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Resenha - In-a-Gadda-da-Vida - Iron Butterfly

Nota: 10

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Muito bem, antes de tudo, há uma controvérsia histórica acerca deste clássico disco: muitos o apontam como sendo o primeiro LP de rock pauleira (ou hard rock, ou heavy metal, ou como quiseres...) da história do rock. Eu, particularmente, não acho. Na minha opinião, o mérito de tal iniciativa ainda está com o obscuro Blue Cheer, trio mal encarado que deu o pontapé no gênero tanto visualmente quanto sonoramente - se não, vide a tosca obra-prima Vincebus Eruptum, uma pérola de peso e distorção gravada no mesmo ano que este disco do Iron Butterfly... Os caras eram avôs do Metallica!

Na verdade, o que o Iron Butterfly fez, em In-a-Gadda-da-Vida¸ foi transformar o som pesado que inúmeras bandas da era flower power de San Francisco e da Costa Oeste americana estavam fazendo naquela época, bem ou mal, em algo mais elaborado musicalmente - e, o principal, tecnicamente.

Só para se ter uma idéia, o Iron Butterfly chegou a ter o seu equipamento para shows ao vivo cobiçado pela galera inglesa de grupos como Yes e The Moody Blues - e, diga-se de passagem, isto deve ter sido um senhor puta orgulho para aqueles californianos ripongas! Graças à boa qualidade dos instrumentos e torres de Marshalls e Fenders que os acompanhavam, o Iron Butterfly conseguiu idealizar e elaborar um som único, inédito para o final dos anos 60, e admirado por gente como Janis Joplin e Jimi Hendrix. O tecladista/vocalista/líder do grupo, Doug Ingle, contou, em recente entrevista divulgada na net, que era comum eles tocarem em casas célebres como o Trombadour ou o Whiskey A-Go-Go, de Los Angeles, e figurinhas tarimbadas como estes citados acima darem as caras por lá, só para conferir a tremenda "viagem" dos rapazes. O Iron Butterfly juntou vários elementos da florida música psicodélica californiana (totalmente diferente da inglesa - menos sombria e mais efusiva) com a destreza musical e jazzística de seus integrantes elevada ao cubo. E deu no que deu: In-a-Gadda-da-Vida !

Engraçadinhos do rock 'n’ roll adoram contar uma estorinha que provavelmente nasceu na cabeça de algum bicho-grilo tupiniquim muito doido: de que o Iron Butterfly teria escrito o maior sucesso de sua carreira, que dá nome a este disco, após uma trip (não, não é de mescalina não, teria sido física mesmo) ao Brasil, e aqui, então, após eles se enturmarem com o caliente clima tropical, teriam se esbaldado em uma delirante sucessão de festas com beldades brasileiras... ao final de tudo, erraram ao tentar reproduzir a expressão que retratava aquilo por que eles haviam passado: assim, "na gandaia da vida" virou "in-a-gadda-da-vida". Sacou? Pura balela, é lógico.

Aí vai a verdadeira estória: Doug Ingle e Lee Dorman (baixo), após construírem uma pequena estrutura rítmica em cima de um riff grudento que eles haviam bolado com o baterista Ron Bushy, partiram para digressões cheias de improviso, intercalando este fio principal, que conduziria toda a música e estaria indo e voltando entre vários solos. O jovem e exímio guitarrista de apenas 18 anos, Erik Brann, que estava no grupo na época, ouviu e gostou da coisa, criando na hora uma série de solos lancinantes em sua Fender Stratocaster, acompanhando os momentos solos em que a música fugiria da sua parte principal. Diante de uma canção tão longa, repleta de intermezzos, em que o riff condutor era sinistro, para dar vazão logo depois a longas guitarradas viajantes e paradisíacas, cheias de LSD, Doug resolveu escrever uma letra simples, mas bem estranha, sobre estar "no Jardim do Éden" (In the Garden of Eden), referindo-se à relação psicótica com uma certa garota que ele conhecera como algo que ia do céu ao inferno. E assim, impressionado pela pronunciação de certas palavras em espanhol por um grupo muito animado de latinos que freqüentava o Gazzarri's, em L.A., casa onde tocavam, Doug fez o trocadilho para "In-a-Gadda-da-Vida", expressão intraduzível e sem sentido, mas cuja força encaixava-se perfeitamente no som da música.

Apesar de ter sido a canção que marcou indelevelmente o grupo, que nunca mais se livrou do espectro dela e nem conseguiu fazer mais sucesso depois disso (é, ela virou uma espécie de "Stairway to Heaven" deles - "toca aquela!"), o LP que a contém na verdade é bem mais que isso. A incrivelmente pop "Most Anything That You Want", que abre a bolacha, é a mais ensolarada declaração de amor ao som californiano de grupos como The Doors e Strawberry Alarm Clock, com um maravilhoso solo de órgão Farfisa que dá a partida no progressivo das tecladeiras de um Rick Wakeman, por exemplo. Na verdade, o Iron Butterfly estava bebendo na fonte do Vanilla Fudge, uma das mais famosas bandas proto-progressivas da época, e da qual ainda vamos falar... Depois, vem "Flowers and Beads", uma das mais belas baladas já forjadas no ápice da criatividade hippie daquela era mágica. "My Mirage" é outra balada, mas bem mais hipnótica e climática, em que uma bela introdução com floreios de guitarra flerta com o órgão angelical de Doug e o baixo sempre cheio de soul de Lee Dorman. "Are You Happy" é a porrada loucaça com que o grupo muitas vezes abria os seus shows. Doug canta quase que desafiadoramente esta peça, berrando com fina ironia para o desavisado ouvinte o tema, e então entra no resto da letra no maior suingue. A banda descamba para um andamento rápido, para minutos depois Bushy martelar sem dó sua bateria fazendo a cama para Erik solar loucamente a Fender desvairada. Tudo isso capitaneado por um riffzinho histriônico dos teclados de Doug, simplesmente assustador de tão vertiginoso. É, sem dúvida, o momento mais heavy do disco, até mais que "In-a-Gadda...". "Termination", que fecha o lado A (o lado B é totalmente ocupado pelo clássico da banda) é um momento mais pop, composto pelo baixista Dorman.

É isso aí. Como eu já disse, depois de In-a-Gadda... viria Ball, depois um disco ao vivo, e vários outros momentos exemplares para todo amante do bom rock pesado e/ou progressivo, mas o que marcou mesmo a galera foi este disquinho, junto com aquele casamento sinistro de baixo/guitarra/órgão fazendo "tan-tan... tan-tan-tan-tan... In-a-Gadda-da-Vida, baby... Don't you know that I'm loving you... ". Tanto é que até o metal radical do Slayer se rendeu a uma cover speed e absurda desta loucura do rock ‘n' roll no final dos anos 80.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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