais longa do disco, algo totalmente diferente e que nem sempre agrada os bangers. Só por esse motivo, por esse fato de a banda mostrar toda sua musicalidade sem preconceito nenhum e dar a cara a tapa ousando algo do tipo, já me deixou admirada. E no fim das contas, música é isso mesmo, é acima de tudo uma forma de expressão: se os caras se sentiram confortáveis em deixar claro ali que o samba os influencia de alguma maneira musicalmente, é válido!

Os outros fatores não ficam atrás em importância. Mesmo quem não gosta dessa brilhante e inusitada faixa, terá de admitir que se surpreendeu com o peso, que está absurdo! Nem uma Sapucaí inteira soa tão cheia e pesada quanto o Claustrofobia e o grupo Batuque de Corda nessa música. As variações nos riffs de guitarra deixam escancarada a versatilidade dos integrantes do Claustro - acreditem, até um solo estilo "chorinho" aparece por ali. Realmente muito interessante.

Falando um pouco mais dos detalhes da música agora, o que se pode ouvir ali é um samba bem tradicional, mesclado ao peso que o metal oferece. É uma mistura com direito a diversos instrumentos de percussão, como o tamborim e a cuíca, configurando um 'samba metal' do mais original que ouvi até agora, com direito a cuíca puxando o ritmo e todo o resto, guitarras, baixo e outros instrumentos, seguindo. Isso só me faz chegar a uma conclusão: o metal é realmente incrível. Na história do estilo, já conseguiram misturar o metal com violino, com vocal lírico, com sanfona, gaita de fole, e agora, até com samba! E ainda dizem que o metal é um estilo pouco eclético e de gente cabeça fechada. Vai entender…

O crédito da qualidade da faixa também deve sem dúvida ser compartilhado com o produtor, Ciero, do Da Tribo estúdio, pois apesar de conter vários instrumentos, é possível que se ouça cada um deles com a maior nitidez possível. E ao Claustrofobia, os parabéns pela ousadia e atitude em não esconder sua musicalidade e mais ainda por respeitar esse outro estilo tão distinto do nosso, ressaltando a riqueza que talvez possa existir no samba também.

"Pinu da Granada", também já havia sido executada ao vivo em alguns shows, mas os detalhes na gravação dão outra cara à música. Ela é uma faixa mais cadenciada e relativamente simples, mas o peso é incontestável. A letra e a melodia vocal são muito marcantes e a vontade de cantar junto se torna inevitável. Mais uma vez, acho difícil não haver um headbanger que não se identifique com uma parte ou outra da letra. Não sei a que 'pinu da granada' os caras se referem especificamente nessa música, mas o verso "PRO LOKO O QUE IMPORTA AGORA É CAIR NA ESBÓRNIA, CONTENTA AMANHÃ COM O GOSTO DA BOSTA, SEMANA PASSADA NÃO SERVIU PRA NADA, AQUI ESTOU NOVAMENTE TIRANDO O PINO DA GRANADA" , por exemplo, se encaixa bem numa noitada enchendo a cara com os amigos curtindo um metal, não? Mais uma vez também, trechos da música pra chamar moshpit, blast beats absurdos e uma rifferama 'comendo solta'.

Em "Alegoria do Sangue", outro thrash bem tradicional do Claustrofobia, com aquelas partes de solo bem rápidas e de fundo o típico "patu patu" servindo de base para as guitarras a todo vapor. Mas, o que mais me chama a atenção nesse som, é mais uma vez uma prova clara de quão à vontade estão os integrantes com sua musicalidade e quão íntimos estão com seus instrumentos. Ao fim da música, ocorre uma mudança sutil em relação ao tempo da música- acontecem umas diminuições bem leves no ritmo, mas que fazem toda a diferença. É um detalhe que nem todos vão reparar, eu creio, mas que particularmente, me surpreendeu positivamente.

A minha favorita do disco, "Bicho Humano", dá sequência à destruição sonora de "Peste". A faixa conta com a participação de Henrique Fogaça, vocalista da ótima banda Oitão, que, graças a sua brutalidade e energia na gravação e principalmente no palco, vem ganhando um bom espaço na cena. Para quem gostaria de conferir o som deles, uma ótima oportunidade será na abertura para o show do Brujeria, no dia 18 de abril em São Paulo, e em outras datas pelo Brasil.

A faixa é a minha preferida, porque nela estão inseridas as características que mais gosto em uma música de thrash metal: MUITA agressividade (a mais agressiva do disco talvez, eu diria), refrão marcante, blast beat e tudo o mais. Nela também fica clara a boa forma da banda, já que cada instrumento é executado quase a seu extremo de velocidade e técnica.

"Vida de Mentira", é talvez a mais cadenciada, mas não menos poderosa do disco. As guitarras em algumas partes, me lembraram algo de Pantera, por causa dos riffs bem trabalhados. Nela, o vocal de Marcus D'Angelo se ressalta tanto quanto em "Caosfera", a próxima.

Para fechar o disco e todo o seu conceito, temos "Viva", outra que me agrada muito. É uma faixa bem mais curta que as anteriores, mas possui muita agressividade, além de energia. Um dos pontos mais legais nela, novamente, é a letra. É uma síntese e conclui da forma mais sensata o conteúdo lírico de um disco que fala do Brasil. Resumidamente, ela fala do sentimento que a maioria dos brasileiros carregam no peito: apesar de tudo, de todo o sofrimento, de toda a luta, "viva, estou aqui!". Se encaixa também perfeitamente, eu creio, também, à realidade de todas as bandas batalhadoras do underground brasileiro - um dia após o outro, uma luta atrás da outra, mas sempre seguindo em frente.

"Vivendo intensamente, nenhum momento parado no tempo, vibrando pro progresso, exercitando a positividade no pensamento".

Nem sei o que está por vir, mas sem dúvidas, é o meu primeiro indicado a melhor do ano de 2012.

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