Diz-se por aí que do melhor ao pior, do que há de mais banal ao esmeradamente polido, da absoluta unanimidade à chacota popular, da estranha veneração ao suntuoso apedrejamento público circunvizinha um certo grupo norte-americano oitentista de rock pesado, oriundo da costa oeste do país que inventou o estilo, famosa pelo menos em função da suspeita de ser antro de perdição e glamour. Diz-se por aí também que grande parcela dos fãs em particular desse estilo são reconhecidamente ignóbios, usuários de arreio, cabresto, brida e rédea, irresponsivos à espora, que seguem às cegas um culto insano ao que, pelas convenções da música (aquelas convenções que garantem unanimidade a Sebastian Bach), não passa de um espetáculo tosco regado a tudo que há de pior em termos de performance musical. É sabido também que o heavy metal em particular é duramente criticado pela imprensa musical clássica, que considera o estilo um circo bizarro e de mau gosto armado numa das portas do fundo do rock and roll tradicional, enquanto, segundo os pormenores dessa imprensa, grande massa de zumbis incoerentes fletem seus crânios vazios contra seus bustos e erguem aos berros seus segundo e quinto dedos permeados por suas esvoaçantes cabeleiras mal cuidadas de hoje e de sempre. Esse preconceito é revoltante, mas há infelizmente alguma verdade nele. Por outro lado, a imprensa especializada nesse estilo segue vorazmente todos os conceitos errados, todos os clichês, todas as incoerências desses fãs e assim contribuem para que o heavy metal permaneça como o mais pejorativo dos estilos. Quem está certo, a imprensa especializada em metal ou a tradicional? TEM QUE EXISTIR UMA VERDADE SOLTA POR AÍ...
O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

À moda da díade "Speech to Me/Breath" do quarteto psicodélico londrino (agora desfalcado, infelizmente), o prelúdio do álbum é ruidoso, acompanhando sístoles cardíacas. Tem início “That was Just your Life”, num maneirismo absolutamente quebrado, com ritmo de cordas cheio e percussão assimétrica. O riff principal mistura thrilling com notas curtas e tem como bridge para refrão a decomposição patognomônica do thrash. Aliás, o investimento dessa faixa é todo no chorus, forte e nitidamente voltado para apresentações ao vivo. O interlúdio é oitentista e o solo é curto e leviano. A temática é abstrata e, liricamente, bastante eficaz. As vocalizações nos versos não agradam, meio que desacompanham o riff, além de ser muito baixo o mix da voz. A faixa é progressiva e forte.
“The End of The Line” é construída sobre o clássico conceito de crescendo-decrescendo/decrescendo-crescendo de instrumentos de frente e verso, respectivamente. Contém intervalos sem cordas, com o acompanhamento mantido, nesses breves momentos, por contrabaixo e por bumbo/cimbal. Acresce-se melodia, que deriva do timbre do riff, além de versos tetrassílabos/heptassílabos homogêneos, produzindo como resultado um único e nostálgico sentimento old. A introdução traz três linhas de guitarra diferentes, duas das quais não aparecem em outros momentos da faixa e o riff que degenera para o que acompanha a letra é surpreendente. A transição verso-ponte-refrão tem um slowed tempo de aproximadamente 0.5, o que imprimiu boa sensação, e o terço final do chorus não ficou bom. Já o interlúdio é interessante: traz uma repetição em guitarras cruas de toda trajetória da música e tem no ápice um wah-wah algo gritado. Segue-se diminuto acústico e novo solo límpido. A faixa é muito interessante, mas versa sobre violência e a letra é simplesmente vergonhosa.
Prenunciada por surdos e bumbos que têm por função multiplicar as investidas à última corda, “Broken, Beat and Scared” dá passagem a um riff 3 por 2 (que é o mesmo que sucede cada refrão), o que gera um acompanhamento comum, mas eficiente. O efeito dessa introdução é bem legal. A construção versal é criativa, e usa do artifício da reverberação, com duas estrofes que se repetem em melodia distinta, só que sem as preposições/pronomes acompanhando os respectivos substantivos na segunda vez. Ponte e refrão simplesmente não soam bem, conquanto o solo que se siga seja límpido e o interlúdio contenha três riffs muito criativos. Letra e temática são puro clichê, portanto muito ruins.
A sensação que gera “The Day that Never Comes” é no mínimo interessante. Sorrateiramente, a faixa começa com um timbre de cordas quase místico e um solo introdutório na fonte direita dotado de muito ineditismo. A vocalização é totalmente moderna, mas no geral existem referências NWBHM, maelsbeat, progressivas e de british seventy rock por toda ela. O refrão é marcado por oito ataques à caixa e guitarras speed. Aliás, Lars tem aqui sua melhor performance no álbum. Após a primeira repetição, a faixa surpreendentemente descamba para o thrash com referências ao tradicional, às quais somam-se duetos, brilho e modificações muito agradáveis de ritmo. Um riff em especial dessa porção é o melhor em todo o disco (início aos 5 min e 45 seg) e produz um caractere arrítmico e atordoado que deixa o ouvinte algo desconfortável. Ao fim desse thrashy, a conclusão é de que é preciso muito trabalho e capacidade de composição para encaixar tantos riffs e solos completamente diferentes sem que a faixa pareça desconexa e retalhada. Ademais, a canção é liricamente passável.
“All Nightmare Long” denota um estilo percussivo e quase tribal, por início em baixo, com guitarras que vão sendo acrescidas sem modificações desses alicerces. O produto gerado é agradável, de “música sobre música”. O riff primordial é excelente, palhetado até o exato ponto que o vocal execra “out”, a partir daí trabalhando com notas longas para ocupar o fundo das estrofes em crescendo. A ponte é ruim, mas o refrão é muito bom; seis notas juntas na medida do vocal. Num todo, o clima gerado é dramático, remetendo ao onírico. O solo é particular, com timbre de bom gosto e mui original. Liricamente, a faixa é simplesmente constrangedora.
Três-três-três de guitarra base e wah-wah iniciam “Cyanide”, que depois é compassada pelo mesmo groove por todos os seus mais de 6 minutos, sem variações. O riff que ancora tudo é quase o mesmo da reconhecidamente revolucionária e extremamente imitada Eye of The Beholder, só que de trás para frente. No refrão, a melodia vocal segue à risca a da guitarra-base, o que não é ruim. A letra é pouco original, ineficiente, despropositada e desconcertante. O interlúdio é gratificante, todavia, e tem linhas de guitarra blues em fast tempo muito criativas. O produzido aqui é o “resposta de cordas ao vocal”: enquanto a levada tipo american funk continua, a guitarra segue a cada duas frases uma estrutura blues rock cativante.
Pianno-black, cordas e metais introduzem “Unforgiven III”, levada a cabo numa proposta muito melancólica. Destaque para a linha de guitarra que acompanha o refrão. As demais porções incluem uma levada saloon jazz/R&B e solos de guitarra progressiva, mas trivial. No geral, outra faixa boa, bem melhor que sua segunda versão, conquanto bem pior que a faixa original constante no Black Album. O terço final da música é feeling incrustado em thrash moderno, com frases que são derivadas da melodia acústica da introdução.
A progressiva “Judas Kiss” é cheia de focos e núcleos thrash e também de blues rock, com variações suficientemente eficientes para fazerem a faixa vingar. O riff primordial é curioso, mas a linha vocal no inter-refrão é pouco criativa. O chorus é uma dangerous-track muito perniciosa que passa uma malícia ímpar. A partir dos 4 minutos, surge um conjunto muito eficiente de conceitos que fazem desse o melhor interlúdio do álbum. Muito blues e enviormental guitar, com riffs sempre muito inteligentes. A ligação é direta com o excelente chorus, que encerra a faixa.
“Suicide and Redemption” é uma longa e dramática peça thrash e o continum da música vem de uma levada típica da Bay Area. Dez minutos foi muito para faixa, e a mesma ficaria melhor se as duas levadas iniciais fossem repetidas apenas duas vezes. O desenho desse produto é o de uma torre, com o cerne sendo a linha de cordas do início. No alto dos 3 minutos e quarenta segundos, essa crossover eficiente fica simplesmente fantástica, com riffs diferentes a cada 30-40 segundos, solos inspirados (destaque para o das 6 e 20). Num todo é tudo muito acima do nível e temos aqui mais riffs criativos e de qualidade que álbuns recentes inteiros de famosas bandas de metal. Na soma geral, a melhor do álbum.
O epílogo em speed metal, uma faixa-irmã de Dyers Eve e Damage Inc, “My Apocalipse” simplesmente peca pela falta de originalidade. As últimas músicas de MoP e AJFA soavam inovadoras naquela época. Não mais. A letra é indescritivelmente constrangedora. É uma faixa muito técnica, possivelmente inexecutável sem falhas ao vivo, mas o volume de clichês nela é desconcertante. Se comparada a The Call of Ktulu, Struggle Wthin e Outlaw of Torn/Fixxxer, que encerram outros álbuns do grupo, essa é imensamente inferior, especialmente em termos de originalidade.
Por fim, consta que o que tranqüiliza quem aprecia a música desses quatro ianques é a origem da crítica. Quem fala costuma estar apegado àquilo que há, comprovadamente, de pior nesse estilo. Quem critica está para música assim como filmes como O Boneco Assassino estão para o cinema. É triste: QUANDO ALGÚEM TENTA MELHORAR A IMAGEM DO HEAVY (como o Metallica), A IMPRENSA BURRA CAI EM CIMA. Que receba o perdão divino quem vos fala, mas parece que a imprensa e os fãs de metal não querem sair do ridículo, do atraso, deixar de ser motivo de riso, de chacota. Chega a ser irritante. Malogrado a crítica heavy, insana e patética, tudo por que passou esse grupo foi absolutamente proveitoso. Incluindo os flertes com o Indy, o Post, o Blues e o Stone Rock em Load às referências Folk e alternativas em Reload. Tudo isso vai permitir a esses músicos um som muito particular no futuro. UM POUCO DISSO ESTÁ EM DM, conquanto tanto fez o moço que a banda acabou rendendo-se em alguns aspectos nesse novo álbum, especialmente na temática. Essa banda é uma das poucas que pode se gabar de ser absolutamente variada, assuntando que KEA se parece pouco com RTL, que se parece pouco com MoP, que nada tem a ver com AJFA, que nada tem a ver com BA e que nada tem a ver com Load/Reload. E quem aprecia música sabe o quão valoroso isso é. Todo grupo de relevância costuma apresentar ciclos criativos em sua carreira. O Metallica teve um primeiro que se iniciou em Kill’Em All e findou-se em Justice. O segundo ciclo começou no álbum homônimo e terminou no Reload. DM dá início a um novo ciclo. Que esse ciclo desenrole e não vire um CÍRCULO repetitivo, sisudo, chato. Que esse ciclo continue nessa jornada quase impossível de tornar o heavy metal menos pejorativo, menos constrangedor, menos alvo de preconceitos e menos involuntariamente cômico...
FICHA TÉCNICA:
Título: Death Magnetic
Grupo: Metallica
Selo: Universal Music
Lançamento: 12/09/08
Performance e Composição: James Hetfield (v/rg/c); Lars Ulrich (d/p); Kirk Hammet (rg/c/lg); Robert Trujilo (b/lb)
Produção: Rick Rubin
Faixas: 10
Duração: 73’61’’
Rótulos: Rock; Heavy Metal; Thrash Metal; Power Metal; Progressive Metal; 80’s Metal
Referências Assessórias: American Funk; Blues Rock; Synphonic Rock;
Alcunhas Preponderantes: Agressivo; Thrilling; Cheio; Pesado; Complexo; Pretensioso; Nostálgico; Introspectivo; Audição Difícil; Longo; Percussivo; Quebrado; Descompromissado
Preço Aproximado: R$ 32,00
Relevância: 100%
Avaliação: Bom (Escala: Péssimo-Ruim-Regular-Bom-Ótimo-Excelente)
Destaque Positivo: Guitarras
Destaque Negativo: Temática e letras
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