Rage Against the Machine é a banda mais legal do planeta. Isso sem levar em conta os méritos artístico-musicais, que somam ainda mais ao grupo de Los Angeles. A verdade é que o grupo liderado por Zack De La Rocha e Tom Morello representa um ponto de ligação entre os mais variados gostos e tribos. O quarteto californiano consegue agradar gregos e troianos sem qualquer intuito de fazer média ou se auto-afirmar constantemente (como o faz D2 em sua carreira solo). Dos headbangers aos alternativos estudantes de ciências sociais. Dos rappers aos simples fãs de rock. Num período musical conturbado, porém não menos digno, a banda consegue se destacar por sua originalidade, sinceridade e atitude. Atitude essa, diferente daquele estereótipo do roqueiro rebelde sem causa. Com letras engajadas politicamente e movimentos ativistas, sem nunca soar filantrópico e demagogo como Bono Vox e seus amigos. Pregando uma revolução.
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Contudo, há quem diga que a obra dos californianos seja panfletária. Bobagem, o Rage Against the Machine é inteligente o suficiente para saber expor seus pontos de vista abrindo espaços para discussão e reflexão, não tentando em momento algum moldar a opinião do ouvinte com pontos de vista maniqueístas. O discurso nesse caso é embasado e nunca raso. Todos eles tem um forte passado político, oriundos da influência de seus pais. Zack de La Rocha era filho de uma professora de antropologia e de um artista político. A mãe de Tom Morello era a mentora de um grupo contra a censura na música e seu pai era membro de um exército de guerrilheiros conhecidos como Mau Mau que libertou a Quênia do imperialismo britânico. O próprio Tom Morello se graduou em Harvard, a mais bem-conceituada universidade do mundo, em ciências sociais. Commerford e Wilk não tiveram influências políticas vindas de seus pais, mas no caso do último, essa falta de influência, e pelo contrário, a ganância de seu pai pelo capital foi o que o incentivou a seguir uma orientação política adversa de seu progenitor.
Talvez por isso, a analogia do coquetel molotov seja tão bem aplicada a banda em questão. Não só o som passa a impressionante sensação de um mundo em fúria, como também as letras pregam uma justiça social diferente dos moldes sugeridos pelos artistas mais recatados. “Bombtrack”, talvez a maior demonstração dessa fúria, grita que latifundiários e prostitutas poderosas (nesse caso, as pessoas que prostituem seus ideais e princípios por dinheiro), assim como seus ternos e propriedades de luxo serão queimados. Faixa inicial, Bombtrack, com o perdão de trocadilho, prepara o rastro da bomba para aquela que se tornaria a mais antológica de todas as músicas da banda. “Killing in the Name”. Ao contrário do que muitos pensam, a faixa não trata de questões religiosas, mas sim de uma discussão sobre o racismo nas instituições e na polícia norte-americana, da qual alguns membros fazem parte da Klu Klux Klan, o que justifica a matança pelo benefício dos brancos. Justamente essa controvérsia sobre o real sentido da canção demonstra que a mesma não apresenta um conteúdo panfletário, gerando as mais diversas interpretações. Seguida por “Take the Power Back” que fala sobre a educação voltada para o capitalismo e a manipulação da mídia, os Rage gritam que eles tem que retomar o poder e recuperar o tempo perdido com a cultura que foi perdida no meio dessa sujeira toda.
Enfim, as discussões apresentadas pelo Rage Against the Machine são muitas, passando longe dos simples ideais do jovem esquerdista ingênuo de dezesseis anos de idade. Não se trata de uma banda revoltada com o capitalismo, já que eles mesmo fazem partes desse sistema e não abrem mão do dinheiro conquistado com seus shows e venda de discos. Se trata de uma discussão sobre determinados pontos a serem mudados. Como em “Wake Up”, a supressão do FBI sobre os movimentos negros, ou o reacionismo do sonho americano em “Know Your Enemy”, canção anti-autoritarista e anti-militarista. Não são pregações esquerdistas, e sim uma luta pelo humanitarianismo e pela igualdade dos direitos, que tem que funcionar em qualquer sistema socio-econômico do mundo.
Uma pena que as ideias propostas pela banda atinjam apenas parte de seus fãs. A outra parcela entusiasmada apenas pela sonoridade ou pelo status da banda. Apesar disso, esses são necessários para a disseminação da ideologia ou até mesmo para a sustentação da banda. Sustentação que se mantém firme. Apesar de um certo hiato, o grupo demonstrou que seu som e seu discurso mantém-se atuais, durante apresentação no festival brasileiro realizado em Itu, o SWU. A primeira vez que o quarteto pisa em solo latino. Passagem notada pela distribuição de ingressos aos integrantes do movimento sem-terra e manifestações no palco, demontrando que o ativismo do grupo não se restringe apenas a música e sim aos atos. Dizem que as ideias mais fortes sobrevivem, e o Rage Against demonstrou que as ideias deles sobreviverão por muito tempo.
Tracklist:
1. Bombtrack
2. Killing in the Name
3. Take the Power Back
4. Settle for Nothing
5. Bullet in the Head
6. Know Your Enemy
7. Wake Up
8. Fistful of Steel
9. Township Rebellion
10. Freedom
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