Resenha - Beggars Banquet - Rolling Stones

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Resenha - Beggars Banquet - Rolling Stones

Por Marcio Ribeiro

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Nota: 10

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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O álbum Beggars Banquet foi um disco decisivo para os Rolling Stones. O ano anterior (1967) não tinha sido particularmente favorável para a banda. Problemas nos relacionamentos entre membros, assim como problemas legais com a polícia e a justiça contribuíram para um álbum fraco em vendas e arrasado pela crítica, que os acusou de fugir de suas raízes musicais. A banda só voltou a ficar de pé com o compacto "Jumpin' Jack Flash", canção proveniente das sessões de Beggars Banquet, mas que foi lançado antes, em maio, na primavera inglesa de 1968. Mas a responsabilidade de um álbum convincente estava pesando sobre a consciência de Mick Jagger e Keith Richards. Então, para este disco, conta-se que os dois praticamente pararam de tomar seus "remédios" para ficarem extremamente concentrados e focalizados com suas atenções no trabalho.

O resultado se chama "Beggars Banquet" e é o primeiro disco dos Stones de alto nível, que é uma obra artística completa em si, e não apenas uma junção de ótimas canções colocadas uma atrás da outra. É também o primeiro disco da banda sem a participação de Andrew Oldham. Oldham, o empresário e produtor da banda até então, vendera seu contrato para Allen Klein no ano anterior, durante as sessões do disco "Their Satanic Majesties Request". Para produzir as sessões, Jagger contratou Jimmy Miller, um americano de Nova York que estava morando em Londres, e que trabalhara bem em discos de grupos como Spooky Tooth e Traffic.

"Beggars Banquet" deixa a psicodelia de lado e volta para a raiz da música dos Stones, que é rhythm & blues. Você encontra um ótimo trabalho de slide guitar em "No Expectations", e de gaita em "Parachute Woman", trazendo de volta aquele aroma de delta blues, tão característico dos primeiros trabalhos da banda, porém com os Rolling Stones bem mais maduros como músicos dentro de um estúdio. "Stray Cat Blues", com frases que atiçam o imaginário ["Bet you mama don't know you scream like that. I bet your mother don't know that you bite like that. I'll bet she never saw you scratch my back." (Aposto que sua mãe não sabe que você consegue gemer assim. Aposto que sua mãe não sabe que você pode morder assim. Aposto que sua mãe nunca viu você coçar minhas costas)], e traz à tona todo um estilo de vida que se torna publicamente marca registrada da banda. O disco prima por utilizar mais o violão acústico do que somente guitarras, uma tendência da época, iniciada após o lançamento do disco "Music For The Big Pink", da The Band. Exemplos são "Prodigal Son" (Rev. Wilkins), "Dear Doctor" e "Factory Girl". Mas isto não quer dizer que a guitarra elétrica tenha sido deixada de lado. O excelente trabalho nas guitarras do álbum é um testamento à genialidade e amadurecimento do músico Keith Richards. Sem poder contar com a ajuda de Brian Jones, bastante ausente neste como no disco anterior, os pianos ficaram nas mãos de Nicky Hopkins, embora tanto Keith como Mick e Bill tenham gravado alguns teclados.

Brian, embora sendo um sujeito extremamente inseguro, uma vez acreditando no que estava fazendo, gradualmente se transformava novamente no músico genial de outros tempos. Entre 23 e 29 de março, o quinteto participou das bases de "Jigsaw Puzzle", "Child of Moon", "Parachute Woman" e "Jumpin' Jack Flash". Mas, quando Keith e Mick começaram a convidar gente como Eric Clapton e Dave Mason para assistir as sessões, a confiança de Brian novamente se esvaiu. É um tanto incerto o grau de participação que Brian teve e que fora aproveitado no álbum. Sabe-se que no início das sessões ele estava acreditando que teria uma chance dentro da banda, e se esforçou, apesar de estar bastante doente. É também certo que a esta altura Mick e Keith estavam extremamente intolerantes com ele. Das poucas vezes que Brian apareceu nas sessões, média de uma vez a cada quatro sessões, as coisas que ele gravou foram colocadas em um rolo mono à parte do master que a banda estava gravando. Embora a ficha técnica mencione pianos, guitarras, percussões e sitar, é praticamente certo que a maioria dessas coisas, se gravadas, não foi para o álbum.

Para complicar ainda mais as relações entre os membros, antes das sessões se iniciarem, havia muita conversa por parte de Mick e Keith, de que todos que quisessem contribuir com material para o disco poderiam trazer suas composições para os ensaios, que seriam testadas. Isto serviria em parte para diminuir as tensões existentes entre a dupla Jagger-Richards e Brian Jones e Bill Wyman, que eram sistematicamente desencorajados a compor para a banda. Esta notícia foi como um sopro de vida para estes dois membros, mas na prática, "a teoria foi outra". Em todos os ensaios, ora Mick, ora Keith tinham uma ou duas canções que a banda precisava trabalhar primeiro e não levou muito tempo para Brian e Bill perceberem que eles novamente não teriam espaço para mostrar algo deles. Brian particularmente recebeu esta situação muito mal. Propenso a depressões e emocionalmente fragilizado por problemas particulares, Brian perdeu sua auto-estima e se afundou em barbitúricos com álcool, contribuindo cada vez menos para o álbum. Outra insatisfação entre os membros residia na participação de idéias por parte de Bill, Charlie e Brian para músicas que chegavam aos ensaios mal acabadas. Idéias que mudavam fundamentalmente a concepção da canção, mas continuavam como autoria de Jagger- Richards.

Os dois maiores sucessos, ou melhor, as duas músicas que mais promoveram o disco acabaram censuradas nas rádios. São elas "Street Fighting Man" e "Sympathy For The Devil". O álbum abre com "Sympathy For The Devil", uma canção que causou extremo desagrado entre o público mais religioso e conservador. A canção, que inicialmente se chamava "The Devil Is My Name", é tida como a primeira e mais clara ligação entre o rock e o satanismo. Muito se falou sobre esta canção, mas poucos realmente procuram saber de onde vem sua inspiração inicial. A banda excursionou com a música durante 1969, fechando o ano com o catastrófico show em Altamont. Depois, tirou a canção do repertório, só voltando a utilizá-la na excursão "Voodoo Lounge", na década de noventa.

Pouco divulgado é o fato de que a música "Sympathy For The Devil" é originalmente inspirada no livro "The Master And Margarita", de Mikhail Bulgakov. O romance fala em Satã visitando Moscou nos anos 30 para ver os efeitos da revolução russa. Satã então transforma a polícia em tolos, os poetas em ignorantes e faz os ateus acreditarem em Deus. Santos são transformados em pecadores e Deus é o Diabo. O romance é uma vasta alegoria sobre a luta entre os poderes do mal e os poderes da luz. O mal está no poder até que os herdeiros da verdade tomam o poder de volta, mas logo começam a imitar aqueles a quem venceram, tornando-se então o mal. Assim o ciclo continua por toda a história humana. Mick terminou de ler o livro e imediatamente passou a escrever a canção. "Please allow me to introduce myself", a primeira linha da canção de Jagger é uma frase retirada do livro. Quando a canção foi lançada, era a certeza que faltava para crucificar os Stones, principalmente Mick Jagger, como o anti-cristo, trabalhando para Satã. Nunca o rock e o satanismo se abraçaram tão afetivamente.

Já a letra de "Street Fighting Man" nasceu durante o ápice do período político de Mick Jagger. Hoje em dia pouco se fala, mas entre 1966 e 1969 Mick Jagger desempenhou um papel político extremamente importante durante a revolução jovem (também chamada de revolução de costumes), muito antes de John Lennon. A mídia o chamaria de "A Voz da Geração" e seu ego adorando a atenção, o fez sonhar em levar a política mais a sério. Em 1968, com passeatas pipocando por todo os Estados Unidos, na França e na Tchecoslováquia, sem falar no Brasil e Chile, estava óbvio que os jovens não iriam só ficar cantando sobre paz. Era o momento de ser politizado e atuante. Nesse estado de espírito, Jagger participou de uma passeata em Londres contra a guerra do Vietnã, em frente à embaixada americana. Quando foi reconhecido pelas pessoas, principalmente jornalistas que começavam a querer lhe fazer perguntas sobre quando iria sair o próximo LP da banda, e fãs exigindo seu autógrafo, esquecendo totalmente as questões políticas pelas quais estavam ali, ele preferiu ir embora. Foi possivelmente neste dia que Mick Jagger percebeu amargamente que a fama o excluía da revolução. Ele era uma distração e não um líder. Ao chegar em sua luxuosa residência, ele escreveu a letra de "Street Fighting Man".

Everywhere I hear the sound of marching charging feet, boy
(Todo lugar eu ouço o som de pés marchando, cara)
Cause summer's here, and the time is right for fighting in the street, boy
(Pois o verão está aqui e a hora é esta para lutar nas ruas, cara)
But what can a poor boy do?
(O que mais pode um menino pobre fazer? )
Except to sing for a rock and roll band
(A não ser cantar em uma banda de rock 'n' roll)
Cause in sleepy London town there's just no place for a street fighting man! No!
(pois na sonolenta cidade de Londres, não há lugar para um lutador nas ruas! Não!)

Lançado como compacto em julho, a canção é banida das rádios e o compacto recolhido com menos de uma semana nas lojas, por medo de incitar ódio e rebelião. Embora a áurea de "Voz da Geração" permanecesse com ele por mais algum tempo, Jagger concluiria que ele era rico demais para defender o trabalhador e que, no fundo, ele gostava mais da vida de um astro de rock. Quanto à gravação da sua música, Keith chegou um dia no estúdio com um tema que ele gravara em seu K-7 portátil. A música, que ele chamara de "Primo Grande", soava bem na gravação feita de forma caseira, mas soava estranhamente diferente, quando gravada profissionalmente. Charlie então trouxe uma caixa e um contra-tempo em miniatura e, sentado no chão ao lado de Keith no violão, gravaram os dois esta base no K-7. Esta gravação foi então transportada para a mesa de oito canais. O resto da banda contribuiu normalmente. Jagger ofereceu a letra e esta é a história atrás do som peculiar da base desta canção.

Em junho, Mick e Keith foram para Hollywood com Glyn Johns e Jimmy Miller, para mixar o disco. As mixagens aconteceram em diversos estúdios da cidade e mais tarde estas sessões foram acompanhadas também por Charlie. Foi cantando nas ruas de Los Angeles que Mick achou, ouviu e contratou o coral negro utilizado no final da canção "Salt Of The Earth". Os rapazes trabalharam duro e incansavelmente no projeto, com intenções de tê-lo pronto até dia 26 de julho, aniversário de Mick. Embora o disco tenha ficado pronto a tempo, houve problemas em relação a escolha da capa.

Embora o nome "Beggars Banquet" já estivesse escolhido, várias idéias foram experimentadas para a capa. Uma delas acabou se tornando a foto central do disco, com a banda travestida de vagabundos, ao redor de uma mesa em uma sala com decoração semelhante à era medieval. Outra opção foi uma série de fotos tiradas no campo, com a grama alta e a banda vestida com roupas medievais e chapéus em formatos engraçados. Estas concepções e fotos foram todas realizadas em maio, ainda na Inglaterra. Quando foram para Los Angeles, Mick e Keith, já insatisfeitos com estas idéias iniciais, criaram então com Anita Pallenberg a concepção da foto de um banheiro público grafitado. Ainda em Los Angeles, contrataram um fotógrafo, acharam um banheiro e grafitaram eles mesmos a parede. Quando apresentada à Decca, a gravadora taxou a capa como sendo agressiva e afrontosa. Jagger ainda tentou chegar a um meio termo propondo cobrir a capa com um envelope marrom, com os dizeres "impróprio para crianças" (idéia recusada).

No fim, o impasse continuou até novembro, com Mick Jagger e a banda tendo que ceder. A capa então saiu toda branca, imitando um convite, com o nome da banda mais o título Beggars Banquet, além de RSVP escrito no canto inferior direito. As comparações com a capa do Álbum Branco dos Beatles foram inevitáveis, mas o atraso no lançamento já era tanto que havia uma tremenda pressão para que o disco saísse a tempo para as vendas natalinas. Ironicamente, o episódio renderia inspiração para o refrão da canção "You Can't Always Get What You Want", gravada pela banda em novembro e que seria parte do material para o álbum seguinte. Pouco mais de vinte anos depois, com o surgimento do Compact Disc, as partes encontraram uma maneira de relançar o produto no mercado, agora com a capa da privada, a idéia original. O detalhe, porém, é que muito do graffitti original foi apagado por computador.

Estes foram alguns dos detalhes ocorridos durante as gravações e criação deste álbum histórico. Ele chegaria a nº 3 no Reino Unido e nº 5 nos Estados Unidos. O disco foi visto pela crítica como um marco para o fim da música pretensiosa, iniciada alguns anos antes. O álbum foi considerado pela revista Rolling Stone o melhor disco do ano. Mesmo sem tocar nas rádios, "Sympathy For The Devil" foi eleita a melhor faixa do ano e a banda The Rolling Stones manteve a coroa de melhor banda de rhythm & blues existente.

Beggars Banquet
Data de lançamento: 06.12.1968

1. Sympathy For The Devil - 6:14
2. No Expectations - 3:52
3. Dear Doctor - 3:19
4. Parachute Woman - 2:17
5. Jigsaw Puzzle - 6:07
6. Street Fighting Man - 3:10
7. Prodigal Son - 2:47
8. Stray Cat Blues - 4:32
9. Factory Girl - 2:06
10. Salt Of The Earth - 4:43

The Rolling Stones:

Mick Jagger - Voz , violão, gaita, percussão e teclados
Keith Richards - Guitarra, baixo, teclados e vocais
Charlie Watts - Bateria
Bill Wyman - Baixo, sintetizadores, teclados, vocais
Brian Jones - ?

Nicky Hopkins - Piano e teclados

Produtor - Jimmy Miller
Engenheiro de som - Glyn Johns e Eddie Hedges

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