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O Megadeth passou meio que imune a todas essas mudanças até meados da década passada, quando foi lançado o já seminal Youthanasia (1994). De lá para cá, uma sucessão de discos ou medianos ou abaixo da crítica (com algumas louváveis exceções, é lógico) acabou levando a banda à extinção. Junte-se a isto, a personalidade instável de seu mentor — o genial, porém pouco carismático Dave Mustaine — e o que se obtém é uma banda com uma carreira invejável, mas que acabou produzindo muito menos do que aquilo que lhe permitia o seu quase inesgotável potencial. The System has Failed é mais uma incontestável prova do talento de Mustaine como compositor e, ainda que tenha sido anunciado como o último álbum de estúdio da banda (a gente já viu esse filme antes, mas pode ser que o cara esteja realmente falando sério), demonstra que o Megadeth ainda tem muita lenha para queimar. The System has Failed pode até nem ser o melhor disco do Megadeth, mas é, seguramente, um dos melhores discos do ano (seguramente, o melhor disco de thrash metal – mesmo não se esquecendo dos petardos lançados pelo Exodus e pelo Tankard). As razões disso são, principalmente, a maestria de Dave Mustaine no comando de tudo e o apelo forte à velha escola da Bay Area, que rendeu tantos bons nomes.
Diferentemente do que vem sendo afirmado pela imprensa, The System has Failed não é uma continuação da obra-prima Rust in Peace (1990). Se for para resumir o álbum em poucas palavras, pode-se dizer que está mais próximo de uma mescla bem arranjada de Youthanasia e Countdown to Extinction (1992) com Cryptic Writings (1997). Isto não significa, porém, que o que se ouve aqui são colagens de álbuns antigos. Mustaine deve ter trabalhado intensamente para criar um disco tão denso e tão variado. Há muitas músicas que lembram aquela fase mais oitentista do thrash metal sem concessões que o Megadeth sempre fez, como é o caso da maravilhosa “Blackmail the Universe” e “Back in the Day”. “Kick the Chair”, conhecida pelos fãs da banda desde o início do ano, é uma das melhores faixas do álbum, justamente por ser a que melhor expressa essa volta às raízes por parte da banda.
Entretanto, não se trata de um disco simples. Faixas como “The Scorpion”, em que predomina um certo experimentalismo cada vez mais freqüente nos trabalhos de Mustaine (pelo menos desde o abominável Risk, de 1999), embora isto não seja suficiente para transformar em algo ruim este novo disco. Aqui é possível ouvir um pouco de todas as fases do Megadeth, mas todas elas homogeneizadas dentro da mesma proposta de fazer um disco pesado, técnico e veloz, cedendo, vez por outra, espaço para uma ou outra idéia heterodoxa em termos de thrash metal.
Ainda assim, o que mais legal nesse disco novo é que Mustaine optou por não “modernizar” o som do Megadeth, diferentemente daquilo que fizeram o Slayer e, sobretudo, o Metallica nos seus últimos álbuns. Em linhas gerais, a grande inovação contida em The System has Failed é justamente o fato de ele soar tradicional, oitentista. Cercado de músicos competentes (destaque especial para o batera Vinnie Colaiuta, que já cedeu lugar para o inigualável Nick Menza). Mustaine continua escrevendo com seu próprio sangue (dê uma olhada na letra de “Truth to be Told” e confirme) e trabalhando linhas melódicas impressionantes em se tratando de thrash metal tradicional. A produção do disco — levada a cabo por Dave Mustaine, auxiliado por Jeff Balding (que trabalhou no Risk)— é bem limpa, mas não retirou a atmosfera “vintage” que predomina no álbum.
Não há dúvida quanto ao fato de este ser o disco mais “pessoal” e passional do Megadeth. Reflexo de todas as dificuldades por que passou a banda nos últimos dois ou três anos, The System has Failed traz consigo toda a raiva acumulada por Mustaine nesses anos de idas e voltas, sempre lidando com os reveses impostos pela indústria musical e pelas suas próprias escolhas. Mesmo quem não considerar este um bom disco, pelo menos há de concordar que, olhando agora, a melhor que já aconteceu ao líder do Megadeth foi ele ter sido chutado de uma certa banda que hoje se envereda pelos descaminhos do new metal descaradamente.
Banda:
Dave Mustaine: Vocal, Guitarra
Jimmy Sloas: Baixo
Chris Poland: Guitarra
Vinnie Colaiuta: Bateria
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Formado em Direito e tentando novos caminhos agora no curso de História, Sílvio Costa é fanzineiro desde 1994. Começou a colaborar com o Whiplash postando reviews como usuário, mas com o tempo foi tomando gosto por escrever e espera um dia aprender como se faz isso. Já colaborou com algumas revistas e sites especializados em rock e heavy metal, mas tem o Whiplash no coração (sem demagogia, mas quem sabe assim o JPA me manda mais promos...). Amante de heavy metal há 15 anos, gosta de ser qualificado como eclético, mesmo que isto signifique ter que ouvir um pouco de Poison para diminuir o zumbido no ouvido depois de altas doses de metal extremo.
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