Resenha - Nevermind - Nirvana

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Resenha - Nevermind - Nirvana


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É engraçado. Ainda hoje, mais de dez anos passados do advento daquilo que prometeu ser a mais arrebatadora e manifesta forma de revolução do rock desde o punk, e que respondia pelo nome de grunge, eu continuo pensando sobre que fim atingiu todo aquele arremedo de movimento (pretensamente embasado, é óbvio, pelos órgãos da imprensa mundial) no panorama geral da música pop do final do século XX / início do novo milênio.

Alguma coisa aponta para uma maior equalização, ou presença mais forte e dominante, das guitarras, de modo geral, na produção pop dos últimos treze ou catorze anos. Me detenho mais um pouco e começo a imaginar, também, em como todas estas bandas “independentes” ou “alternativas” – e sei lá se, um dia, qualquer uma já não tenha sido isto, tirando aquelas que já nasceram com algum apresentador de TV ou promoter na mamadeira – poderiam ter chegado aos píncaros da glória de hoje em dia, caso aquilo tudo não tivesse acontecido nos anos 90. Exemplos pululam: Silverchair, Strokes, Supergrass, ou mesmo os festejados Vines. Os ancestrais Red Hot Chilli Peppers, que ainda são daquela onda de funk metal, anterior até ao Faith No More, mas que só depois de Cobain e cia. começaram a, realmente, colher os louros da fama. No Brasil, um sem número de grupos: Raimundos, Skank, Los Hermanos, Jota Quest etc... É tanta gente que, fazendo mais ou menos rock, abusou um pouquinho demais daquele som mais forte de guitarras e do esquemão do it yourself das bandas de garagem, e chegou lá! E que chegou depois que mídia e indústria fonográfica notaram a força deste mercado, ehr... (mais uma vez usemos esse palavrão, tanto em sentido gramaticalmente métrico quanto pejorativo) alternativo. Mercado este que surgiu, em um boom tão forte jamais visto justamente desde o punk rock dos anos 70, exatamente após o lançamento deste tal disco – o “Nevermind”, do Nirvana.

Devo confessar que não é o meu preferido da banda, apesar de 90% da população do globo terrestre o aclamar como o mais perfeito exemplo da música do grupo. Como fã, ainda continuo preferindo o último deles, “In Útero”, por uma pá de coisas: o tipo de som alcançado, a vontade de experimentar e chutar o pau da barraca após o pleno reconhecimento (e encheção de saco) de todos, as parábolas neuróticas em tom de música pop que seriam o testamento de Kurt Cobain, etc. e tal. Mas, ao tentar deitar algumas linhas para escrever algo sobre o Nirvana para este prestigiado site, me sinto obrigado a dizer que, para comentar um item básico na discografia deles, não adianta: eu teria que falar mesmo sobre o “Nevermind”, que mudou tudo na história do rock. Isso sim é disco básico.

Puxa, ainda me lembro exatamente do dia em que comprei o disco, no final de 1991: em vinil, pois naquela época o CD ainda era coisa relativamente nova e não muita gente, entre os reles mortais da classe média, tinha adquirido um aparelho daqueles! E hoje, qualquer moleque por aí sai de um shopping center ou de qualquer barraca de camelô por aí com um disquinho de prata do “Nevermind” dentro da mochila...

Me lembro mesmo, no entanto, de como, ao colocar cuidadosamente a agulha do toca-discos sobre o LP, em segundos eu tive um choque, e uma revelação – saía dali uma música poderosa e intensa, direta e ensurdecedora, como nada, até então, que houvesse aparecido no mundo do rock daquela minha geração, enfastiada com todas aquelas bandas de metal, metal e metal – parecia que, de repente, para se fazer sucesso, tudo que tinha ser absolutamente metal... e com um guarda roupa estranho e cara de mau.

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O Nirvana, no entanto, era diferente, e a diferença, a gente veria nas revistas, começava pela aparência – eles poderiam se fazer passar por qualquer cara normal, poderiam ser aquele colega seu de científico que se senta ao lado da sua carteira! E o som... Uma música de acordes fáceis e rápidos, típica de uma legítima guitar band imersa na sonoridade de décadas anteriores de peso, mas regurgitando tudo de uma forma simples e - talvez este fosse o segredo da coisa – pop, extremamente pop e familiar. O som do Nirvana era um amálgama de influências de rock pesado e punk rock extremamente coeso, mas embalado, sobretudo, pelo singular talento de seu compositor, guitarrista, vocalista e lenda, Kurt Cobain, em conseguir costurar aquilo tudo com melodias acessíveis absolutamente originais. O creme e a cereja estavam por cima. Embaixo deles, no entanto, havia uma massa consistente, um notável recheio. Foi uma novidade irresistível – e subitamente senti algo realmente diferente naquela banda. Qualquer um com um pouco de sensibilidade sacou, naqueles dias que se seguiam, que algo grande estava nascendo daquele power trio – sim, mais um na grande tradição do rock, assim como haviam sido Buddy Holy & the Crickets, Cream e Jimi Hendrix Experience.

De repente, de uma introdução que era um dos riffs mais nervosos e econômicos do rock, surgia o “hino” de toda uma geração, “Smells Like Teen Spirit”, e sua letra angustiada, tantas vezes usada extremamente fora do contexto, para criticar a futilidade de todos aqueles que seriam justamente os primeiros a colocarem-na no hit parade de centenas de rádios pelo mundo afora. O abandono com que Cobain se entregava a este tema, em seus compassos iniciais, contrastava com a brutalidade do refrão, seu vocal aos berros, expurgando todos os devaneios e imagens de alucinação de uma população jovem que buscou tudo o que podia na forma e na embalagem, relegando a um segundo plano o conhecimento e o conteúdo. Cantando a sua própria desilusão, Cobain levou à tona os anseios de uma geração que quis ser politizada, mas foi medíocre e guiada pelo consumismo; que quis ser revolucionária, mas foi entreguista e extremamente repressiva e conservadora; que quis ser livre, mas foi simplesmente sexista e preconceituosa ao extremo, se deixando levar pela “libido” presente na letra de “Smells”... e a usando de uma forma inconseqüente e insensata, ao lado de outros grandes vícios. Um solo de guitarra ácido e tortuoso dá o tom desta (auto?) crítica em forma de hard rock.

Em seguida, “In Bloom” trazia a sonoridade anos 70 da banda ampliada ao extremo e um refrão fresco, que colava na mente, como se de uma hora para a outra revisitassem o Black Sabbath com grande propriedade e um peculiar sarcasmo, típico do melhor que a atmosfera de Seattle tinha para oferecer. E “Breed” era uma das melhores viagens pelo terreno punk que eles poderiam fazer – e que, com o título de “Imodium”, era oriunda ainda da demo-tape que o Nirvana havia gravado ainda em 1989, com planos para realizar um segundo disco pela Sub Pop de Seattle, que os havia lançado. Por sinal, praticamente 80% desta fitinha que depois se tornou lendária no mundo da pirataria já era o clássico “Nevermind”, só que com uma produção mais tosca e repleta de distorções: ali já estavam pérolas como “Lithium”, “Stay Away” (então chamada “Pay to Play” e com uma letra nitidamente diferente) e “Dive” (que não faria parte do futuro álbum, e só veria a luz do dia – pelo menos oficialmente – na coletânea de sobras de estúdio e canções inéditas “Incesticide”, lançada logo após o sucesso avassalador de “Nevermind”). “Polly”, uma intrigante e envolvente balada acústica de três minutos, com cara de canção colegial, também estava presente nesta demo-tape, e a gravação utilizada em “Nevermind” é praticamente a mesma, só que mixada com uma nova passagem de violão e vocais de apoio do baterista Dave Grohl (na época da demo tape, o baterista da banda ainda era Chad Channing).

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A parceria do Nirvana com o produtor Butch Vig, que posteriormente se tornaria uma lenda na manipulação dos novos sons do rock, havia já se firmado naquela demo-tape, e muito também, faça-se a devida justiça, deve-se a ele. “Kurt era muito punk, na verdade, para produzir algo mais bem elaborado em estúdio, que era do que o Nirvana estava precisando para amadurecer seu trabalho”, relembra o produtor. Um dos grandes prodígios deste verdadeiro “George Martin grunge” foi, durante as sessões de gravação de “Nevermind”, gravar vários momentos de Kurt em estúdio, mesmo ensaiando ou treinando acordes e outras coisas mais com a banda durante os intervalos, para utilizar posteriormente nas músicas, visto que, como Vig diria depois, “Kurt nunca gostava de gravar mais de um take da mesma canção”.

E foi assim, portanto, que músicas como “Territorial Pissings”, “Drain You” e a já citada “Lithium” – talvez uma das mais perfeitas transcrições, para o mundo pop, do universo neurótico de um indivíduo à beira da psicose – chegaram ao panteão das grandes canções do rock. Esta última, em especial, comprovava a conexão que os grandes grupos musicais estabelecem com os fantasmas de seu tempo, cortesia do invulgar talento de Cobain para com as letras: lembremo-nos que os EUA já estavam atravessando a sua fase de grande pânico coletivo devido aos serial killers que começavam a aflorar nos noticiários, como o canibal de Milwaukee, Jeffrey Dahmer. Havia, ainda, “Come As You Are”, uma balada pop que alçou as paradas de todo o mundo como o segundo single, após “Smells...”, e que dava pistas já para as futuras intenções de Cobain para com o direcionamento musical do Nirvana.

Mas, talvez, um dos melhores momentos do disco não estivesse em nenhuma faixa mais rock ou em nenhuma das inúmeras distorções de guitarra que se sobrepunham em músicas como “Drain You” e “Lounge Act” – mas sim, na soturna e depressiva “Something in the Way”. Sob batidas monocórdicas de violão e um sombrio acompanhamento de cello (reproduzido à perfeição, anos depois, no especial para a TV Unplugged, também lançado em disco pelo grupo), Cobain dava vazão às suas mais impressionantes alucinações, frutos de uma mente atordoada por problemas familiares ainda muito cedo e pelos seus repentinos ataques de gastrite que deixariam a sua saúde debilitada e abririam a porta para a heroína, que terminaria por levar o cantor a uma viagem auto-destrutiva sem volta. Haveria ainda uma última faixa, lançada tempos depois, nas futuras edições do álbum em CD, e com a qual eu tomaria contato apenas uns seis anos já no futuro (quem mandou eu ter estima pelo meu velho vinilzão, e gostar de ouvir simplesmente ele?): “Endless Nameless”, que nada mais era do que uma extended jam no estúdio que sagrava toda aquela barulheira perpetrada pelo Nirvana no final de seus shows, muito utilizada para a sua famosa e obsessiva quebra de instrumentos (herança dos loucos anos 60, The Who e o escambau...). Mesmo assim, uma faixa muito atraente, com uma melodia inicial como fio condutor que é, simplesmente, hipnótica – como muitas das estranhas melodias que Cobain conseguia tirar de sua cabeça, aliás.

Para terminar, me sinto compelido a dizer que, obviamente, o mérito deve ser dividido também com Grohl – uma fera na bateria, que ninguém poderia imaginar que tivesse também tão bons talentos para frontman como o seu Foo Fighters confirma – e Chris Novoselic – um dos melhores baixistas já surgidos nestes últimos trinta anos do rock, e que, sejamos honestos, segurava a peteca total no som do Nirvana para que Cobain pudesse se esmerar em suas sonoridades excêntricas.

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Aquele foi, de fato, um ponto marcante e luminoso do início daquela década, e iria deixar muitos traços bem delineados na história da música popular. O mundo ainda respirava os ares de um tenso conflito entre EUA e o Iraque de Saddam Husseim, no Brasil imperava ainda o clima de bagunça e incerteza após a retirada do Presidente Collor do poder, e nos preparávamos para entrar na aventura de uma nova moeda uma vez mais, repletos de apreensão. Na escola, vivíamos um período que sabíamos ser o último de nossas vidas – o final do 2o. grau, o final de um tempo em que nossas preocupações não iam além de disputarmos, com o colega da carteira ao lado, quem tinha a coleção completa do Metallica, ou quem sabia mais sobre o que estava rolando com o Guns N’ Roses, a coqueluche de uma época – o metal comercial de L.A., a princípio vigoroso e cheio de perigo e poder, mas que seria derrubado com toda a força no chão por aquela geração flaneluda que vinha de Seattle, justamente a partir daquele disquinho com um bebê pelado nadando na capa.

Paralelamente, penso em Cobain: é fato comum, ao me lembrar de toda a minha geração, e de como a própria futilidade ou as nossas próprias desventuras arrancariam, de muitos de nós, o melhor que tínhamos. Sonhos, inclusive. E me lembro, então, de Cobain. Vem à minha memória uma entrevista que ele concedeu a uma revista, dizendo como ele apreciava o som da banda em vinil mesmo, e como ele gostaria que o “In Útero” saísse só neste formato. Um dos meus. Mais um que se foi antes de mim.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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