Para ser enquadrada como grande, uma obra precisa estabelecer conexões profundas com as pessoas. E quem diria que um disco feito somente como diversão entre amigos iria atingir tal feito? No começo da década de 80, o Corrosion Of Conformity (C.O.C.) e o Dirty Rotten Imbeciles (D.R.I.) estavam na vanguarda do chamado Crossover, mas foi o Stormtroopers Of Death, vulgarmente conhecido como S.O.D., que mais atraiu interesse público, mesmo não sendo tão politicamente sensato como seus conterrâneos.
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Curiosamente, a opção para a voz recaiu sobre alguém que nunca havia cantado anteriormente. Billy Milano estava tocando baixo no The Psychos e era um bom amigo, tanto que já fora roadie do Anthrax, e sua voz se encaixaria perfeitamente no esporro que estava por vir. No contrabaixo assumiu Dan Lilker, do Nuclear Assault, que era outra importante figura do underground nova-iorquino. Com este time, no mesmo ano testaram e aprovaram mais algumas canções, que foram gravadas por Scott Ian e Alex Perialas em apenas uma semana.
"Speak English Or Die" (e o título, passível de várias interpretações, continua tão atual!) foi lançado pela Megaforce Records e é considerado como um dos primeiros grandes álbuns de crossover entre o Heavy Metal e o Punk, executados com tal paixão, energia e intensidade – ou apenas uma zona descompromissada, que muitas vezes beira o ridículo? – que conquistou adeptos entre headbangers, punks e a galera do hardcore. Sua música, rápida e agressiva, consegue até os dias de hoje refletir toda a cultura conflitante dos grandes centros urbanos.
Com 22 canções que não ultrapassavam meia hora de audição – as mesmas variavam dos dois minutos e meio aos meros cinco segundos – "Speak English Or Die" foi inesperadamente ultrapassando as fronteiras dos Estados Unidos e avançando pelo underground mundial, conquistando fãs com sua música ou chamando a atenção pelas pesadas críticas em relação à impulsividade de suas letras, que abordavam temas como política, cotidiano e violência, mas muitas vezes com um (controverso) senso de humor, encarado por muitos como ofensivo, o que resultou em serem taxados de racistas, sexistas ou, na melhor das hipóteses, apenas como grandes sacanas.
Toda esta a reação contrária procedia, pois algumas canções deixam dúvidas sobre serem piadas mesmo, como o conteúdo explicitamente anti-imigrante da faixa-título, ou o S.O.D. destilando sua raiva sobre o Oriente Médio em "Fuck The Middle East". E, por mais contraditório que fosse, em oposição a todo o possível preconceito destas letras, a banda instigava a união entre punks, skinheads e headbangers no hino "United Forces". Então, talvez a atitude mais sábia mesmo seja encarar tudo como uma grande gozação, mesmo que impregnada de certa imaturidade.
Mas o quarteto também acerta no nível de várias das piadas, como na velocíssima "Milk”, que atraiu muito interesse pela letra bem sacada, sem contar que Charlie Benante mandou uns 'blastbeats' (em 1985!) bem legais; ou ainda "What's That Noise", com Milano implorando por intervenção divina para combater toda a estática da canção. De qualquer forma, não é só na irreverência de algumas de suas letras que reside a força deste álbum. Há vários momentos perfeitos para o mosh, como a abertura instrumental "March Of The S.O.D.", "Sargent D & The S.O.D.", "Kill Yourself", "Milano Mosh", "Chromatic Death", "Pussy Whipped" e "Freddy Krueger" (aquele personagem todo queimado que fez muito sucesso nos cinemas da década de 80), que se mostra a canção mais ‘normal’ de todo o disco.
Se houve várias críticas sobre o tamanho das composições, com o argumento de que traziam excelentes riffs que não foram devidamente desenvolvidos por Scott Ian e cia, então imaginem o que se falou sobre as explosivas micro-canções (ou ruídos para os ouvidos mais sensíveis)... Que tal pérolas de longos cinco segundos na "Ballad Of Jimi Hendrix", com a ‘introdução’ de "Purple Haze", seguido da frase ‘You's dead!’; ou "Diamonds And Rust", numa ‘extensa’ versão originalmente gravada por Joan Baez e também imortalizada pelo Judas Priest?
Embora dividindo opiniões, nada conseguiu impedir que um simples projeto atingisse tanta popularidade, possibilitando que "Speak English Or Die" fosse enquadrado como um clássico em seu estilo, e a banda, uma entidade. Tanto que, em 2000, como comemoração por atingirem a expressiva venda de um milhão de cópias, o S.O.D. libera outra edição do álbum, agora com uma capa prateada simulando um disco de platina, com uma infinidade de faixas-bônus, merecendo atenção toda especial as canções gravadas ao vivo no Japão, que mostram toda a força que o grupo adquire sobre os palcos.
O Stormtroopers Of Death não durou muito mais... O real motivo nunca ficou claro, tanto que cada um de seus integrantes alega um motivo diferente. Fizeram apenas umas poucas apresentações e liberaram o disco ao vivo “Live At Budokan” em 1992, e somente em 1999 lançaram outro disco de estúdio, “Bigger Than The Devil”, que não conseguiu a mesma repercussão desta pérola.
Billy Milano até criou o M.O.D. (Methods Of Destruction) depois que o S.O.D. debandou, tentando seguir a mesma linha musical, e até conseguiu, mas também não atingiu a mesma popularidade dos velhos tempos.
Stormtroopers Of Death - Speak English Or Die
(1985 - Megaforce Records)
01. March Of The S.O.D. - 1:27
02. Sargent D & The S.O.D. - 2:23
03. Kill Yourself - 2:11
04. Milano Mosh - 1:32
05. Speak English Or Die - 2:24
06. United Forces - 1:53
07. Chromatic Death - 0:43
08. Pi Alpha Nu - 1:09
09. Anti-Procrastination Song - 0:06
10. What's That Noise - 1:00
11. Freddy Krueger - 2:32
12. Milk - 1:54
13. Pre-Menstrual Princess Blues - 1:20
14. Pussy Whipped - 2:14
15. Fist Banging Mania - 2:04
16. No Turning Back - 0:52
17. Fuck The Middle East - 0:27
18. Douche Crew - 1:35
19. Hey Gordy! - 0:07
20. Ballad Of Jimi Hendrix - 0:05
21. Diamonds And Rust (Extended Version) - 0:05
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Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".
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