Por mais que tenham feito sucesso em determinado período, muitos artistas se ressentem profundamente do passado. Com o brilhante vocalista alemão MICHAEL KISKE, um dos principais responsáveis pela transformação do HELLOWEEN num peso-pesado do heavy metal europeu, essa máxima é certamente aplicável. Ou pelo menos era, pois os "fantasmas" daquele glorioso passado, ao lado de feras como Roland Grapow e Kai Hansen, parecem devidamente espantados com o excelente álbum "Past in Different Ways", um verdadeiro ajuste de contas do cantor e compositor com as desilusões de seus últimos dias junto da abóbora macabra.
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"Nem sempre foi emocionalmente fácil lidar com esse material. A música, de alguma maneira, parece preservar memórias emocionais, e eu ligo grandes desapontamentos com os últimos anos daquele tempo [no HELLOWEEN]", escreve Kiske no encarte. "É sempre MUITO melhor escrever coisas novas, mas eu queria fazer aquelas canções serem minhas de novo. E embora eu sinta muito pelos anos em que tive de construir sozinho uma nova base de amigos, é sempre bom fazer as pazes com o seu passado", desabafa.
Se este álbum foi uma terapia para Kiske, ele também é um verdadeiro bálsamo para qualquer fã da boa música – mesmo para os furiosos delatores que renegam aquele grande HELLOWEEN do começo da década de 1990. O cantor e compositor tratou de "atualizar" as suas principais criações, dando a elas a cara que ele ostenta hoje. Em lugar das guitarras frenéticas, violões acústicos. Saem os solos de bateria, entram arranjos orquestrados. Mas a voz – como dizia aquela antiga propaganda de xampu – continua a mesma!
Não é à toa que "You Always Walk Alone" abre o álbum. Com uma requintada introdução de violino, a música mostra, logo de cara, o que vem por aí em "Past in Different Ways" - não poderia haver cartão de visita mais adequado. Na seqüência, para encerrar a visita a "Keeper Of The Seven Keys Part II", vem "We Got The Right".
O CD avança no tempo e vai até 1993, com uma dobradinha do álbum "Chameleon" – uma das obras mais criticadas pelos fãs "die hard" do HELLOWEEN. "I Believe" e "Longing" só confirmam como Kiske se sente confortável com o que muitos encaram como "a fase negra" da banda alemã.
A próxima dupla de faixas reúne duas das melhores peças de "Pink Bubbles Go Ape" (1991), um excelente álbum, embora visto por muitos como "o começo do fim" para os anos áureos do conjunto alemão. "Your Turn", que em sua origem já era acústica, e "Kids of the Century", originalmente um rock dos mais envolventes, ficaram muito interessantes nessa releitura. Posso confessar a você, caro(a) leitor(a), que o CD Player do meu carro se cansou de tocar estas duas canções...
"In The Night" e "Going Home", de "Chameleon" e "Pink Bubbles..." (respectivamente), também não deixam dúvidas sobre a riqueza da atual fase de Kiske, que se mostra um músico muito mais completo e maduro do que aquele intrépido rapaz que ganhou o emprego no HELLOWEEN por seu timbre vocal semelhante ao de Bruce Dickinson. Para fechar a visita ao passado, a já citada "A Little Time" e "When the Sinner" (também de "Chameleon") dão o tom.
O álbum ainda traz a inédita "Different Ways". Uma boa faixa, mas que acaba ofuscada pelo brilho das dez anteriores. Afinal de contas, é mesmo difícil competir com o HELLOWEEN de Michael Kiske – mesmo estando os dois, banda e vocalista, tão distantes nos dias de hoje.
"Past in Different Ways" é uma maneira muito nobre de celebrar o reencontro de um grande cantor com um passado que ele custou muito a assimilar – e talvez nem tenha digerido inteiramente ainda. Então, que tal ajudarmos Michael Kiske nessa terapia?
"Past in Different Ways" – Michael Kiske
01. You Always Walk Alone
02. We Got The Right
03. I Believe
04. Longing
05. Your Turn
06. Kids Of The Century
07. In The Night
08. Going Home
09. A Little Time
10. When The Sinner
11. Different Ways
Gravadora: Hellion (nacional)
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Paulistano, são-paulino, nascido nos "loucos anos 70" (1979 ainda é década de 70, certo?) e jornalista. Sua profissão já o levou a cobrir momentos antológicos da história da humanidade, como o título paulista do São Caetano, a conquista da Copa do Brasil pelo Santo André, a visita de Paris Hilton a São Paulo e shows de bandas como Judas Priest, Whitesnake, W.A.S.P., Megadeth, Slayer, Scorpions, Slipknot, Sepultura e por aí vai. Ainda tem muito gás para o nobre ofício jornalístico, mas acha que não vai muito mais longe depois de ter entrevistado Blackie Lawless, Glenn Tipton, Rogério Ceni e, claro, Paris Hilton.
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