Há muito tempo atrás, recordo-me de uma seção em uma revista especializada em rock (se não me falha a memória, a grande “Roadie Crew”) onde nomes famosos do gênero eram perguntados sobre seus álbuns favoritos. Em uma das perguntas, muito peculiar por sinal, o entrevistado tinha que responder qual disco daria de presente ao seu pior inimigo. Andreas Kisser, do Sepultura, em sua participação, decretou: “Hot Space”, do Queen – banda da qual, aliás, ele é fã. E durante anos a fio, desde o seu lançamento em 1982, o “álbum da capa colorida” do quarteto britânico sempre foi execrado, até mesmo pelos seus mais fiéis seguidores. Afinal, seria “Hot Space” realmente tão ruim assim?
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A mudança de ares musicais havia funcionado bem no trabalho anterior, onde a banda deixa para trás o som esmerado e super-produzido (exagerado para alguns) dos anos 1970, abandonando as sobreposições de vocais e guitarras e apostando em uma sonoridade mais simples e direta. Chega a ser incrível, porém, pensar hoje em dia em como é que o quarteto não conseguiu perceber que uma mudança tão radical, para um tipo de sonoridade tão distante e tão mais pobre, acabaria sendo, no mínimo, prejudicial. Ouvindo-se cuidadosamente o disco, o que dá para se notar é uma banda que perdeu o foco.
As duas faixas que abrem o trabalho, “Stayin’ Power” e “Dancer”, já são de desencorajar até o mais fanático seguidor de Freddie Mercury e cia. Se você duvida, tente ouvir as duas, seguidinhas, como aparecem no álbum, sem tentar pular para a próxima. E olha que naqueles tempos de vinil não tínhamos a facilidade de apertar uma tecla para fazer isso, tinha-se o trabalho de retirar a agulha e procurar a música seguinte... Pois bem... A terceira faixa, “Back Chat”, do baixista John Deacon, continua apostando na disco, e embora tenha um bom solo e alguns acordes de guitarra distorcidos de Brian May, não consegue convencer ninguém. O ridículo chega ao seu ápice em “Body Language”, com sua letra e video clipe, no mínimo, estapafúrdios. Encerrando o lado A do vinil, vinha “Action This Day”, que chegou a fazer parte do repertório ao vivo, assim como “Stayin’ Power” e “Back Chat”, em versões onde a banda tentava soar um pouco mais rocker, mas não adiantava... Era caso perdido mesmo, como pode ser conferido no CD/DVD “Queen On Fire – Live At The Bowl”.
Se o ouvinte por engano começasse a ouvir a bolacha pelo lado B, talvez a reação fosse diferente. Abrindo a outra metade, temos nada menos que “Put Out The Fire”, um baita hard rock rasgadão e pesado de Brian May, seguido de uma bela homenagem de Freddie Mercury a John Lennon em “Life Is Real”. Mas a peteca começa a cair de novo com “Calling All Girls”, faixa pop totalmente desnecessária do baterista Roger Taylor. Bom, paciência tem limite, e o vinil só não era quebrado depois de mais esta faixa horrorosa porque vinha mais uma boa balada (boa, mas bem açucarada, é verdade), onde o Queen homenageia os fãs da América Latina que os receberam tão calorosamente no ano anterior: “Las Palabras de Amor”.
Ânimos mais calmos e o flerte agora era com a soul music, em outra composição de John Deacon (notório fã da black music dos tempos da Motown), agora em parceria com Freddie Mercury, “Cool Cat”, cantada por este quase toda num falsete que, a certa altura, vai cansando. Encerrando o disco, e evitando o fiasco total, a banda resolveu inserir a ótima “Under Pressure”, composta, gravada e lançada junto a David Bowie no ano anterior, e que acabou resultando na época em seu segundo single de maior sucesso, perdendo apenas para “Bohemian Rhapsody” – afinal, desta vez contavam com as vendas direcionadas não apenas para seus fãs, mas também para os do “camaleão do rock”.
Enfim, realmente “Hot Space” é um disco com muito mais erros do que acertos. Não é de todo mal, mas o pouco de bom que tem não faz jus a toda a grandeza do nome da banda. Ao lado da trilha sonora do péssimo filme “Flash Gordon”, talvez seja realmente o pior momento de toda sua história, em termos de criação musical. Era o começo de uma crise interna que quase decretaria o final da banda anos depois, quando do lançamento de “The Works” (outro disco irregular, mas já bem melhor do que “Hot Space”). A situação era tão delicada que à época, para driblar o choque de egos, foram lançados como singles de “The Works” quatro faixas, uma composta por cada membro: “Radio Ga Ga”, “I Want To Break Free”, “It’s a Hard Life” e “Hammer To Fall”.
Para sorte dos fãs, as intrigas foram superadas pelo profissionalismo. Voltando a trabalhar em conjunto, o grupo lançaria como composição de todos os membros em 1985 o single “One Vision”, e posteriormente os álbuns “The Miracle” e “Innuendo” – o álbum “A Kind Of Magic” trazia ainda as faixas assinada individualmente pelos membros. A união da banda ficou ainda mais forte após a confirmação de que Freddie era soropositivo e durou até a sua morte em 1991, rendendo ao mundo ainda mais algumas grandes canções...
1. Staying Power
2. Dancer
3. Back Chat
4. Body Language
5. Action This Day
6. Put Out The Fire
7. Life Is Real (Song For Lennon)
8. Calling All Girls
9. Las Palabras De Amor (The Words Of Love)
10. Cool Cat
11. Under Pressure (with David Bowie)
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Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.
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