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Sempre me perguntei como teria sido o processo de composição dos clássicos da música. Será que o Deep Purple imaginou que depois do lançamento de Machine Head (1972), nunca mais faria um show onde não tocasse Smoke On The Water e Highway Star? E o Iron Maiden, quando lançou seu The Number Of The Beast (1982), tinha noção da repercussão que teria Hallowed Be Thy Name? E o Judas Priest? Como será a sensação de, depois de 24 anos do lançamento de British Steel, ainda se ver tocando cinco músicas do álbum, das quais pelo menos três são “intiráveis” do setlist?
Pois se Machine Head tem dois clássicos absolutos do Rock e The Number Of The Beast tem três, sendo os dois discos considerados como alguns dos melhores álbuns da história, que podemos dizer de British Steel, no qual, entre suas nove músicas, nada menos que SEIS são obrigatórias para qualquer fã de Rock/Metal?
Apesar de ser considerado por muitos uma banda de Heavy Metal, o Judas Priest na verdade começou fazendo um Hard Rock na linha do Deep Purple e foi se “metalizando” aos poucos (com uns contratempos no meio do caminho, é claro). Digamos que British Steel está na fase de transição e talvez aí esteja seu maior charme: é um disco muito variado.
Rapid Fire é a faixa de abertura. Rápida, pesada, empolgante, perfeita para abrir tanto o disco como os shows. A próxima é a simplesmente fantástica Metal Gods, que começa com um riff tão empolgante que é praticamente impossível ouvi-lo sem acompanhar o ritmo com o pé ou com a cabeça. O andamento cadenciado é uma das características principais do Judas e os ótimos vocais de Rob Halford vão num crescendo incessante até culminar no refrão, cuja melodia e guitarra ilustram o poder dos “Deuses de Metal” (ver explicação da letra mais para frente) ao mesmo tempo em que lembram um hino. A letra segue a tradição ficcção-científica tão usada pela banda e fala sobre a guerra do ser humano contra as máquinas de inteligência artificial que ele mesmo criou. Já ouvi até alguns boatos que dizem que foi dessa letra que o diretor James Cameron tirou a inspiração para sua milionária franquia O Exterminador do Futuro.
O que dizer da próxima música, Breaking The Law? Essa é, simplesmente o maior hit da banda, conhecida e admirada tanto pelos headbangers mais radicais como pelo público que ouve as “rádios-rock” de São Paulo. Extremamente simples, é exatamente aí que reside seu principal apelo. Sem solos, com uma letra curta e um refrão do tipo que apenas repete seu nome, Breaking The Law tornou-se uma das músicaspreferidas do pessoal que está aprendendo a tocar qualquer instrumento pois é, ao mesmo tempo, uma música boa e fácil de ser tocada. Prova disso é a versão do Hammerfall, onde os músicos trocam seus instrumentos, deixando-a ainda mais divertida. Para demonstrar sua popularidade, basta lembrarmos do show da banda solo de Rob Halford no Rock In Rio de 2001, onde seus vocais foram simplesmente desnecessários, tamanho o volume do público que cantou a plenos pulmões a letra inteira, verso por verso, fato que chegou a arrancar lágrimas de Rob que, emocionado, deixou os vocais a cargo da galera enquanto foi pegar uma bandeira do Brasil para beijá-la. Eu estava lá e foi realmente emocionante, o melhor momento do festival inteiro, sem dúvida.
A metalzona Grinder vem a seguir, e já começa com um dos riffs mais legais da banda, seguido por vocais fantásticos e um ótimo refrão. Uma verdadeira aula de Heavy Metal. United é a próxima, outra música simples, que puxa mais para o lado Hard Rock do que para o Metal e tem no refrão seu principal carisma. Uma verdadeira homenagem aos fãs que acompanham a banda desde o início de suas atividades, sua letra clama “sempre ficaremos unidos, unidos não seremos derrotados”. É simplesmente impossível não ser contagiado por esse refrão, quem assistiu ao show da banda em 2001, no Credicard Hall sabe de sua força ao vivo.
Depois de cinco clássicos seguidos, entra a primeira música menos conhecida do disco: You Don’t Have To Be Old To Be Wise, que é um Hard Rock divertido, com uma veia meio Alice Cooper e mantém o nível do álbum lá no alto. Outro clássico vem a seguir, Living After Midnight, uma das músicas mais divertidas e descompromissadas da banda. Com uma letra que fala de baladas e de diversão, Living After Midnight não podia vir diferente do que embalada em um Hard Rock super alegre e com uma batida de bateria que parece implorar para o público acompanhá-la com palmas.
The Rage é a próxima e é a pior música do disco. Com um andamento lento e repetitivo, sua melhor característica é a melodia vocal. The Rage, na minha opinião é uma música que deveria ter sido deixada de fora, o que tornaria British Steel um álbum impecável. Mas o disco não termina aí, ainda falta a última música: Steeler, que finaliza o disco como começou, com um música rápida e empolgante.
Esta versão remasterizada ainda conta com duas faixas bônus. Red, White And Blue é uma música na linha da United que, tivesse sido tocada ao vivo, teria gerado uma grande participação do público, devido à sua melodia cativante, que chega até a lembrar um hino. Red, White And Blue é uma balada e lembra bastante o estilo das baladas que o Manowar faria alguns anos depois. A outra bônus é uma versão ao vivo de Grinder que, embora interessante, pouco acrescenta ao disco, já que é uma música repetida.
British Steel é um disco com tantos clássicos reunidos que pode fazer um ouvinte incauto pensar que se trata de uma coletânea. Se você gosta de Rock e/ou Heavy Metal e não o conhece, corra atrás, pois ele merece ser ouvido. Aposto que depois de uma audição, você vai acabar comprando.
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Carlos Eduardo Corrales é jornalista e fotógrafo há oito anos. É editor-chefe do Delfos - www.delfos.jor.br - o maior site nerd de jornalismo parcial reflexivo humorístico do mundo. Sua principal característica é não levar nada a sério, até mesmo quando fala sério. A única exceção, claro, são os ensinamentos do Deus Metal. Com esse ele não brinca, pois não quer que o Vento Preto venha tirar satisfação.
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