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Resenha - It's Only Rock'n Roll - Rolling Stones

"It´s Only Rock´n Roll" é o último álbum dos Rolling Stones com Mick Taylor. O guitarrista sairia da banda algum tempo depois, dizendo-se esgotado pela estrada e pelo relacionamento sufocante com Mick Jagger e Keith Richards. Extremamente inseguro, na verdade Mick Taylor nunca se sentiu totalmente à vontade com os Stones, fato que se acentuou ano após ano pela recusa eterna de Jagger e Richards em dar crédito a Taylor nas composições que ele ajudou a criar. A única exceção é "Ventilator Blues", do "Exile on Main St.", mas isso é assunto para outro dia.

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Gravado no Musicland Studios, em Munique, na Alemanha, o disco traz influências generosas de soul e funk, acrescentando ainda mais tempero ao som sacolejante dos Stones. Além disso, é o primeiro trabalho do grupo cuja produção é creditada aos The Glimmer Twins (alcunha de Mick e Keith), que, propositalmente ou não, tornaram o timbre das guitarras bastante pesado - para o grupo -, tornando a audição ainda mais interessante.

Apesar de contar com apenas dez faixas, como é de hábito nas sessões de gravação da banda muitas mais foram registradas. Entre elas, três covers para clássicos do R&B e do soul: "Drift Away" de Dobie Gray, "Shame, Shame, Shame" de Shirley & Company e "Ain´t Too Proud to Beg" dos Temptations, sendo que apenas essa última entrou no álbum.

O LP abre com "If You Can´t Rock Me", uma tentativa de seguir a tradição do grupo de sempre apresentar grandes faixas de abertura, mas aqui o resultado é apenas satisfatório. "If You Can´t Rock Me" não é uma faixa ruim, está longe disso, mas colocá-la no mesmo patamar de "Brown Sugar" e "Sympathy for the Devil" - faixas que davam início a "Sticky Fingers" e "Beggar´s Banquet", respectivamente - é covardia. Como destaque vale mencionar o baixo distorcidíssimo de Bill Wyman no meio da canção, ganhando um destaque pouco comum nos trabalhos da banda.

A já citada "Ain´t Too Proud to Beg" dá sequência aos trabalhos, e sua audição contagia, principalmente pelo refrão pra lá de grudento, na melhor tradição dos singles da Motown. Uma das melhores do álbum, sem dúvida. Vale citar que "Ain´t Too Proud to Beg" foi lançada como single em 31 de outubro de 1974, duas semanas após o álbum chegar às lojas, com "Dance Little Sister" no lado B, e alcançou a décima-sétima posição nos charts da Billboard.

O grande clássico do disco vem a seguir. "It´s Only Rock´n Roll" é um dos maiores hinos dos Stones, e resume com perfeição o espírito da banda: é apenas rock and roll, mas a gente gosta! O que pouca gente sabe é que Ron Wood, naquela época apenas um amigo da banda, foi fundamental na concepção da faixa. Mick Jagger e Keith Richards haviam dado uma força para Wood na gravação e composição de "I´ve Got My Own Album to Do", primeiro disco solo de Ron, lançado em 13 de setembro de 1974. A convivência aproximou Wood da dupla criativa dos Rolling Stones, e Jagger trabalhou na surdina com Ron Wood na confecção da faixa que dá nome ao disco dos Stones. Apesar de nos créditos do álbum haver uma citação a Ron Wood como o inspirador da canção, ele não aparece como autor da mesma, cuja criação é creditada apenas a Jagger e Richards. E, apesar de não creditado, Wood toca violão de doze cordas na faixa.

A faixa foi o primeiro single do álbum, chegando às lojas no dia 26 de julho daquele ano, alcançando a décima-sexta posição do Top 100 da Billboard e a décima nos charts ingleses. O álbum, em compensação, foi fácil para o primeiro posto nos Estados Unidos e alcançou a segunda posição na Inglaterra.

Menos badaladas, algumas faixas de "It´s Only Rock´n Roll" se transformaram, com o tempo, em preferidas entre os fãs e em pequenas jóias da carreira da banda. A doce balada "Till the Next Goodbye", com uma interpretação primorosa de Mick Jagger, é uma delas. A excelente "Time Waits For No One", outra. Com mais de seis minutos de duração, traz Jagger divagando sobre os anos que passaram e os que estão por vir, e conta com um solo sensacional de Mick Taylor, que faz toda a diferença na canção. Aliás, Taylor, com sua insegurança, se sentia pouco valorizado nos Stones, mas é só ouvir faixas como "Time Waits For No One" para ver o quanto ele elevou a música do grupo a um outro nível. Ainda que não tivesse a inventividade de Brian Jones, Mick Taylor era um guitarrista muito mais técnico, extremamente sensível, que conseguia, com poucas notas, transmitir um mar de sensações com o seu instrumento.

Há ainda "Luxury", um rock arrastado com um grande refrão, que precede "Dance Little Sister", uma paulada digna dos melhores momentos dos Stones. Com o baixo de Wyman e as guitarras em primeiro plano, é daquelas faixas típicas do grupo, extremamente contagiantes, feitas sob medida para levantar estádios.

A parte final do álbum traz ainda a bela "If You Really Want to Be My Friend", uma das grandes baladas da carreira dos Stones, cantada por um Jagger com o coração na mão. Outro destaque da faixa são os backing vocals, que fazem toda a diferença.

E, fechando o play, "Fingerprint File" é um funk psicodélico e hipnótico, mais uma vez com uma grande performance de Mick Taylor, que se contrapõe perfeitamente a Keith Richards. Interessante notar que, ao contrário das outras relações de Keith com seus companheiros de seis cordas - Brian era a exuberância, Richards era o lado cru da primeira fase dos Stones; e, ao lado de Wood, Keith desenvolveu um entrosamento tão grande que é praticamente impossível saber que partes cada um dos dois executa, já que suas guitarras soam como uma só -, com Taylor, um instrumentista muito mais técnico, Keith mostra uma aprimoramento e uma evolução palpáveis em cada uma das faixas que gravou enquanto Mick Taylor esteve na banda, caminhando a passos largos em direção a um caminho que nem ele saberia dizer qual é. A influência de Taylor sobre Richards foi tão grande que moticou até mesmo uma carta de agradecimento de Keith ao guitarrista quando ele se desligou dos Stones, o que levou Mick Taylor às lágrimas.

Um assunto que não pode deixar de ser abordado quando se fala do disco é a ótima ilustração da capa, desenvolvida por Guy Peellaert, trazendo os Stones em uma escadaria do que parece ser um tempo grego ou romano, rodeados por dezenas de mulheres, como que sendo recebidos no Olimpo do rock, seu lugar de direito.

Concluindo, apesar de não estar no mesmo nível de clássicos intocáveis como "Beggar´s Banquet", "Let it Bleed", "Sticky Fingers" e "Exile on Main St.", "It´s Only Rock´n Roll" apresenta uma banda com fome ainda para experimentar, trilhando caminhos até então inéditos, com sede de provar que continuavam revelantes para a cena rock dos anos setenta. De maneira geral, "It´s Only Rock´n Roll" é um trabalho muito bom, com ao menos três composições excelentes (a que dá nome ao álbum, "Time Waits For No One" e "Fingerprint File") e que possui o seu lugar e a sua importância na longa discografia daquela que sempre será a maior banda de rock do mundo.

Line-up:
Mick Jagger - Vocal e Guitarra
Keith Richards - Guitarra, Baixo e Vocal
Mick Taylor - Guitarra, Sintetizador, Baixo, Congas e Vocal
Bill Wyman - Baixo e Sintetizador
Charlie Watts - Bateria

Músicos adicionais:
Billy Preston - Piano
Nicky Hopkins - Piano
Ian Stewart - Piano
Ray Cooper - Percussão
Blue Magic - Backing Vocal
Charlie Jolly - Tabla
Ed Leach - Cowbell

Faixas:
1. If You Can´t Rock Me - 3:46
2. Ain´t Too Proud To Beg - 3:30
3. It´s Only Rock´n Roll (But I Like It) - 5:07
4. Till the Next Goodbye - 4:37
5. Time Waits For No One - 6:37
6. Luxury - 5:00
7. Dance Little Sister - 4:11
8. If You Really Want To Be My Friend - 6:16
9. Short and Curlies - 2:43
10. Fingerprint File - 6:33

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor do blog Collectors Room - www.collectorsroom.blogspot.com - e colaborador das revistas poeira Zine e Rolling Stone. Escreve para o Whiplash desde 2005.

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