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Karmacode - Lacuna Coil

Por Ricardo Seelig | Em 24/09/06
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Após uma espera de quatro anos, o Lacuna Coil finalmente lança o sucessor de “Comalies”, de 2002. A demora entre um disco e outro foi bem aproveitada pela banda, que excursionou por todo o mundo no período, focando seus esforços principalmente no mercado norte-americano, aproveitando a atenção dada pela mídia ao Evanescence, e que abriu muitas portas para bandas com vocais femininos. Todo este empenho gerou frutos, como o crescimento do Lacuna Coil na terra do Tio Sam (onde os seus primeiros discos foram relançados) e o convite para participar do Ozzfest, a maior vitrine da música pesada nos Estados Unidos.

Nota: 5

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Este foco demasiado na América do Norte, como não poderia deixar de ser, influenciou a banda. O som apresentado nas doze faixas de “Karmacode” é diferente do que o Lacuna Coil vinha fazendo nos seus três discos anteriores. O apelo pop cresceu, as guitarras estão carregadas de influências do chamado new metal (afinações em tons mais baixos, riffs mais minimalistas), o baixo está totalmente na cara, enfim, há uma infinidade de novas características no som do grupo italiano, e que não estavam presentes nos lançamentos anteriores.

Se no passado o Lacuna Coil brilhava não apenas na cena gothic, mas em todo o cenário da música pesada, pelas características únicas de seu som, infelizmente em “Karmacode” o grupo saiu dos trilhos, e o que se ouve no álbum mais parece um produto manufaturado em série com o objetivo de conquistar os corações adolescentes que eudeusam nomes como o já citado Evanescence, Good Charlotte, Linkin Park, Simple Plan e afins, do que reafirmar a posição da banda entre o público que lhe deu visibilidade em todo o mundo, que é o público fã de heavy metal.

A mudança de foco, de direcionamento, ou, se preferirem, de público-alvo, a curto e médio prazos será benéfica para a banda, que venderá muito mais discos (“Comalies”, o álbum anterior, foi o mais vendido da história da gravadora Century Media, com mais de quinhentas mil cópias em todo o mundo. “Karmacode” vai, com absoluta certeza, superar estes números, e com folga); ganhará uma exposição muito maior na grande mídia, rompendo os limites dos veículos especializados; lucrará com a imagem da vocalista Cristina Scabbia, que não surpreenderá ninguém se, em menos de um ano, estiver fazendo ensaios de moda em revistas como Vogue; enfim, entrará muito mais dinheiro na carteira de cada um dos seis integrantes na mesma proporção em que as tão famosas “divergências musicais” surgirão pelo caminho.

Mas e a música, como fica? Ainda que esta minha visão pareça radical demais à primeira vista, a escolha por um público que se guia muito mais por características casuais, ouvindo apenas o que está na moda, em detrimento aos fãs que estiveram ao lado da banda desde o início, é arriscada demais. Já vimos isso acontecer inúmeras vezes, e o maior exemplo disso é o Metallica, que apesar de ter vendido milhões de cópias mundo afora até hoje luta para ter de volta o respeito que perdeu junto aos fãs, tentando recuperar o valor artístico de seus primeiros discos. O Lacuna Coil seguiu os passos lógicos do mercado, preferindo uma trajetória que tem tudo para ser mais efêmera, em detrimento à construção de uma carreira sólida, disco após disco, junto aos fãs.

Tudo em "Karmacode" soa pasteurizado demais. "Our Truth", primeiro single, presente também na trilha do filme "Underworld: Evolution", parece sobra do disco de estréia do Evanescence. Outras canções, como "Fragile", vêm carregadas de uma suposta "atitude" que só convence mesmo um adolescente mal informado. A cover de "Enjoy The Silence", do Depeche Mode, é risível. Bons momentos? A balada "Without Fear", cantada em italiano por Scabbia, até passa, mas no geral o trabalho apresentado pelo Lacuna Coil em "Karmacode" beira o rasteiro.

Infelizmente, o disco é ruim. Muito ruim. Confesso que o escutei várias vezes com atenção, tentando identificar qualidades que poderiam estar ocultas e passariam desapercebidas, mas todo este esforço se mostrou inútil. Repetitivo, sem tesão, preso à uma fórmula confeccionada nos mínimos detalhes para conquistar e crescer no mercado americano: esta é a conclusão que eu chego a respeito deste quarto álbum do Lacuna Coil.

Podem ter certeza que escrevo isso com pesar, porque o grupo, que sempre buscou originalidade e novos caminhos, em "Karmacode" não existe mais, dando lugar a mais uma banda pasteurizada, produzida em série para escrever a trilha sonora do verão de milhões de adolescentes mundo afora, e que daqui há um ano nem será mais lembrada por estes mesmos jovens que irão colocar a banda no topo em todo o mundo.

Pode escrever: 2007 será o ano do Lacuna Coil. A banda estará em evidência como nunca, "Karmacode" venderá feito água. Mas, infelizmente, os caras terão que lutar muito para ter de volta aquele que é, talvez, o fator mais importante de uma carreira: a credibilidade.

P.S.: se tudo correr bem, a crítica ao próximo lançamento do grupo não será publicada aqui no Whiplash!, mas sim nas páginas da Capricho.

Faixas:
1. Fragile
2. To The Edge
3. Within Me
4. Devoted
5. You Create
6. What I See
7. Closer
8. In Visible Light
9. The Game
10. Our Truth
11. Without Fear
12. Enjoy The Silence

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig colabora com o Whiplash desde 2005. É o editor do blog Collector´s Room, um dos mais lidos do Brasil, e colaborador da revista poeira Zine.

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