Nota: 10 









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É fácil distinguir excelentes bandas de gênios da música: os gênios são aqueles que fazem você ter plena certeza de que são os melhores do mundo naquele momento, que monopolizam seus sentidos e sua atenção de forma tão avassaladora que sua mente fica impregnada indestrutivelmente da superioridade daquele conjunto. E isto o Tull faz de modo deveras eficaz, juntando-se ao panteão de "intocáveis" da época: eles, Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, The Who, Pink Floyd, Ten Years After, dentre outros. Todos com esta qualidade singular que os permite serem mencionados sob a alcunha de gênios.
O tradicionalíssimo festival da Ilha de Wight, continha em sua edição de 1970 grandes feras da música (Jimi Hendrix, The Who, Moody Blues...), e entre estes o Tull já estava na vanguarda, mesmo com apenas três anos de estrada e três álbuns lançados (época boa essa) – “This Was” de 68, “Stand Up” de 69 e o recém saído “Benefit” de 70. Deixando o mundo a seus pés em virtude da originalidade e intensidade de suas composições e claro, ao fator chave que era a bombástica presença da flauta transversal de Ian Anderson.
E o próprio adverte no encarte deste cd que não há rock progressivo aqui, apenas o frenético e entusiástico rugido dos instrumentos. Simplismo à parte, é verdade que a energia do álbum é extremamente visceral e nada aqui é prolixo. Naturalidade, espontaneidade, técnica, competência, peso, mágica...tudo conjugado numa apresentação absolutamente orgástica.
O começo fulgurante com “My Sunday Feeling” abre espaço para a primeira aparição de “My God”, vindo ao mundo de forma inédita no festival e que estaria somente na masterpiece “Aqualung”, lançada um ano depois. “With You There To Help Me” vira todos os holofotes para o monstro John Evan, fazendo barbaridades com seu instrumento. E durante “To Cry You A Song” entendemos perfeitamente porquê os shows de rock eram chamados nesta época de concertos: a sinfonia divinal de guitarras distorcidas aliada à completa simbiose dos músicos a seus instrumentos, tudo numa entrega total ao espetáculo e impregnado da alma de cada um, ajudados por um período histórico único para a música pesada acabava originando composições transcendentais como esta e a bem da verdade, como todas desta bolachinha.
“Bourée”, música de J.S. Bach re-arranjada por Anderson, contém todo o delírio sensitivo que você puder imaginar de um gênio interpretando outro.
"Dharma For One" apresenta Clive Bunker em um solo de bateria fe-no-me-nal, que não é mero exercício atlético, mas tem sentimento, contexto, completude e razão de existir, ele é a expressão natural do êxtase provocado pela composição executada.
O final com “Nothing Is Easy” e o medley de “We Used To Know”/”For A Thousand Mothers” é a celebração última da mistura sublime de folk, rock e blues destes ingleses, além de ser o clímax do concerto.
O momento estava tão propício e inspirado que o Jethro Tull iria lançar, apenas durante a década de 70, no mínimo 8 obras primas do rock (basta conferir a discografia para corroborar esta afirmação).
"Live At The Isle Of Wight" faz-me querer quebrar o protocolo, dar uma nota acima de 10 seria perfeitamente cabível, mas isto torna-se desnecessário ao perceber que estamos lidando com deuses do rock n' roll. Tanto meu lado fã quanto meu lado crítico (que se completam numa simbiose harmoniosa e consciente) dizem-me que este álbum é um pouquinho além de histórico e perfeito. Que bom que assim seja, posso dormir tranqüilo, sem medo de cometer excessos. E acreditem meus amigos, sonhar com as levadas surreais de Ian Anderson não é nada mal! Comprem, porque momentos como esse são indubitavelmente impagáveis.
Um dos melhores ao vivo de todos os tempos.
Formação:
Ian Anderson (Vocal/Flauta/Violão Acústico)
Martin Barre (Guitarra)
Glen Cornick (Baixo)
Clive Bunker (Bateria)
John Evan (Teclado)
Site Oficial: http://www.j-tull.com
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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