Resenha - A Matter Of Life And Death - Iron Maiden

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Resenha - A Matter Of Life And Death - Iron Maiden


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Quando uma banda do porte do Iron Maiden lança alguma coisa, quanto mais um trabalho inédito de estúdio, é claro que todas as revistas, jornais, sites e demais mídias que tratem do assunto têm que publicar o mais rápido possível, e por motivos óbvios, suas impressões acerca de tal obra. Todavia, após um determinado tempo do lançamento de um álbum, depois que o mesmo deixa de ser uma novidade, torna-se um pouco mais fácil fazer uma avaliação.

Nota: 9

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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O fato é que “A Matter Of Life And Death” definitivamente não é um álbum fácil de ser ouvido. Para alguém acostumado à raiva de um “Killers” ou à velocidade de um “Powerslave” então, a coisa torna-se mais difícil ainda. Mesmo levando-se em conta o que poderia se considerar como alguns deslizes, ao se ouvir essa obra duas, três, seis, vinte vezes, o indivíduo vai percebendo, a cada nova audição, uma nuance diferente, um detalhe não percebido antes em determinada parte da música, que fazem desse o melhor trabalho do Maiden em anos.

Trata-se de um disco com peso, porém cadenciado e que, apesar das influências claras de rock progressivo, está longe de poder ser chamado de ‘prog metal’. Na verdade, a banda parece, enfim, ter atingido algo que, ao que se imagina, sempre buscou, que é conseguir unir o seu heavy metal clássico ao som levado adiante por alguns de seus maiores ídolos e que serviram de influência durante toda a sua trajetória. Só que, ao contrário do que tal afirmação poderia dar a entender, o sexteto capitaneado por Steve Harris não pegou leve e concebeu um dos trabalhos mais pesados de sua carreira.

As características clássicas do Iron Maiden estão lá. Guitarras dobradas, riffs e linhas de baixo cavalgadas, mudanças de tempo. Também estão presentes coisas que se tornaram motivo de reclamação de vários fãs e detratores da banda, como as introduções lentas, com dedilhados conduzidos sobre uma linha de baixo, além dos refrões repetidos várias vezes. Entretanto, ainda que as dez músicas seguissem essa padronização, não é isso que faz uma canção boa ou ruim. “Hallowed Be Thy Name” é uma das maiores músicas da história do heavy metal e segue uma linha de introdução bem parecida com a supracitada. “Wrathchild”, “Running Free” e até “Run To The Hills” são clássicos absolutos da banda onde o refrão também é repetido várias vezes.

Outra coisa que pode incomodar alguns fãs é o andamento mais lento que o Maiden imprime às suas canções mais recentes, mas também não é isso que tira o brilho de “A Matter Of Life And Death”.

A história começa com “Different World”, a faixa mais curta do álbum e também a de mais fácil assimilação à primeira ouvida, onde o Maiden mostra que bebeu na fonte do lendário Thin Lizzy. Além de um belo dueto de guitarras e um ótimo solo de Adrian Smith, o que chama atenção na música é justamente algo pelo qual ela foi muito criticada, que é a linha vocal adotada por Bruce Dickinson, que apesar de atingir tons bem altos no refrão, como de costume, destaca-se mais pela melodia vocal diferente e interessante, em tons mais baixos, que faz na ponte antes do refrão.

“These Colours Don’t Run” flerta um pouco com o hard rock e possui um refrão daqueles a ser cantado em uníssono pelos fãs, além de um trabalho muito bem feito com os teclados. Steve Harris espanca as cordas de seu baixo e os dois solos da música são bem executados. O senão fica pelo coro antes da última passagem pelo refrão, que dessa vez poderia ter sido dispensado, pois não consegue o mesmo efeito de uma “Heaven Can Wait”, por exemplo.

A seguir somos brindados com uma das melhores composições do Maiden nos últimos tempos. “Brighter Than A Thousand Suns” se destaca pela introdução, pela letra, pelo riff pesadíssimo, pelos vocais inspirados de Bruce Dickinson, pelo andamento totalmente diferente do habitual para o Maiden, pelas mudanças de tempo, pelos solos muitíssimo bem encaixados no clima da música, pela excepcional exploração dos teclados, pela bateria de Nicko McBrain, que entrega nessa música o seu melhor trabalho com as baquetas em muitos anos. A melhor do disco.

Já em “The Pilgrim” vemos um ensaio de retorno às origens, uma canção repleta de guitarras melódicas, um refrão bem ‘feliz’ para os padrões do Maiden e Bruce, mais uma vez, arrebentando nos vocais. Canção simples, nada de espetacular, mas bem legal.

A canção seguinte, “The Longest Day”, passa com sua introdução o clima perfeito para o que está sendo cantado, com sua letra sobre o desembarque das tropas aliadas na Normandia durante a Segunda Guerra Mundial. Aliás, se tem algo que o Maiden faz como poucos é conseguir criar uma sonoridade em sintonia absoluta com a história que está sendo contada na letra. A seguir explode num som pra levantar qualquer estádio e num refrão que, embora repetitivo, não chega a cansar. E, por falar em repetitivo, tenho que dizer que Bruce Dickinson consegue, de novo, uma performance acima da média. É algo impressionante o que ele faz com sua voz até hoje. Mas o melhor da música são suas passagens instrumentais na segunda metade, onde consegue ao mesmo tempo soar extremamente pesada e com toques de progressivo, fazendo qualquer um lembrar logo de Rush.

A sexta faixa, “Out Of The Shadows” começa com uma introdução pesada, que deságua numa balada com potencial radiofônico, apesar de soar um pouco progressiva, e um bonito refrão, mas, aqui sim, desnecessariamente repetitivo. Só que o que dá a maior beleza da música não é nem o vocal e nem o solo principal, levado com muita competência por Adrian Smith. É justamente a discreta melodia de guitarra que Dave Murray conduz por baixo dos vocais durante o refrão. É algo tocado com um sentimento que impressiona.

“The Reincarnation Of Benjamin Breeg”, a primeira música que se conheceu desse trabalho, a despeito do que se falou de negativo sobre ela, é uma das boas composições do álbum, justamente por sua simplicidade. A introdução lenta e longa, algo, como já dito, sempre criticado por alguns fãs e detratores da Donzela, pode até soar cansativa, mas cria um clima especial, que vai de encontro à letra e que é a deixa perfeita para o riff seco que entra na seqüência. E Mr Air Raid Siren (ele, mais uma vez) dá um show de interpretação e de capacidade técnica, cantando em tons que vão crescendo, até atingir níveis bem altos. A levada é bem interessante e Dave Murray entrega mais um solo excelente. Boa música.

Ao se ouvir “For The Greater Good Of God”, tem-se logo a lembrança do álbum “The X Factor” e a música tem várias partes que remetem a “Sign Of The Cross”. Só que aqui a grandeza da composição é maior, as melodias são mais belas, o tom de lamentação em várias passagens do vocal cai como uma luva na interação com a letra e com o instrumental que, aliás, é responsável nessa música por alguns dos melhores momentos de “A Matter Of Life And Death”. O refrão é repetido à exaustão, mas não chega a comprometer a música. Uma epopéia. Excelente canção e candidata a clássico, embora não tenha nada de original.

Eis que aparece “Lord Of Light”, uma pérola discretamente colocada mais para o final do CD. Com seu início também influenciado por algo de progressivo, desemboca num riff matador, seguido pela música mais veloz, em termos de andamento, do álbum, que consegue um resultado final absurdamente eficiente. E é nessa canção que Bruce tem o seu melhor momento no disco. Na verdade, Dickinson não se destaca apenas pelas notas que consegue atingir mas, sobretudo, por sua capacidade de variar tons, de criar um clima baseado no que diz a letra e na beleza de sua voz.

A faixa de encerramento, “The Legacy”, é também a música mais original do álbum e talvez da carreira da banda. O Maiden jamais fez algo sequer parecido com essa canção. Com suas influências de música celta, a bela introdução com violões, os experimentalismos no vocal, as passagens que em alguns momentos lembram Led Zeppelin e em outros lembram Black Sabbath, mas que sempre trazem aquela coisa que faz o indivíduo ouvir e saber que é Iron Maiden, é um fechamento digno para um grande trabalho.

A produção desse álbum é bem melhor que a de seu antecessor, “Dance Of Death”, provavelmente o melhor trabalho de Kevin Shirley com o Maiden. Mas ainda há como melhorar, principalmente a sonoridade das guitarras. Guitarras que conseguiram chegar ao seu melhor entrosamento desde o início dessa formação. Até o contestado Janick Gers, além de segurar muito bem a onda durante os riffs, partes acústicas e tudo o mais, compareceu com seus melhores solos no Maiden, além de assinar uma das melhores do álbum, “The Legacy”. E as letras não poderiam ser mais diretas e atuais, quando pensamos no que acontece no mundo atualmente.

Ainda não dá pra saber qual será a posição de “A Matter Of Life And Death” no contexto histórico do Iron Maiden. Imagina-se que será sempre um disco que dividirá opiniões, as quais existirão aos montes e haverá quem mantenha a sua impressão inicial e quem mude de idéia sobre o álbum com o passar do tempo. A mim, foi um trabalho que agradou muito, desde a primeira vez que ouvi, mas que se consolidou mesmo com o tempo e com várias audições. É um álbum que, quanto mais o tempo passa, parece ir ficando melhor. Um disco que apresenta uma grande homogeneidade entre as canções e que mostra que a Donzela ainda tem muita lenha pra queimar. A banda trouxe algo de novidade ao seu som, ainda que não seja uma revolução musical. Só que este é um trabalho melhor e mais consistente que muita coisa que se vê por aí atualmente. Steve Harris disse que sempre pensou em gravar 15 álbuns com o Maiden. Portanto, faltaria apenas um. Quem sabe agora ele já não tenha mudado de idéia. Pois todos sabemos que o Maiden não é para sempre, mas o dia em que encerrarem as atividades, eu sentirei falta e tenho certeza que não serei o único.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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