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Resenha - Tyranny Of Souls - Bruce Dickinson

Nota: 10

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Uma lenda não nasce por acaso. Ela vai se formando aos poucos. Ninguém, nem os fãs mais radicais, lembram de Bruce Dickinson quando ele fazia parte do Samsom, usava bigode e ainda era chamado de Bruce Bruce.

Foi com o lançamento do clássico "Number Of The Beast" em 1982 que o mundo começou a prestar atenção naquele baixinho cabeludo. A sua estréia no Iron Maiden elevou a banda a outro nível, em uma seqüência de álbuns fantásticos que culminou com "Seventh Son Of A Seventh Son", lançado em 88.

Foi nesta época que Bruce compôs "Bring Your Daughter ... To The Slaughter" para a trilha do filme "A Hora do Pesadelo 4", inaugurando a sua parceria com o guitarrista Janick Gers (ex-Gillan e que entraria no Maiden no álbum seguinte, "No Prayer For The Dying") e sua carreira solo com o lançamento de "Tattooed Millionaire", em 1990.

Após "Fear Of The Dark", de 92, Bruce saiu do Iron Maiden, alegando o velho clichê das diferenças musicais, e cada um seguiu caminhos diferentes. A Donzela buscou forças para se recuperar do golpe no desconhecido Blaze Bayley, com quem gravou o bom "The X-Factor" e o risível "Virtual XI", além de lançar a coletânea dupla "Best Of The Beast", obrigatória para qualquer fã do grupo.

Já Bruce demorou um tempo para encontrar o caminho do seu som. Lançou "Balls To Picasso" em 94, onde continuava o seu flerte com o hard rock setentista. Em seguida cometeu o álbum "Skunkworks" em 96, que desagradou praticamente todos os seus antigos fãs, que ficaram insatisfeitos com os flertes com o grunge e o rock alternativo americano tão em voga na época.

Foi nesta hora que Bruce Dickinson tomou uma das decisões mais acertadas de sua carreira, e que iria refletir no próprio Iron Maiden anos mais tarde. Apostando novamente no heavy metal clássico que o consagrou, chamou para a sua banda o guitarrista Adrian Smith, que havia deixado o Maiden em 88, e lançou o excelente "Accident Of Birth" em 97. Com este álbum Bruce agradou em cheio aos seus fãs, retomando a sua identificação com o metal e atualizando o som do próprio Iron Maiden, de uma maneira que nem a própria banda fazia mais.

O direcionamento foi mantido no espetacular "The Chemical Wedding", lançado um ano mais tarde, com o som ganhando ainda mais peso em canções como "The Tower", "Killing Floor" e "Book Of Thel".

Toda esta trajetória culminou com o retorno de Bruce e Adrian ao Iron Maiden no dia 10 de fevereiro de 1999, restaurando imediatamente a reputação da banda após a era Blaze. O lançamento do aguardado "Brave New World" em 2000 mostrou que os músicos não estavam para brincadeira quando disseram que o Maiden voltaria a ser a maior banda do mundo. Em seguida veio o mediano "Dance Of Death" e o resto está acontecendo agora, bem na nossa frente.

Após sete anos de dedicação exclusiva ao Maiden, Bruce volta a sua atenção novamente para a sua carreira solo. "Tyranny Of Souls" segue à risca a fórmula adotada nos ótimos "Accident Of Birth" e "The Chemical Wedding", a começar pela capa, que a exemplo deste último (quando utilizou uma obra do pintor e poeta inglês Wiliian Blake) também recorre ao passado, em uma obra de Hans Menling pintada em 1485.

O álbum abre com a introdução "Mars Within", que prepara o clima para "Abduction", uma das melhores faixas do disco. Repleta de peso e melodia, mostra uma banda afiadíssima, onde se destacam a guitarra de Roy Z (também produtor) e, como não poderia deixar de ser, o vocal de Bruce Dickinson. Aliás, aqui cabe uma observação: durante todo o álbum Bruce canta de uma forma ligeiramente diferente do Maiden, com vocais mais agressivos e que trazem muito mais tesão e pegada para as músicas.

Na seqüência entra a pesadíssima "Soul Intruders", com seu andamento baseado no uso de bumbos duplos e com um refrão inesquecível desde a primeira audição. Esta música é outro grande destaque do álbum, e nos remete direto à sonoridade de "The Chemical Wedding".

"Kill Devil Hill" entra para atestar que o chão de Bruce Dickinson é o heavy metal puro, cru e direto, que busca novos caminhos sem perder suas origens, de uma maneira que ele só consegue fazer em seus álbuns solo.

Mantendo uma tradição da qual fazem parte canções de diversas fases de sua carreira, como "Gypsy Road", "Change Of Heart", "Tears Of The Dragon", "Man Of Sorrow" e "Gates Of Urizen", "Navigate The Seas Of The Sun" é a bela balada do álbum, onde Roy Z se destaca mais uma vez, em um belo trabalho acústico. Esta música nos dá um um tempo para que possamos respirar fundo para o que vem a seguir.

A cadenciada "River Of No Return" (com ótimas guitarras de Roy Z, mais uma vez), a power metal "Power Of The Sun", a hard rock "Devil On A Hog" (uma das melhores canções de toda a carreira de Bruce, e a minha preferida em todo o álbum, unindo com maestria o hard rock de "Tattooed Millionaire" e o metal puro de "The Chemical Wedding"), "Believil" e a sensacional "Tyranny Of Souls" formam uma seqüência fenomenal. Sabe aquela sensação que você tem ao ouvir uma música e pensa " ... pô, que sonzaço, mas a próxima não deve ser tão boa ..."? Isso não acontece aqui.

O álbum acaba e você não consegue acreditar no que ouviu. "Tyranny Of Souls" é um álbum impressionante, de um artista que já não precisa provar mais nada para ninguém há um bom tempo, mas que mesmo assim não se acomoda e busca sempre novos limites para o seu som.

Bruce Dickinson há muito tempo garantiu o seu lugar entre os maiores nomes da história do rock. Se continuar lançando álbuns tão bons quanto "Tyranny Of Souls", muitas lendas serão ultrapassadas pelo caminho, e Bruce corre o sério risco de se tornar a maior de todas elas.

Faixas:

1. Mars Within (Intro)
2. Abduction
3. Soul Intruders
4. Kill Devill Hill
5. Navigate The Seas Of The Sun
6. River Of No Return
7. Power Of The Sun
8. Devil On A Hog
9. Believil
10. A Tyranny Of Souls

Ouvindo:
AC/DC, Ride On.

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Sobre Ricardo Seelig

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