Para tentar entender o trabalho do documentarista canadense Sam Dunn, vamos fazer um exercício: imagine que Michael Moore (“Fahrenheit 11/09”) ou Morgan Spurlock (“Super Size Me”) tivessem se tornado devotados fãs de heavy metal desde os 12 anos de idade e, depois de formados antropólogos, resolvessem fazer um filme que respondesse à seguinte pergunta: “por que o heavy metal até hoje é um gênero musical tão descriminado e estereotipado?”. Se tudo isso tivesse acontecido, Moore ou Spurlock teriam se tornado... Sam Dunn.
Nota: 10 









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O primeiro acerto de Dunn é, justamente na introdução, ao não prolongar a eterna discussão sobre qual teria sido a primeira banda de heavy metal e todos os “comos”, “ondes”, “quandos” e “porquês”. Embora cite o Black Sabbath como marco zero por ter sido pioneiro na utilização do trítono (efeito dissonante de intervalo entre alturas de duas notas musicais que possuam exatamente três tons inteiros), considerado satânico na Idade Média, ele ainda volta décadas atrás para mostrar que músicos como o próprio Toni Iommi e Geddy Lee (vocalista do Rush) se dizem claramente influenciados pelos riffs arcanos do blues – não por acaso, outro gênero musical surgido como uma espécie de “voz dos excluídos”. Ainda hoje, o heavy metal seria a alternativa musical para aquele garoto que se sente estranho, diferente, um alienígena em sua própria escola, vizinhança ou família, que não consegue se encaixar em nenhum padrão pré-estabelecido.
Deixando o trabalho de historiador de lado, o documentarista opta por jogar os holofotes no fenômeno social do heavy metal. Além de sociólogos, psicólogos, produtores musicais, donos e executivos de gravadoras e fãs, o filme mostra entrevistas com artistas variados como Lemmy (Motörhead), Alice Cooper, Ronnie James Dio (que faz duas excelentes tiradas a respeito da veia mercadológica de Gene Simmons, do Kiss), Slipknot, Lamb of God, Tom Morello (Rage Against The Machine/Audioslave), Rob Zombie e, é claro, um dos maiores ídolos de Dunn, o simpático baixinho Bruce Dickinson, do Iron Maiden – em um momento no qual o diretor/protagonista tem que se controlar e deixar o lado antropólogo falar mais alto antes que o lado fã trouxesse sua coleção completa de vinis para autografar.
Assim como no documentário “Heavy Metal: Louder Than Life”, o vocalista do Twisted Sister, o sempre folclórico Dee Snider, rouba a cena ao comentar a perseguição que os grupos do gênero sofreram na década de 80, acusados de incitar a violência e o suicídio. A memorável cena de arquivo que mostra Snider chegando para depor no conselho de pais criado pelo Senado e comandado por Tipper Gore (esposa de Al Gore, ex-vice presidente dos EUA e atual salvador do planeta com o documentário “Uma Verdade Inconveniente”) foi um verdadeiro achado.
De calças apertadas, maquiagem nos olhos e aquele bizarro cabelo revolto celebrizado no clipe de “We’re Not Gonna Take It”, Snider adentra o recinto arrancando risos dos sisudos políticos de terno e gravata. Mas surpreende a todos quando abre a boca e refuta um a um, de maneira inteligente e articulada, todos os argumentos ali apresentados, deixando claro que a interpretação do significado de cada letra é muito subjetiva. “Se Tipper Gore está enxergando quaisquer referências ao sadomasoquismo, isso deve estar na cabeça dela”, sugere Snider, em tom provocativo. O mesmo vale para o Cannibal Corpse, que dispara direto e reto aos críticos de suas letras brutais e de suas capas sangrentas: ”Acho que a CNN incentiva a violência mais do que nós. Aqueles demônios abrindo os corpos das pessoas e expondo suas entranhas pelo menos não existem no mundo real”.
Os pontos mais altos, no entanto, são dois, surgindo na seqüência em plena segunda metade da película. O primeiro deles, um tanto mais descontraído, é justamente a discussão a respeito do machismo e da presença das mulheres no metal. Embora a conclusão ululante de que se trata de um mercado essencialmente masculino seja levantada a princípio, Dunn vai atrás dos grupos que deixaram o visual selvagem e quase bárbaro para adotar, justamente para protestar e chocar, os lenços, laquês e lápis nos olhos das mulheres. É a hora do glam metal. Snider brinca: “Era minha namorada, atual esposa, quem me vestia. E eu queria sempre mais. ‘Uma blusa de renda? Vai fazer as pessoas me odiarem mais? É isso!’”. E é Vince Neil, a voz do Mötley Crüe, quem explica: “Ainda assim, estávamos sempre cercados de mulheres”.
Mas as veteranas do Girlschool e a poderosa Angela Gossow – cuja voz gutural à frente do Arch Enemy bota qualquer aspirante a Max Cavalera no chinelo - deixam claro que existe espaço para que as meninas também botem para quebrar, servindo de exemplo positivo para as jovens garotas que começam a se interessar pelas quebradeiras metálicas. ”Estas mulheres sabem beber e divertir na estrada tanto quanto eu e você”, revela Lemmy, aos risos, falando a respeito das colegas de turnê do Girlschool.
A seguir, ”Metal: Uma Jornada Pelo Mundo do Heavy Metal” ganha tonalidades mais sóbrias e uma abordagem mais séria, quando Dunn passa a falar da obsessão metálica pelos temas religiosos e, é claro, pelo satanismo. Tom Araya, do Slayer, tenta explicar como concilia seus preceitos cristãos com as ácidas críticas à Igreja Católica feitas por sua banda. E o nosso apresentador pega um avião direto para a Noruega, onde vai falar pessoalmente com Jørn Tunsberg, antigo membro do Burzum, parceiro de Varg Vikernes e atual cabeça do grupo Hades Almighty. Aqui, cabe uma mini-aula de história musical: o Burzum era uma das bandas que encabeçavam o círculo principal de um fortíssimo cenário de black metal norueguês, responsável pelo incêndio em uma igreja histórica na cidade de Bergen, em 1993. Tunsberg passou algum tempo na cadeia por isso, enquanto o amigo Vikernes continua por lá – desta vez, pelo assassinato de Euronymous, músico do Mayhem. Entendeu por que o assunto pede mesmo um ar mais sombrio?
Fugindo do sensacionalismo e contrapondo as opiniões de Tunsberg – cuja assertividade no olhar chega a ser assustadora - e de um padre que esteve presente quando o prédio se consumiu em chamas, o cineasta revela uma faceta mais extrema do heavy metal. Mas, sem entrar em qualquer juízo de valor ao dizer que Burzum, Mayhem e demais estariam certos ou errados, ele consegue conduzir acertadamente sua linha de raciocínio de maneira a mostrar que nem todos os fãs de heavy metal são iguais, têm as mesmas crenças e se comportam da mesma forma. Entre nós, a variedade impera – assim como em qualquer outro movimento cultural e social.
No papel de headbanger desde a adolescência, vejo ”Metal: Uma Jornada Pelo Mundo do Heavy Metal” como um retrato justíssimo de uma “tribo” da qual faço parte. No papel de fã e crítico de cinema, vejo ”Metal: Uma Jornada Pelo Mundo do Heavy Metal” como uma obra inteligente, carismática e bem-acabada, que não toma partido mas ao mesmo tempo transborda genuína paixão. Afinal, você pode continuar não gostando de heavy metal. Pois estamos muito bem sem você.
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Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.
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