Esta história todo mundo já conhece: depois de 15 anos de espera, finalmente Axl Rose deixa de enrolação e lança o novo álbum de inéditas do Guns ‘n’ Roses, “Chinese Democracy”. Nem me cabe entrar, neste espaço tão pequeno, nos motivos que levaram Mr.Rose a demorar mais de uma década para produzir um disco – que, por razões óbvias, tornou-se o mais caro da história, custando a pequena bagatela de US$ 13 milhões. O grande problema é que, depois de tanto tempo, “Chinese Democracy” chega às prateleiras tendo obrigatoriamente que lidar com um inimigo muito mais cruel em seu julgamento: a ansiedade dos fãs. Afinal, o produto final demorou tanto tempo para sair do forno – quando se começou a falar nele, eu tinha 14 anos e o rosto repleto de espinhas, veja só você – que é de esperar, portanto, que ele seja no mínimo genial. Ledo engano, meu caro Watson.
Nota: 5 




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“Chinese Democracy” não é um disco ruim. Mas seu grande problema é a absoluta falta de coesão. Nenhuma das músicas parece ter conexão entre si, daquele tipo que indica que elas fazem parte de um todo, de uma única obra. Infelizmente, Rose parece ter esquecido a linha fina que separa um disco “variado” de um disco “desvairado”. Falta um tanto de nexo até mesmo dentro de cada faixa, dando a nítida impressão de que as melodias iam sofrendo modificações naturais com o passar dos anos e, numa tentativa de soar moderno, o engenheiro de som foi grudando os pedaços que achava melhores. Uma espécie de greatest hits do “Chinese Democracy”.
E o que dizer da quantidade de músicos envolvidos no projeto? Foram, considerando os trechos selecionados para cada música, pelo menos três guitarristas, dois baixistas e dois bateristas diferentes. Como esperar uma sonoridade com um mínimo de integridade com tantas pessoas entrando na fila para assumir o papel do sujeito anterior? Como é possível que o coitado do camarada tentasse imprimir ali a sua marca se, na edição final, o seu riff seria colado ao riff de um dos seus muitos antecessores? Era evidente que, no fim das contas, cada canção, com suas dezenas de camadas, parecesse ter sido gravada por uma banda diferente – apenas com a voz de Axl Rose como elemento comum.
Se é pra ser um disco pop, como ele sinaliza na baladinha “This I Love” ou então na pretensiosa power ballad “Sorry”, então vambora. Quer um disco de metal industrial, a la Nine Inch Nails e/ou Ministry, como pode ser nitidamente sentido em “Shackler's Revenge”, “Riad n' the Bedouins” ou “Scraped”? Beleza. Hard rock cheio de pompa, como o Queen, tipo em “Street of Dreams”? Yeah, baby. Uma onda mais experimental, com barulhinhos eletrônicos e um violão de inspiração flamenca, como é o caso de “If the World”? Topo. Ou até uma superprodução épica, cheia de cavalgadas sonoras, como as que ouvimos em “Madagascar”? Vá lá.
O lance é que “Chinese Democracy” apenas TENTA ser estas coisas – às vezes, tenta ser até tudo ao mesmo tempo. Mas não consegue.
Uma coisa, no entanto, está absolutamente irrepreensível: a voz de Axl. As cordas vocais do cantor estão em ótima forma e ele grita e se esgoela de maneira rasgada com a mesma fúria de outrora – vide o refrão do single “Better”, por exemplo. No entanto, ainda é muito pouco, mas muito pouco mesmo, para justificar tamanho barulho.
Não me entendam mal. Sou do tipo que mais incentiva inovações. Quer pirar e fazer uma coisa completamente nova e inusitada? Tem meu total apoio. Ninguém disse que “Chinese Democracy” tinha que ser um novo “Use Your Illussion”. Mas se é pra inovar, então que o faça direito. E não que fique atirando para todos os lados para ver se acerta alguém ou alguma coisa.
Line-Up:
Vocal - Axl Rose
Guitarra - Robin Finck, Ron "Bumblefoot" Thal, Buckethead, Paul Tobias, Richard Fortus
Baixo - Tommy Stinson, Chris Pitman
Bateria - Bryan "Brain" Mantia, Frank Ferrer
Tracklist:
1. Chinese Democracy
2. Shackler's Revenge
3. Better
4. Street of Dreams
5. If the World
6. There Was a Time
7. Catcher in the Rye
8. Scraped
9. Riad n' the Bedouins
10. Sorry
11. I.R.S.
12. Madagascar
13. This I Love
14. Prostitute
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Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.
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