Resenha - Nice - Nice

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A certa altura de seu memorável romance "O Coração das Trevas" (que daria luz, muitos anos depois, ao célebre filme de Coppola, "Apocalypse Now"), Joseph Conrad descreve o personagem principal, o enlouquecido capitão Kurtz, como um desses "gênios universais", e ainda emenda que mesmo estes iluminados preferem "instrumentos de trabalho adequados – homens inteligentes".

Durante toda a primeira parte da década de 70 no século 20, a música rock se viu dominada por uma tendência que parecia chamar a si a chama de toda a luminosidade possível: os "gênios" do rock progressivo desciam à Terra, faziam as suas aparições apoteóticas lotando estádios com capacidade máxima esgotada e pirotecnia estonteante, laser e o escambau, e então retornavam ao seu muito pessoal Olimpo, os estúdios de gravação repletos de maquinaria da última geração e produtores habilidosos, prontos a transformarem todas as mais loucas idéias em novas viagens sensoriais de arrepiar os bichos-grilos imperantes. De lá, então, pariam suas novas "obras-primas" (muitas, é certo, assim chamadas equivocadamente), e prosseguiam no seu caminho rumo à eternidade no limbo do som pop, até que um dia fossem desbancados e seu carneiro de ouro todo glorioso fosse arremessado ao chão com fúria por uns moiseses de corte espetado ou moicano. Assim se fez a luz, portanto, no conturbado e errático rock dos anos 70, a denominada Era das Incertezas, que povoou de cabelos longos, guitarras desenhadas em cadernos, calças boca de sino e caos punk a cabeça de muita gente por aí que ainda se lembra dessa anarquia. No meio de tudo isso, se sobressaía mais um daqueles "megagrupos", um triozinho britânico: eram só Keith Emerson (teclados), Greg Lake (baixo, guitarra e vocais) e Carl Palmer (bateria / percussão), tá lembrado? Emerson, Lake and Palmer – que seguiram toda a via crucis dos deuses do Olimpo Sagrado mencionado aí acima. Assim como tantos outros (Genesis, Pink Floyd, Yes, Jethro Tull, Greenslade... ufa, eram tantos!), venderam milhões de elepês (isso mesmo, é assim que se chamava antigamente, pessoal do CD... ah, me desculpe, estou ultrapassado, MD!), fizeram turnês escandalosas (pra não dizer constrangedoras, em seus anos finais de glória), fumaram e beberam tudo o que podiam em megalomaníacas aparições no jet set internacional dos ricos e famosos estilo Caras da era hippie (Rachel Welch, Roger Moore, Elton John, Warren Beatty, Mick Jagger... cê sabe, toda aquela gente) e, pra terminar, povoaram os corações e mentes de dois lados do Atlântico que insistiam em babar diante de cada zunido diferente daquele Hammond L100 do Emerson que aparecia em cada novo lançamento do grupo – e olha que, desde "Trilogy", de 1973, a imprensa já ficava falando que eles estavam decadentes... mas fã é fã, e imprensa é imprensa, você sabe.

Mas, a que ponto afinal eu quero chegar com tudo isso, e pior, com a tal citação que eu fiz do Conrad lá no começo? Muito simples: que a peça central de tudo, na verdade, SEMPRE foi o Keith Emerson. E amem ou odeiem o homem, reconheçam: pouca gente já teve a coragem de encarar uma tecladeira como esse indivíduo na face do globo terrestre e da música mundial até hoje! Eu sei que existem sumidades que podem ser citadas a rodo por aí (só não me venham com Jean Michel-Jarre, pelo amor de Deus), mas Emerson é, simplesmente, um desses “gênios universais” de que Conrad falava. O talento do homem, mesmo que em vários momentos ofuscado pelas luzes de um virtuosismo desnecessário ou de um laser muito exagerado no palco, era evidente nos mais sutis momentos musicais do Emerson, Lake and Palmer – especialmente, naquelas cantatas das suítes mais orquestrais - como em "Lachesis", peça da trilogia "The Three Fates", que figurava na primeira incursão em vinil do trio, de 1970. A alma musical do Emerson, Lake and Palmer portanto, desnecessário dizer, era o Emerson – que, ao contrário daquele da Seleção Brasileira, não deixou o cargo de capitão do time em nenhum momento.

Por isso mesmo, vou insistir e bater novamente em uma tecla (ops, sem trocadilhos!!!): apesar de sempre ter amado de paixão o Emerson, Lake and Palmer, ainda acho que o Nice, a banda de Keith Emerson anterior, na qual ele foi lançado aos píncaros da fama, era bem melhor! Por que? Bem, para ser deveras simplista, pelos mesmos motivos pelos quais o Cream era melhor do que o Blind Faith, ou que os Yardbirds, para muitos, era preferível ao Led Zeppelin – o gosto da novidade que permeava a coisa, e a tremenda falta de pretensão dos seus integrantes. Sim, Emerson já era um virtuose dos teclados no Nice, mas o era de forma comedida e, no frescor de sua juventude, com uma criatividade sem igual, ácida e cortante típica daqueles jovens desbravadores, que encontrava química perfeita nos entrelaçamentos da ensurdecedora cozinha de Lee Jackson (baixo, guitarra e vocais) e Brian Davison (bateria). Eles eram,na verdade, os "instrumentos de trabalho adequados – homens inteligentes" de que Emerson necessitava para mostrar ao mundo do rock o seu poder! Como se percebe, o Nice, até na sua formação, foi uma escolinha para o supergrupo de Emerson que viria depois, com uma diferença, no entanto: eles abriram caminhos para o rock progressivo de forma extremamente inventiva.

The Nice, se apresentando ao vivo em um abarrotado ‘pub’ londrino a gênese do underground progressivo.
O lançamento deste disco aqui comentado, "The Nice", o terceiro da banda (e também conhecido por um outro nome: o absurdo "Everything as Nice as Mother Makes It") vem confirmar isto que eu estou afirmando, ao lado de uma carreira meteórica nos palcos e charts ingleses que comprovariam o triunfo do Nice, e das excentricidades que marcariam para sempre o nome de Emerson: o título de "Jimi Hendrix dos teclados" dado por jornalistas da imprensa musical por suas performances enlouquecidas e atormentadas, principalmente por queimar a bandeira americana durante a execução da versão do grupo para "America", de Leonard Bernstein – até hoje, um dos mais célebres singles do Nice, num episódio que valeu a Emerson a excomungação dele e de seus companheiros pelo austero autor da música, envergonhado com a barulheira com que ela foi desconstruída e remontada pelo Nice. Da noite para o dia, Emerson era o novo enfant terrible do rock inglês, graças a esta sua travessura com o respeitado Bernstein, e, provavelmente, do alto de seu humor tipicamente britânico, ele deve ter rido muito das críticas que a imprensa americana fazia a ele pela "ofensa" à bandeira americana em palco, enquanto comia os seus muffins no chá das cinco. Esta era uma banda, a bem dizer, nada convencional, e bastante de vanguarda.

Na primeira faixa, nos deparamos com "Azrael Revisited", uma alucinante viagem atmosférica inspirada em uma peça de Rachmaninoff que, por sua vez, era baseada nas mórbidas palavras de Edgar Allan Poe do conto "Enterro Prematuro". A montanha russa a que o piano de Emerson impõe o ouvinte, ao lado das densas quatro cordas de Jackson, é incrível, e o que se ouve é uma versão bem melhorada de um dos primeiros singles do Nice, "Azrael", de 1967.

Logo após, "Hang on to a Dream" vem trazer o lado mais lírico do Nice, com um belo coral de vozes infantis e a cadência concisa dos acordes de teclado e baixo se entrelaçando de forma harmoniosa em um ambiente onírico, de sonho mesmo – é a versão original de uma canção que o Nice adorava tocar nos shows, mas que, como prova o LP Elegy, do ano seguinte e ao vivo (e o último da carreira áurea da banda), era bem melhor em estúdio. A seguir, "Diary of an Empty Day" nos mostra o típico Nice: viradas súbitas, um ritmo sincopado encaixando os refrões, com estilhaços de jazz por todos os lados ornamentando um andamento de música clássica, retirado da "Symphonie Espagnol" de Lalo, que Emerson costumava tocar nas horas vagas com o excepcional violinista John Mayer, em uma histórica turnê em Londres naquele distante 1969.

A quarta faixa, "For Example", é, aliás, o melhor exemplo da música de estúdio do Nice, e a mais bem acabada: uma peça alucinante, claustrofóbica, que os vocais inusitados de Jackson insinuam com agonia e tensão, percussão eletrizante e um Emerson à vontade nos teclados, se soltando em devaneios psicodélicos despejados no ouvinte em fulgurantes fluídos e rajadas de som, percorrendo todas as miríades de notas de seu Hammond enlouquecido. Ao final de tudo, ainda somos presenteados com algumas das surpresas reservadas pelo Nice em suas viagens musicais: as citações de "Norwegian Wood", dos Beatles, de peças de (mais uma vez!) Leonard Bernstein, e da obscura banda alemã progressiva Ekseption.

A metade final do disco figura dois momentos ao vivo do Nice, que, em frente a uma platéia, era outra estória. Ali, todas as neuras dos seus integrantes eram liberadas, e o grupo oferecia mesmo era um verdadeiro happening, bem ao estilo anos 60, para quem quisesse sentar, serpentear ou endoidar, num bom narguilé indiano. São registros históricos, gravados durante a apresentação do grupo no Fillmore East. Primeiro, vem "Rondo", que é aquela mesma peça tocada pelo Emerson, Lake and Palmer em sua primeira aparição ao vivo, no concerto do Festival da Ilha de Wight, ainda no final de 1969 – mas, vamos e convenhamos, a versão do Nice é bem mais pesada e concatenada. E, fechando este clássico do rock progressivo com chave de ouro, temos "She Belongs to Me". Esta, senhoras e senhores, merece um comentário à parte: talvez nunca, ninguém, em lugar algum, tenha feito uma cover de uma música de Bob Dylan tão anti-Bob Dylan. O Nice tinha essa qualidade: subverter totalmente padrões musicais, e recriá-los de maneira extremamente convincente. Em "She Belongs to Me", a inicial fanfarra da composição de Dylan desemboca em um crescendo melódico inebriante, passa por um dos mais belos e viajantes solos de teclado já perpetrados por Emerson, pisoteia o ouvinte com um baixo e bateria galopantes e precisos, e volta à épica fanfarra do início, para fechar tudo com um finale intimista e brilhante. Perfeito!

Se ainda lhe restam dúvidas, caro leitor, procure nos melhores sebos ou importadoras e comprove: não há vida realmente inteligente para Emerson, Lake and Palmer, ou para o rock progressivo em geral, depois de um som desses...

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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