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Resenha - Caligrafia - Ludov

Quem foi que disse que todo rock ‘n’ roll precisa ser feito à base de fogo e fúria? Às vezes, um bom rock ‘n’ roll também pode ser feito à base de suavidade, delicadeza e pequenas sutilezas. Uma das provas pode ser apreciada em "Caligrafia", terceiro disco de estúdio dos paulistanos do Ludov. A marca do quarteto ainda está lá, aquela sonoridade indie marcadíssima pelos deliciosos vocais femininos de Vanessa Krongold. Mas o que se ouve aqui é um Ludov que foi mais além, que se permitiu experimentar muito mais. Quando o ouvinte coloca “Caligrafia” para tocar, passa a ser pouco dizer que o Ludov é uma banda de “rock alternativo que lembra The Cardigans”. O disco tem maturidade suficiente para brincar com seus elementos pop, transpô-los e dar de cara com a MPB, sem medo de ser feliz. E isso passando ainda por ska, surf music, samba e bossa nova. A misturada, ah, soa mais Ludov do que nunca.

Nota: 8

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Para quem não conhece o Ludov, vale uma rápida introdução: sensação no mundinho rock underground de São Paulo, eles eram uma banda que cantava em inglês, atendendo pelo nome de Maybees. Rebatizados como Ludov (que é uma abreviação para “Ludovico”, referência direta ao experimento de mesmo nome do filme/livro “Laranja Mecânica”), eles lançaram seu primeiro disco, agora versando em português, “O Exercício das Pequenas Coisas”, pela mesma Deckdisc da baiana Pitty. Apesar do sucesso de canções como “Princesa” e “Dois a Rodar”, o segundo álbum, “Disco Paralelo”, acabou sendo lançado pelo selo independente Mondo 77. Sim, lá estavam eles de volta ao underground. Por mais que trabalhem por conta própria, sem a grande estrutura de uma poderosa gravadora, eles sabem bem como cultivar sua base de fãs e manter-se em plena evidência graças à internet. E sem se preocupar com o que vai ou não tocar em rádio, se trancaram em um sítio e saíram de lá com “Caligrafia” prontinho.

Com produção assinada pelos guitarristas Habacuque Lima e Mauro Motoki, o disco é uma coleção de belas composições em nossa língua pátria – feito que Motoki, principal compositor do time, vem fazendo com qualidade desde a transição de Maybees para Ludov. E olha que esta não é das tarefas mais simples de serem alcançadas já que, para boa parte dos nossos músicos, escrever boas letras em português parece até ser mais difícil do que fazê-lo em inglês. As composições de Motoki são costuradas e moldadas na medida certa para a voz de Vanessa. Mostrando-se ainda mais inteligente e sutil como intérprete, aqui ela mostra ainda uma bem-vinda versatilidade.

Que a moça já mandava bem num power pop como “Luta Livre”, com seus ares de banda feminina dos anos 80, a gente já sabia. Ou mesmo em “Sob A Neblina Da Manhã”, fazendo coro com aquela guitarrinha de trilha sonora dos filmes antigos do James Bond. Mas em “Terrorismo Suicida”, a fronwoman solta um lado até mais agressivo, rasgado, envergando o timbre clássico da roqueira descabelada. Já na balada “Não Me Poupe”, o violino dá um tom ao mesmo tempo amargurado e sensual, enquanto Vanessa se entrega em uma interpretação orgânica tipo “diva do rádio”, com uma citação ao tango lá pelas tantas. E em “Magnética”, eis que vem a grande surpresa: uma espécie de samba urbano, com ecos de Chico Buarque, embarcando naqueles temas simples, dos sentimentos cotidianos, que são a especialidade da banda.

Habacuque até que também dá o ar da graça como cantor, embora em momentos menos inspirados. Em “Madeira Naval”, por exemplo, ele incorpora o que pode ser chamado de uma versão menos depressiva dos Los Hermanos. Não chega a ser ruim. Mas está longe do resultado obtido quando ambos agem em dueto – seja na quase road music “Paris, Texas” ou na sensual “O Seu Show É Só Pra Mim”. Esta última, por sinal, só obtém o efeito desejado quando o violão acústico e o estalar de dedos ganham a companhia da voz quase sussurrada de Vanessa ali, bem ao fundo. Para encerrar, que tal a dupla cantando em francês em “Notre Voyage”, pop do bom, para orgulho de Serge Gainsbourg? Oui, monsieur.

Quem quiser experimentar “Caligrafia”, nem precisa ir muito longe. No site oficial, é possível baixar todas as 12 músicas que constam no disco físico – e ainda mais outras sete faixas bônus, compostas junto com as anteriores numa tacada só. Um download que vale muito a pena.

Line-up:
Vanessa Krongold - Vocal e Violão
Habacuque Lima - Guitarra, Baixo e Vocal
Mauro Motoki - Guitarra, Teclado, Baixo e Vocal
Paulo "Chapolin" Rocha - Bateria

Tracklist:
01. Luta Livre
02. Vinte Por Cento
03. Sob A Neblina Da Manhã
04. Madeira Naval
05. Mecanismo
06. Paris, Texas
07. Reprise
08. O Seu Show É Só Pra Mim
09. Terrorismo Suicida
10. Não Me Poupe
11. Magnética
12. Notre Voyage

Site:
http://www.myspace.com/ludov
http://www.ludov.com.br

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.

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