Resenha - Kick Out The Jams - MC5

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Resenha - Kick Out The Jams - MC5

Por Elias Rodigues Emídio

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Em 2010 faz 41 anos que foi lançado um disco fundamental na história do Rock. Um disco importante não por trazer arranjos musicais muito elaborados, ou por inovar em termos de experimentação sonora como fizeram outros artistas contemporâneos. Mas apenas por que a banda que o lançou levava essa ideia de Rock & Roll a fundo, seus integrantes levavam a sério a famosa trilogia “Sexo, Drogas e Rock & Roll”. Para eles o Rock significava muito mais do que um simples estilo musical: era um estilo de vida.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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O Motor City Five (MC5 abreviadamente) foi uma banda originada em 1965 na famosa cidade americana de Detroit, conhecida mundialmente por seu grande parque industrial no setor automobilístico. O grupo era formado originalmente por Fred “Sonic” Smith e Wayne Kramer nas guitarras, Michael Davis no baixo, Dennis Thompson na bateria e Rob Tyner nos vocais.

Este disco possui uma história muito interessante por detrás dos fatos que levaram a sua concepção que merece ser contada aqui.

Até 1968 o MC5 havia gravado apenas dois compactos que alcançaram sucesso apenas local, tornando a banda bem conhecida nas cercanias da cidade de Detroit. No mesmo ano a banda conheceu o músico e poeta John Sinclair que se tornou seu empresário.

John era o idealizador do Detroit Artists Workshop, um grupo de fomento de encontros poético-musicais, e do grupo White Panther Party (não pense que se trate de uma organização racista). Esses grupos eram a grande Meca do movimento de contracultura da cidade de Detroit e tinham uma ideologia muito mais radical que a do movimento Hippie californiano ao lutar pelo direito a liberdade (entenda-se liberdade como fazer sexo e consumir drogas livremente), além dos direitos de igualdade civil e justiça social a todos os cidadãos; procurando se utilizar de todas as formas possíveis para a promoção de suas ideias inclusive o Rock & Roll.

Após uma apresentação bem conturbada no Lincoln Park na cidade de Detroit em 25 de agosto de 1968 que contou com a intervenção das forças armadas (a banda chegou a tocar em meio a tiroteio entre exército, policia e manifestantes da cidade!) o MC5 alcançou alguma notoriedade nacional e ficou famoso por suas explosivas e violentas apresentações ao vivo.

Era apenas uma questão de tempo até a banda assinar contrato com uma grande gravadora, no caso a Elektra Records, e lançar um disco de estreia. Nascia assim o disco ao vivo mais explosivo da história do Rock “Kick Out The Jams”, gravado ao vivo em dois shows nos dias 30 e 31 de novembro de 1968, no Russ Gibb's Grand Ballroom', em Detroit, noite de Halloween e véspera da proclamação do ato de fundação do Partido das Panteras Brancas.

É importante ressaltar que um disco de estreia gravado ao vivo era até então uma novidade no mundo da música e a gravadora só concordou com tal ousadia, porque possuía a intenção de imprimir no disco de estreia da banda a vibração de suas apresentações ao vivo.

O disco se inicia com um discurso inflamado de John Sinclair que traduz perfeitamente os ideais pregados pelo movimento de contracultura de Detroit. O que se ouve na sequência é um Blues de primeira com um duelo de guitarras incendiárias distorcidas até a alma e com baixo e bateria impondo uma marcação bem pesada. Essa loucura sonora é a clássica faixa de abertura do disco “Ramblin’ Rose”, brilhante cover do mestre da voz Nat King Cole.

Na sequência mais um petardo atômico intitulado “Kick Out The Jams”. Quando o ouvinte menos espera, se depara novamente com um rock capaz estremecer as bases de qualquer fã de Rock & Roll. A canção é embalada por um dos mais memoráveis Riff de guitarra executado no ultimo volume e conta com uma interpretação totalmente insana do vocalista Rob Tyner que em certos trechos apenas grunhe e geme loucamente. É no começo desta canção que Tyner brada para a plateia bordão que tornaria a banda famosa em todo mundo “Kick Out The Jams, Your Motherfuckers” algo como “vamos detonar, seus filhos da puta”. Sem dúvidas, é um dos grandes marcos na longa história do Rock & Roll.

“Come Together”, “Rocket Reducer Nº 62 (Rama Lama Fa Fa Fa)” e “Borderline” seguem na mesma linha das canções anteriores. As cinco primeiras faixas deste disco são a mais perfeita síntese do som do MC5: rocks diretos com a banda esbanjando energia e com uma natureza niilista típica do Punk, mas sempre com um pé calcado na tradição do Blues.

É interessante abordar a temática das letras até essa altura no disco: o sexo. “Kick Out The Jams”, por exemplo, fala sobre alguém que está a fim de “comer” uma mulher e sugere que ele tome alguma substância para dar uma hiperdimensionada na "transa".

A próxima canção do disco “Motor City Is Burning” é uma excelente composição de Fred Smith narrando um episódio de um famoso incêndio que destruiu grande parte da cidade. É a canção mais política do disco com referências a Guerra do Vietnã, ao grupo Panteras Negras, à guarda nacional, entre outros. Outro grande destaque fica o magnífico trabalho nas guitarras e para interpretação mais melódica de Rob Tyner que mostra todo o seu potencial como vocalista.

A banda volta com tudo em “I Want You Right Now” um rock que se inicia repleto de peso e distorção nas guitarras. Numa espécie de Loop no meio da canção a banda reduz o ritmo, antes do final explosivo quando a banda estoura novamente em cima dos palcos. A temática da canção é mais uma vez o sexo como provam os gemidos e grunhidos em certos trechos da música.

Destaque final para “Starship”, outra composição interessante no disco que fala sobre um desejo de alguém que anseia ser levado pelos ETs para um lugar além do sistema solar de uma beleza inimaginável para os seres humanos. Composta em parceria como o Jazzista Sun Ra, a canção é estruturada como um Blues entremeado de improvisações jazzísticas com direito a uma pequena despedida da banda antes do seu fim. Fechamento ideal para o disco.

O MC5 foi Punk muito antes de Sex Pistols e Cia, New Wave muito antes da década de 80, thrash antes de Slayer e outros. “Kick Out The Jams” é um disco para ser ouvido no ultimo volume. Não se importe com as guitarras absurdamente altas e completamente distorcidas, com a batida pesada imposta pela bateria e pelo baixo e com as interpretações “malucas” de seu vocalista. Deixe-se absorver pelo clima do disco.

Encerro a resenha com um interessante trecho retirado do site www.omelete.com:

“Enfim: experimentem o MC5. Experimentem-no informando-se um pouco mais da circunstância que os envolveu. Como John Sinclair, junto aos membros da banda, diz: a música não pode estar separada do que o músico vive. Não pode, portanto, servir exclusivamente ao mestre mercado. E experimentem o MC5 com um exercício de imaginação. Abstraia o Thrash metal, o Hardcore e imaginem-se no fim do outono frio de Detroit. Ideias na cabeça e crença firme de que a revolução é possível. Qualquer estilo de revolução. Da socialista clássica à mudança radical de costumes. Assim coloquem o disco na vitrola e ouça o discurso seguido da música, talvez a mais feroz ouvida até então. Quem sabe poderão reviver o que se ouviu em novembro de 68.”

Disco essencial em qualquer coleção de Rock & Roll.

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