No dia 13 de dezembro de 2001, em meio a uma forte pneumonia - cujos danos foram intensificados devido a um corpo fragilizado por um tumor cerebral - morrera um dos artistas mais representativos da música pesada. Através deste post, tentarei - tentarei, pois é uma árdua tarefa, convenhamos - comentar a discografia do "Death"como forma de homenagem a um dos músicos mais intrigantes que o heavy metal já vira, Chuck Schuldiner.
O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

Com o passar do tempo, o "Death", verdade seja dita, se transformou em uma espécie de projeto solo de Chuck Schuldiner; mesmo que dividisse a companhia de ótimos músicos - ao menos no sentido musical e técnico, eram -, as composições, os detalhes e a palavra final pertencera sempre a seu líder. Logo, partindo desse príncipio - ou seja, sabendo que Chuck é o 'engenheiro' do som do "Death" -, que deve-se tentar compreender a obra da banda.
No que tange a discografia oficial, que compreende sete álbuns de estúdio e dois registros ao vivo, o "Death" possui uma das mais singulares na história do heavy metal; há uma nítida evolução em cada lançamento, seja nas letras, no instrumental, em arranjos ou nos detalhes de produção. O "Death" não seguiu tendências, apenas evoluiu, tal como Chuck crescia como músico e pessoa, sendo, portanto, um reflexo musical do que Chuck era.


Em contrapardida, músicas como "Baptized in Blood" e "Torn to Pieces" exibem esqueletos do que seria o death metal em seu formato mais tradicional, além de serem 'belos' exemplos da agressividade transmitida pelo vocal gutural de Schuldiner. Influências de bandas como "SLAYER", "BLACK SABBATH" e "VENOM" são notórias nos primeiros riffs de Chuck.
O debut do "Death" diferenciou-se de outros pioneiros do gênero - como o 'Seven Churches' (1985), do "POSSESSED" - por possuir, além da rapidez e crueza aliada a riffs "arrastados", elementos melódicos comuns ao heavy metal tradicional. Exemplos? As introduções melódicas, uma das grandes características da banda - algo que viria a ser mais exploradas no futuro, a propósito -, de "Evil Dead" e "Zombie Ritual" exemplificam isso. Os solos, especialmente o de "Scream Bloody Gore", já mostravam uma orientação diferenciada - principalmente se compararmos aos leads, digamos, mais 'despojados' comuns ao gênero.
Liricamente, "Scream Bloody Gore" apresenta o trabalho mais simplório do "Death", pois as letras são baseadas em filme de terror e, no geral, possuem temática totalmente gore, em oposição a 'veia filosófica' que posteriormente marcaria as composições de Schuldiner. "Scream Bloody Gore" marcou, principalmente, por ser um dos primeiros passos do death metal e o início de um músico ainda jovem.
Músicas-chave:
"Evil Dead" ; "Zombie Ritual" ; "Denial of Life"


Todavia, a agressividade não diminuiu em nada; "Leprosy" soa ainda mais brutal que "Scream Bloody Gore" e, se é que isso seja possível, têm vocais ainda mais doentios - no bom sentido - de Mr. Schuldiner. Por exemplo, faixas como "Left to Die" e "Born Dead" apresentam interpretações extremas e 'agoniantes' de Chuck.
A adição de linhas "menos padronizadas" de bateria - se comparadas com o seu antecessor -, realizadas por Bill Andrews, também contribuiram para a evolução da banda. Contudo, o trunfo do disco segue sendo os riffs de guitarra que soam ainda mais pesados e memoráveis. Em minha opinião, "Leprosy" é um exemplo do que é o estilo em sua essência; afinal, ele exibe todas as características do death metal old school.
Músicas-chave:
"Choke On It" ; "Pull The Plug" ; "Forgotten Past"


Melódico e pesado ao mesmo tempo, tal combinação seria uma espécie de padrão para as composições de Chuck. Em "Spiritual Healing" faixas como"Within the Mind" e "Defensive Personalities" representando bem esse conceito.
Nesse registro as letras são de cunho altamente social, em meio aos riffs pesados e urros em "Living Monstrosity", "Low Life" e "Genetic Reconstruction", por exemplo, estão críticas severas e reflexivas sobre o sistema e o ser humano em si. Recomendo ao ouvinte que acompanhe as letras durante a audição, especialmente dessas citadas, pois elas são ótimas. Não é a toa que sempre lembro das letras ao falar dessa banda.
Este álbum é um 'divisor de águas' na carreira da banda e aponta, de vez, a direção musical que Chuck Schuldiner seguiria daqui para frente: um som pesado, técnico 'recheado' com letras significativas . Em meio a tantos clássicos, infelizmente, "Spiritual Healing" é um dos menos lembrados na discografia do "Death".
Músicas-chave:
"Spiritual Healing" ; "Within The Mind" ; "Defensive Personalities"


"Human" elevou o nível técnico das composições do "Death" a um novo patamar porque dessa vez não apenas as guitarras guiaram as músicas: bateria e o baixo ganharam um papel de suma importância no som da banda. Provas? Confira "Flattening of Emotions" - com uma intro de bateria de cair o queixo - e porradas como "Vacant Planets" e "Together As One". A faixa instrumental "Cosmic Sea", que contou com um pequeno solo de baixo de Scott Karino, sela o nível de técnica - sempre a serviço da compasição, bom lembrar -, e peso que a banda atingira.
Mais uma vez, a forma de escrever de Schuldiner evoluiu, pois as letras tornaram-se 'menos ácidas' e mais filosóficas. Nesse registro, o "Death" também produziu o seu primeiro videoclipe, "Lack of Comprehension" foi a escolhida e manteve-se como um dos maiores clássicos da banda. Infelizmente, depois de "Human", Schuldiner mudou - ou teve que trocar- gradativamente o estilo de seus vocais guturais. Saliento que TODAS as composições são excelentes e mantém o nível alto até o fim do disco.
Enfim, "Human" é um dos melhores e mais essenciais álbuns da banda. Entretanto, a mixagem original do disco não foi muito feliz; escondeu as excelentes linhas de baixo de Steve DiGiorgio, portanto, é recomendável que se ouça a versão remasterizada ( lançada em 2011) e que, finalmente, faz jus ao trabalho desse incrível baixista.
Músicas-chave:
"Lack Of Comprehension" ; "Secret Face" ; "Suicide Machine"

"Onde está a linha invisível
Que devemos traçar para criar os
Padrões de pensamentos individuais?"
- Individual Thougth Patterns


Steve DiGiorgio permaneceu sob o comando das quatro cordas evidenciado seu domínico com o fretless bass (baixo sem trastes). Tal medida deixou as músicas do álbum com um som ainda mais distinto - escute "Nothing is Everything" e o 'duelo' com o Chuck ao fim de "The Philosopher" para compreender. Completavam a formação: o monstro Gene Hoglan, baterista incrivelmente técnico, - experimente ouvir o que ele faz em faixas como "Overactive Imagination" e "In Human Form" - e o guitarrista, convidado por Chuck, Andy LaRoque (King Diamond) - que presenteou a banda com solos fantásticos, como o primeiro em "Trapped In A Corner".
Schuldiner conseguiu extrair, talvez, tanto o melhor de todos esses músicos, como o melhor de si nesse trabalho. O nível técnico das composições foi ainda mais alto que em "Human"; mas, surpreendemente, o disco soa, apesar da agressividade, cativante e único. Sim, até hoje nunca ouvi algo parecido com "Individual Thought Patterns" e que, ao mesmo tempo, soasse tão bem coeso e harmônico, ou seja, sem parecer mera exibição virtuosística.
Esse disco também marca uma significativa evolução de Chuck como guitarrista, pois seus riffs e solos, em músicas como "Jealousy" e "Trapped In A Corner", estão afiados como nunca. No que diz respeito as letras, em "Individual Thought Patterns" Chuck superou-se . Acompanhe as palavras de músicas como "Destiny", "Nothing Is Everything" e a faixa-título.

Músicas-chave:
"The Philosopher" ; "Destiny" ; "Trapped In A Corner"


Momentos de total inspiração permeiam o disco, seja pela agressividade de faixas como "1,000 Eyes", "Misanthrope" e "Zero Tolerance" ou pelas belas melodias de composições como "Without Judgement" - que guitarras! -, "Empty Words" e "Crystal Mountain" - sendo essas últimas citadas, duas das maiores pérolas de Chuck; melodias e peso na medida certa, além do uso de guitarras limpas.
"Symbolic" também marcou pelo fato ter um maior número de elementos progressivos nas composiçõe; o final de "Perennial Quest" - uma das melhores letras que Schuldiner já escreveu, a propósito - exemplifica essa afirmação sendo, este encerramento, um dos momentos mais inspirados e únicos do álbum. Um Outro digno de encerrar um álbum desse porte.
Apesar da clareza do instrumento - graças a, já citada, produção -, um dos poucos pontos fracos do disco são as linhas de baixo, pois Kelly Conlon não conseguiu chegar perto do que DiGiorgio proporcionou a música do "Death.
No que diz respeito ao conteudo lírico, Chuck manteve temáticas similares as do álbum anterior. Contudo, talvez houve um foco 'espiritual' mais apurado - como pode ser visto em canções como "1,000 Eyes" e "Perennial Quest". Novamente ele toca na questão religiosa, pois em meio a diversas metáforas de "Crystal Mountain", por exemplo, estão críticas pesadas a pessoas que utilizam a religião em benefício próprio.
"Symbolic" é um dos álbuns mais cultuados do "Death" e faz por merecer, pois em um período que o heavy metal (no geral) não ia bem, poucos foram os discos com o impacto e qualidade vistas nesse álbum. Curiosamente, "Symbolic" também representava o 'ato final' de Chuck Schuldiner para com o "Death"; após a turnê de promoção do álbum, Schuldiner decidiu focar-se no seu novo projeto - em que desejava atuar apenas como guitarrista e compositor -, o "Control Denied".
Músicas-chave:
"Empty Words" ; "Crystal Mountain" ; "Perennial Quest"


A evolução de Chuck como musicista foi constante; o que se viu nesse disco foi uma banda mais técnica que nunca. Mas, a maior diferença não está no instrumental das composições, e sim no vocal de Schuldiner que, nesse álbum, optou por uma vocalização mais aguda e rasgada, longe do gutural seco e agressivo de outrora.
A formação do álbum incluiu ótimos músicos - 'aproveitados' do "Control Denied" -: mesmo substituindo um monstro, como Gene Hoglan, Richard Christy conseguiu conquistar respeito entre os fãs da banda através do que fez em músicas como "Scavenger of Human Sorrow" e "Forgive is To Suffer", por exemplo.
O que falar da dupla formada por Chuck Schuldiner e Shannon Hamm? Apesar dos ótimos guitarristas de outrora, houve, ao meu ver, uma espécie de empatia aqui que foi além da relação estúdios/palcos. "The Sound of Perseverance" fora o mais perto que o "Death" chegou de ser, de fato, uma banda. Pérolas como "Flesh and The Power It Holds" e "Story To Tell" mostram isso através de estruturas complexas e, até mesmo, inéditas para o estilo do "Death".
O cover de "Painkiller" (Judas Priest) foi uma surpresa e mostrou a versatilidade da banda. Chuck também conseguiu provar de vez que música extrema pode sim ser emocionante, ouça "A Moment of Clarity" - sendo esta uma das antigas composições do "Control Denied" - e a inspiradíssima instrumental "Voice of the Soul" para comprovar.
Em seu último álbum - com o "Death" - Schuldiner provou que, além de ser um dos responsáveis pela criação do gênero, também poderia ser um dos pioneiros na evolução do mesmo; "The Sound of Perseverance" foi crucial para a 'nova onda' do death metal técnico que surgiria posteriormente e, além disso, um digníssimo encerramento para uma das bandas mais singulares da história do metal.
Músicas-chave:
"Spirit Crusher" ; "Story To Tell" ; "A Moment Of Clarity"

A performance, num todo, é excelente, porém o fato de Schuldiner cantar de forma mais rasgada - tal como fez no "The Sound of Perseverance - talvez cause estranhamento, pois ele canta dessa forma até em composições antigas.
As diferenças nos setlists são mínimas, sendo elas:"Flattening of Emotions" e "Lack of Comprehension" - em "Live in Eindhoven" - ; "Symbolic", "Scavenger of Human Sorrow", "Empty Words e "Zombie Ritual" - no "Live in LA".

Ambos as performances também foram lançadas sob a forma de DVD e, em Fevereiro, os CDs de áudio serão remixados e relançados em um único disco intitulado "Vivus".
"A simbólica e frágil arte da existência nada mais é que o som da perseverança" SCHULDINER, Chuck
Esta frase resume toda a carreira musical do músico aqui reportada. Enfim, lembremos sempre desse cara simples que, apesar de ter perdido a batalha contra a 'morte' prematuramente, conseguiu, através dela, provar que 'morte' também poderia ser arte - para isso, basta encararmos o que não desejamos e temos medo, como a própria... 'morte'.
Dados técnicos da discografia:
http://www.metal-archives.com/bands/Death/141
Originalmente publicado em:
http://hangover-music.blogspot.com/2012/01/discografia-comentada-death.html
Todas as matérias da seção Resenhas de CDs
Todas as matérias sobre Death
Os comentários são postados usando scripts do FACEBOOK e logins do FACEBOOK, HOTMAIL, AOL ou YAHOO, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que fizeram uso deste sistema (citados na assinatura de cada comentário). Caso você considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Os responsáveis pelo site podem excluir comentários que julguem inadequados e fornecer informações sobre os comentários a reclamantes se solicitados.
Pense antes de escrever. Ao comentar sobre alguém, lembre-se que este alguém é uma pessoa e merece respeito. Tenha cuidado especial ao comentar sobre colaboradores do Whiplash.Net; eles trabalham de graça para gerar o conteúdo que você está lendo. Mais chato do que uma matéria com erro, ou uma opinião com que você não concorda, são os chatos que apenas reclamam. Se acha que pode fazer melhor, clique no link ENVIAR MATERIAL no topo do site. Se achar um erro de digitação ou similar, envie pelo link de ENVIO DE CORREÇÕES; lembre-se que é falta de educação corrigir outras pessoas em público. E lembre-se de também elogiar quando encontrar bom conteúdo; isso é um bom incentivo aos colaboradores. :-)
Chatos, trolls e usuários que faltam com respeito a outras pessoas poderão ser banidos sem aviso prévio.
Tenta, desde meados de 2010, escrever textos que abordem as vertentes da mais peculiar - em seu ponto de vista - manifestação artística do ser humano, a música. Para tal, criou o blog Hangover-Music e contribui no Whiplash.Net. Além disso, é estudante de jornalismo, guitarrista e acredita que se algum dia o Deus metal existira, ele morreu em 13/12/2001.
Mais matérias de Thiago Pimentel no Whiplash.Net.
Link que não funciona para email (ignore)
QUEM SOMOS | RSS | FACEBOOK | TWITTER | APPS | ANUNCIAR | ENVIAR MATERIAL | FALE CONOSCO
Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria. Os textos não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será retirado do site.
Em abril de 2012 Whiplash.Net teve 1.211.297 visitantes, 3.149.841 visitas e 10.113.719 pageviews. Ver stats.